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 Quando as gárgulas despertam…, Mais um conto
noonessoul
Posted: Jul 19 2005, 04:52 PM


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Como prometido (e pedido), aqui vai:


Quando as gárgulas despertam…

O imponente edifício prismático erguia-se para o céu, irradiando os reflexos pálidos da luz solar na sua superfície espelhada. Nathaniel sentara-se num banco público, colocando suavemente a moeda na ranhura que lhe permitia tal prazer, e intercalava a visão do edifício para olhar o folheto publicitário que segurava nas mãos. O papel, rejubilando em cor e sorrisos, apresentava em letras descomunais um tentador convite: “Quer mudar a sua vida?”
“Quem não quer?”, pensou Nate, esboçando um pequeno esgar de tristeza controlada, um leve sentimento de ódio apimentando tal expressão.
O folheto continuava, as suas fotografias irradiando felicidade e profunda alegria. E, numa delas, uma multidão indicava o caminho para aquele edifício de cristal, a Casa dos Sonhos, assim lhe chamavam. Pois aquela era a sede da Replicação e Éden.
Haviam passado dez anos desde o nascimento de Adam. E, ao contrário do primeiro homem, a pobre criança não tivera uma segunda oportunidade, mesmo que o erro do seu nascimento não tivesse sido seu. Adam fora o primeiro bebé cujo genoma fora modificado ainda antes da sua concepção artificial. Um milagre da ciência, chamaram-lhe uns; um aborto da mente corrupta do Homem, disseram outros. E, cercado pelos que o amavam e pelos que o odiavam, Adam morreu, a sua infância ainda a despontar, um tiro abaixo do abdómen sentenciando o seu destino. Mas a existência de Adam teve um propósito, ainda que ele nunca tivesse tido essa percepção. A ciência sabia agora criar homens e mulheres com o aspecto e as capacidades intelectuais que se pudessem conceber. Empresas como a Replicação e Éden rapidamente se apoderaram de meios e técnicas que permitissem alcançar, e comercializar, todas as potencialidades daquela nova tecnologia. E como eram imensas tais potencialidades…
Nate observava o folheto com a avidez sôfrega de um faminto. Por uma vez na vida, sentia-se como aquelas personagens das histórias infantis que encontravam um tesouro há muito perdido e que os ajuda a pagar a operação do pequeno Todd ou acabar com as dívidas do Orfanato da Tia Liz; sentia-se como o velho John Doe que, finalmente, descobre que o seu nome é John Smith. Deus ou, quem sabe, o Diabo, que por tantos anos haviam cuspido sobre o caminho que a sua vida tinha trilhado, pareciam agora magnânimos e, na sua pia misericórdia, ofereciam à velha iguana enrugada de quem sempre tinham troçado um renascer, qual fénix reerguendo-se das suas próprias cinzas.
Nascera há trinta e sete anos, numa cidadezinha do norte, perdida no esquecimento das metrópoles. Dela, apenas conservava o suave sotaque, daqueles que mesmo morrendo, tarda em desaparecer das cordas vocais. Desde pequeno que ganhara a alcunha de Jabba, mas só mais velho descobriu que não era propriamente um nome carinhoso. Já em criança, as rugazinhas no cimo da testa eram evidentes, principalmente quando abria a descomunal boca ou arregalava os gigantescos olhos. O nariz, franzino entre os aros de uns óculos grossíssimos, perdia-se na imensidão do rosto, como se, pura e simplesmente, não existisse. E, assim, Jabba cresceu, complexado pelo seu reflexo no espelho e pela crueldade tipicamente natural das crianças.
As portadas da Casa dos Sonhos abriam-se, ocasionalmente, deixando entrar homens e mulheres trajando compridas batas brancas e, de quando em quando, uma pessoa vestida normalmente cruzava aquelas portas de vidro, sempre envergando largos sorrisos. A Replicação e Éden estava na vanguarda da chamada tecnologia da vida. Era uma maneira simpática de dizer que fabricavam bebés em série para os mais variados fins. Uns, aqueles a quem a sorte, porventura, bafejasse, eram destinados aos seus futuros pais e mães que, por catálogo, os haviam elegido como perfeitos. Outros, aos quais os Deuses haviam destinado ser meras conchas, eram desenvolvidos nas máquinas de luz até atingirem a aparência de jovens adultos, sendo que, para que o seu corpo pudesse ser usado por aqueles velhos cuja conta bancária arrota zeros até ao infinito e cujo sonho é não morrer nunca, os seus cérebros seriam removidos cirurgicamente e, num só momento, substituídos por essas mentes carcomidas pelo tempo e pela ignóbil mesquinhez. Nathaniel era um desses milionários, embora os seus motivos não se prendessem com a enfadonha imortalidade.
Chamava-se Laura. Tanto quanto sabia, era uma emigrante sul-americana, como tantas outras que, ultimamente, tinham inundado o país com o seu aspecto exótico e embriagante. Laura não escapava a esse estereótipo. Tinha uns fulgurantes olhos verdes, daqueles que fazem sonhar com a floresta virgem, e uma pele morena, como um perfumado grão de café que começa a torrar. Nate conhecera-a num desses jantares aborrecidos que a vida social o obrigava a assistir. Estava acanhado num fato escuro, a cor algo indistinta, quando a viu, maravilhosa, num esplendoroso vestido verde com tons marinhos, brilhando ao sabor das suaves oscilações do tecido cintilante. Foram apresentados por uma qualquer megera, casada com um qualquer milionário hipócrita apenas pelo estatuto social ou pelo dinheiro deste, e falaram durante toda a noite. Perto dela, Nate esquecia-se Jabba, olvidava a gigantesca boca anfíbia que possuía ou os olhos disformes ou mesmo as rugas na testa que o transformavam num dragão de Komodo nauseabundo enfiado num fato Armani. Nada disso parecia importar junto dela. E como isso parecia sentimental e melosamente curioso, agora que se atrevia a relembrá-lo. Aos trinta e sete anos, e como isto pareceria anormal aos olhos de Freud, nunca parecia ter sentido qualquer carinho por uma mulher, nem mesmo a alcoólatra da sua mãe. Felizmente, pensara, também não o sentira por nenhum homem…
A máquina onde colocara a moeda para se sentar no banco de jardim começou a apitar, como se pedisse alimento. Nathaniel olhou para ela, as suas sobrancelhas ligeiramente arqueadas. Era um aparelho estranho e as suas funcionalidades eram, por vezes, incógnitas na idealização de Nate. Possuía uma pequena ranhura, onde se colocavam as moedas para que o campo electrificado do banco se desligasse durante um tempo determinado. A utilidade de tal engenhoca, outra que não consumir dinheiro àqueles que, nostálgicos, gostavam de se sentar por ali e descansar o olhar num jardim totalmente artificial, era completamente oculta do saber de Nate. E talvez não o quisesse saber, verdade seja dita. Levantou-se e, num único movimento, espreguiçou-se. Observou uma vez mais as portas da Casa dos Sonhos e, ganhando ímpeto, avançou.
Laura era uma escritora bem sucedida no mundo editorial, muito embora o seu pseudónimo profissional fosse totalmente desconhecido de Nate. Nas capas dos seus livros, Laura deixava que aparecesse, em letras recurvadas, o nome de Joshua King.
— Porquê um pseudónimo, ainda para mais masculino? — perguntara Nate, quando o álcool ainda não dominava os seus sentidos.
— Não sei. É algo visceral, algo intrínseco ao acto de escrita — começara por responder Laura, sorvendo um trago de champanhe. — Talvez seja a forma de entrar também na história, naquele mundo que se cria ao redor das personagens, que são o escritor como o escritor é as personagens. É como se você, Nate, entrasse numa personagem para escrever e imaginar outras personagens, percebe?
Nathaniel não percebera, ficara embasbacado sugando cada palavra e não perdendo tempo a interpretá-la. Mas isso não importava, acenou que sim para não parecer ignorante. Se havia coisa que aquelas tertúlias profundamente aborrecidas lhe haviam ensinado era que a aparência era o mais importante. Aquelas tertúlias e a adolescência…
Após o inferno que a infância lhe havia proporcionado, o jovem Jabba esperava que a adolescência fosse um pouco mais cordial. Pura ilusão. Os adolescentes, por mais que tentem esconder isso, retêm uma infantilidade cruel no seu íntimo. E se Nate esperava deixar de ser Jabba, acertara, embora com um ímpio revés: passou a ser chamado Gárgula. Estava na idade do primeiro amor, das hormonas saltitantes, da estupidez natural e dessas outras coisas que o amadurecimento parece apagar da memória. Nathaniel, contudo, não fora um adolescente propriamente normal. O seu dinheiro, por demais evidente na limusina que o levava todos os dias ao colégio, não atraía os usuais abutres e Nate via-se gozado e insultado por tudo e todos, não tendo motivo algum para se apegar a ninguém. Porém, tais vivências pareciam passadas e Laura parecia, a cada momento, reforçar essa ideia.
O interior do edifício mantinha o mesmo aspecto lácteo e espelhado do seu exterior. Um colossal átrio, repleto de cadeiras de aparência confortável que forravam as paredes, terminava numa bancada longa, onde três funcionárias de sorrisos artificiais atendiam quem a elas se dirigia. Observando cada uma, Nate dirigiu-se lentamente para uma ruiva voluptuosa, que parecia sorrir-lhe afectuosamente.
— Boa tarde, bem-vindo à Replicação e Éden! Posso ajudá-lo a ser mais feliz? — perguntou ela, num tom monocórdico e mecânico. Tratava-se de um andróide, de certeza, embora a diferença entre uma máquina e um humano fosse cada vez mais difícil de encontrar.
— Tenho marcação com o Dr. Zen, para as catorze.
Por momentos, os olhos felinos da mulher reviraram-se, causando uma sensação estranha em Nate. O sorriso mantinha-se, artificial e maquinal, quase tão real como o seu. Mas aquele impossível retorcer provocou-lhe um arrepio no corpo, mesmo sabendo estar diante de um robô.
— Nathaniel Ball, sim? — Não esperou resposta. — Pode dirigir-se para o elevador. Quarto andar, consultório doze, por favor. — Parou, como se para retomar o fôlego de que não necessitava. — E seja feliz! — desejou, sem sentimento algum.
Afastou-se da bancada suavemente e arrastou-se até ao elevador. Nem olhou para trás para agradecer à mulher, os seus pensamentos divagando longe, longe das portas abertas do elevador.
As portas do restaurante haviam-se aberto depressa e um empregado, smoking vestido e impecavelmente engomado, apressara-se a esboçar ameno sorriso. Tudo ali luzia com tons de dourado e vermelho, num espectáculo de carnavalesco luxo. Os empregados passavam com pratos parcamente repletos, como se a sua utilidade fosse apenas o aguçar o apetite ao invés da eliminação da fome, diga-se gula controlada. Nate puxara ligeiramente Laura pelo braço, trazendo-a até à mesa que o empregado indicara.
— Espero que goste do restaurante. — dissera Nate, ansioso. — Diz-se ser o melhor da cidade, todos o frequentam.
— Nem todos, infelizmente! — Era um aspecto curioso de Laura, o seu sentido do permanente desequilíbrio entre ricos e pobres. Normalmente, e Nate sabia dezenas de exemplos quase instantaneamente, esse tacto tem uma estranha tendência a desaparecer quando se começa a possuir notoriedade e dinheiro. Ela não e, como tantas outras coisas nela, isso fascinava Nathaniel profundamente.
Um empregado negro viera atende-los, apontara num pequeno PDA o seu pedido e desaparecera, como se feito em fumaça. Isto causara estranheza a Nathaniel. A utilização de andróides neste tipo de profissões estava mais que massificada, embora tal não representasse um evidente incremento de qualidade nos serviços prestados. Aliás, um qualquer estudo num jornal qualquer revelava que os clientes achavam ser melhor atendidos por humanos do que por máquinas. Talvez a eterna busca pela perfeição passe obrigatoriamente pela obtenção do imperfeito, pensara Nate.
Ele e Laura haviam combinado este almoço na noite anterior, aquando do jantar onde se haviam conhecido. Tal como antes, não havia Jabba ou Gárgula entre eles, pelo que Nate sentia-se plenamente descontraído. Até demasiado para quem passara a noite em claro pensando no que vestir e no que dizer.
— Ontem não lhe cheguei a perguntar o que a trouxe à cidade, ao meu país. — dissera Nate, bebendo um trago de whisky que o empregado acabara de colocar sobre a mesa.
— Bem… — começara ela, enfrentando o olhar dele. — Venho visitar o meu noivo, que trabalha cá como editor. Aliás, é ele quem edita os meus livros cá. Sabe, é muito complicado… — A boca abrira-se e fechara-se e, porventura, as palavras haviam saído, mas Nate perdera o fio condutor da conversa quando ela lhe respondera. Levantara-se, tirara três notas de cem da carteira e fora-se embora, não ouvindo Laura chamar, incessantemente, o seu nome.
— Nathaniel Ball, certo? — perguntou o homem de bata branca. Usava uns óculos ridículos, de cores carnavalescas, quase como se pertencessem a uma criança. — O meu nome é David Zen e estou aqui para o fazer feliz!
Era invulgar o modo leviano como a palavra feliz brotava espontaneamente das bocas de todos os quantos trabalhavam naquela empresa. O conceito da felicidade é algo tão abstracto que dificilmente uma pessoa é, concreta e totalmente, feliz, pensou Nate. Ainda assim, continuou, a Casa dos Sonhos fornecia uma felicidade momentânea, isso era certo, e, portanto, faziam as pessoas felizes. Tais pensamentos puseram-no confuso com a estranha lógica que maquinava. Malditos anti-depressivos…
— Então Nathaniel…
— Nate, por favor!
— Nate, seja! — disse Zen, acenando levemente com as fartas sobrancelhas. — Diga-me o que o traz à Replicação e Éden.
Nathaniel, ou melhor, Gárgula, baixando vagarosamente o olhar até ao chão rosáceo, deixou as suas memórias fluírem sem pressas, no seu próprio ritmo. Chegara a casa, devastado, envergonhado, furioso consigo e com o mundo que o parira assim, uma triste salamandra rugosa e abominável. Frente ao espelho, arrancara cabelos, rasgara a sua carne com a força das suas mãos e dos vidros que seguravam, sangrara e desmaiara e acordara vivo entre médicos e enfermeiras. Tomara medicamentos, ouvira psicólogos ainda mais psicóticos que ele, amaldiçoara pai, mãe, avós e avôs e toda a família que conhecia ou não até à vigésima geração. E, por fim, amaldiçoou-se a si, como o último a quem culpar. Era Jabba e Gárgula e todos os outros nomes que não sabia, mas que sentira uma ou outra vez pairar-lhe sobre o ombro. Chamara-se estúpido e tantas outras coisas que agora parecia ter esquecido e dissertara infinitamente sobre o tudo e o nada e todas as outras parvoíces que o álcool imaginara na sua cabeça. Por fim, saíra de casa. E, vagueando pelas ruas da imensa metrópole, vira um papel esvoaçar docemente pelo ar, observara quando este lhe caíra sobre os pés e lera-o enquanto andava sem destino. E, assim, chegara à Casa dos Sonhos…
— Então? — perguntou David, um sorriso marcando-lhe o rosto.
— Quero um novo corpo!
O rosto do médico iluminou-se. Bastava observar minimamente para o aspecto físico de Nate para perceber que a sua existência ansiara por um novo… uma nova configuração desde que nascera.
— Muito bem. Tem noção das quantias envolvidas em tais processos?
Nathaniel não tinha. Mas isso pouco importara, dinheiro nunca fora problema e não o seria agora. Acenou afirmativamente e calou-se.
— Bem, Nate, normalmente explicamos todo o processo de… o processo de criação e transplante de um novo corpo. Se me quiser seguir…
Abriu a porta e dela surgiu uma luz imensa, ofuscante. Por segundos, a velha Gárgula esqueceu que estava na Casa dos Sonhos e viajou. A sua memória calcorreou montanhas e vales, oceanos e planícies, deserto e a infinidade gelada da neve e encontrou-se envolvido pelas nuvens de fumo dos quatro dragões. E como era exótica Banguecoque ao amanhecer, os seus estranhos e inebriantes odores entrando pelas suas narinas. Estivera lá durante as férias. Andara de mochila às costas por entre as multidões e não raras vezes sentiu-se mais leve quando uma mãozinha lhe retirava a carteira de um qualquer bolso. E, quando a noite caíra, quantas vezes se vira sentado na escuridão do Paraíso Violeta, vendo andróides voluptuosas despirem as suas roupas e mostrarem os corpos sintéticos desnudos, o insuflável que ganhara vida. Ao menos ali, ainda que simulado, recebia algum afecto. O quanto isso parecia distante agora…
O gigantesco recinto onde entrara estava repleto de inúmeras esferas rodopiantes, as máquinas de luz que tornavam horas em anos.
— Depois dos corpos, ainda com os seus cérebros originais, saem dos nossos laboratórios de criação, vêm para aqui — começou David, agitando a mão na direcção das colossais esferas. — Ali dentro, acompanhados por um andróide devidamente preparado para o efeito, o corpo é trabalhado para atingir uma determinada idade física e a compleição desejada.
— Compleição?
— Sim — respondeu o médico. — Uma das nossas áreas de actividade é a indústria cinematográfica, por exemplo. Neste momento, temos algumas dezenas de corpos em câmaras criofísicas, enquanto os seus cérebros actuam noutros corpos e arrecadam prémios dourados. Depois, com uma pequena intervenção, o cérebro recupera o seu corpo original e o excedente é reciclado.
O seu discurso era calmo, como se tudo aquilo fosse natural. O valor da vida daqueles corpos, daqueles seres que estavam no interior daquelas enormes bolas era uma simples questão de zeros num cheque bancário.
— Ah, percebo. Então, e a escolha dessa compleição é feita como? Têm algum catálogo? — perguntou, sorrindo.
— Sim, sim. — A resposta arrancou abruptamente o sorriso do rosto de Nate. — Se fizer o favor de me seguir, posso mostrar-lhe como o pode fazer rapidamente.

— ~ —

Tóquio, a pérola do oriente. Como era agradável ali regressar, agora que a gárgula despertara do seu sono nocturno. Passeando lentamente pelas ruas apinhadas da cidade, sentia-se vítima dos olhares da multidão, mas não pelas razões que o fora Jabba ou a Gárgula de outros tempos. O seu novo corpo era como a chama de uma fogueira na penumbra da noite.
O processo fora simples, demasiado simples, pensara Nathaniel. Depois de escolhidas as características gerais do corpo que desejava possuir, de entre uma infinidade de opções, passou ao futuro registo clínico da sua pessoa. Era algo estranho poder optar por ter um cancro na próstata aos sessenta e cinco ou poder apagar essa possibilidade com um simples clic. E, para finalizar, assinou o contracto com a Replicação e Éden, além de um termo de responsabilidade e de, na presença de um juiz que autorizou a sua “nova identidade”, lhe ser implantado o chip de identificação e controlo. No espaço de horas nascera a sua nova identidade, Michael.
Quando saiu da Casa dos Sonhos não pôde deixar de se questionar. A identidade, tal como os seus pais ou os seus avós a haviam encarado, era uma irónica quimera no mundo em que vivia. Erikson dizia que a identidade era construída pela percepção que o indivíduo tinha de si, mas Nate duvidava que Erikson alguma vez tivesse imaginado que Adam ou a sua progénie pudessem existir. A identidade tornara-se algo tão frágil como o era a humanidade, agora que os andróides caminhavam entre humanos.
Naquele dia, que agora era também a data do seu nascimento, o seu segundo nascimento, Nathaniel Ball, o excêntrico milionário, exilara-se em qualquer parte do mundo e, deixado para cuidar da fortuna da família Ball, ficara Michael Fisher. O velho juiz da Casa dos Sonhos mostrara-se algo reticente a tal procedimento, mas nada que um cheque não tivesse resolvido. A incorruptibilidade era um defeito raro, pensara Nate. E assim, com a facilidade com que se compra um televisor ou uma peça de vestuário, alguém tinha nascido, desde logo com a aparência de uns esplendorosos trinta e muitos anos.
Estava em Tóquio há alguns dias. Desde o nascimento de Michael, ou da morte das gárgulas do passado, haviam passado três meses e, sem que algo tivesse mudado na sua personalidade como Nathaniel, o Sr. Fisher era a novidade do momento na sociedade. Mas o que o levara ali não fora uma qualquer sessão fotográfica fútil ou uma viagem cara paga por alguém, como o faziam os seus pares, fora Laura.
Durante os meses que se seguiram ao triste e desolante espectáculo que fora aquele almoço, Nate pudera conhecer, ainda que à distância, a mulher que provocara uma revolução na sua vida. Joshua King, como ela insistia em assinar no término das suas obras, era um autor em ascensão. Com doze romances publicados no seu país de origem, Laura preparava, agora, a conquista do resto do mundo. As suas histórias possuíam uma temática algo espiritual, ainda que muito oca e supérflua, muito centrada no auto-conhecimento e na eterna luta Bem versus Mal. Nada muito profundo, embora criasse legiões de fãs e vendesse como pipocas em cinemas. Michael já lerá sobre um outro autor brasileiro com um perfil parecido, algo abominável de se ler, mas o nome apagara-se da sua memória… Ainda assim, os livros dela haviam caído sobre a sua mesa-de-cabeceira e rapidamente as suas páginas haviam sido calcorreadas. Aliás, a sua função era mesmo essa: consumo rápido e desenfreado. Com uma pequena pesquisa na imprensa especializada, soubera do seu noivado com um poderoso editor de língua inglesa, quem sabe a sua rampa de lançamento para o mundo. Segundo os extensos relatórios que recebera dos detectives privados que contratara, era uma pessoa fria, calculista, dominadora. Alguém ignóbil, achara Nathaniel ao ler tudo aquilo. Mas como lhe parecera diferente, quando haviam estado juntos.
“Talvez eu traga ao de cima o melhor que existe nela”, pensara, tentando recriar a imagem que tinha dela, do pouco tempo que passara com ela. E, ainda que estes pensamentos o atormentassem um pouco, decidira ir vê-la a Tóquio, a última paragem da conquista dela.
Marcara um jantar com Laura, sob o pretexto de estar interessado nas licenças cinematográficas dos seus livros. Alugara todo o restaurante para essa noite, violinos tocados ao vivo, um pianista só para eles, empregados à sua disposição. E, meia hora antes do combinado, já ele se sentava na mesa central, copo de whisky frente aos olhos, aguardando pacientemente. Por fim, ela chegou.
— Desculpe o atraso, senhor…
— Michael Fisher, mas pode tratar-me por Mike se me deixar tratá-la por Laura. Pode ser?
— Com certeza… Mike. — Soltou uma gargalhada que pareceu honesta a Nathaniel.
Sentaram-se e o empregado rapidamente trouxe uma travessa, na qual o cozinheiro dispusera as finas lascas de peixe sob a forma de uma ave pernalta.
— Sabe o que tem diante de si? — perguntou Mike, sorrindo. Ela respondeu negativamente com um ligeiro aceno. — Os japoneses chamam-lhe fugu. É uma espécie de peixe-balão e a sua carne, se mal preparada, é altamente tóxica, fatal até. — O rosto de Laura contraiu-se. — Espero não a estar a assustar.
— Não, esteja descansado.
Por incrível que lhe pudesse parecer, Nate sentia-se poderoso, como se algo sobre-humano pulsasse dentro de si. Sentia-se a controlar a situação como nunca antes o sentira.
— Bem, vamos comer qualquer coisa. — Pegou nos dois pauzinhos que ladeavam o prato e retirou cuidadosamente uma fatia do peixe. — Sabe, o fugu é tão apreciado porque, se for devidamente preparado, retém nas suas… postas uma quantidade ínfima de toxina que faz adormecer os músculos da sua língua. É algo… extremamente divertido. — Ela olhava para ele de uma maneira penetrante e Nate pensou tratar-se do seu novo corpo, a produzir os efeitos que pretendera. — Mas que rude da minha parte, estou a monopolizar toda a conversa, não é?
Laura olhou-o nos olhos e acenou ligeiramente.
— Tenho esse pequeno grande defeito, sabe? — disse-lhe ele, como se se confessasse a um sacerdote. — Não consigo parar de falar… Mas evitemos esse me descuido. — Sorriu e, rapidamente, foi acompanhado pelo sorrir de Laura. — Diga-me, se eu lhe propusesse sairmos daqui, imediatamente… Não sei, irmos a Paris, a Londres, a Nova Iorque… Diga-me um local e, sem que se aperceba disso, estaremos lá. Vem?
Laura olhou para ele. Lançou-lhe aquele olhar intenso, como se pudesse ler-lhe a alma, aquela estranha matéria que nos define, nos identifica. Permaneceu assim durante alguns segundos, mas, na indecisão dela, tal tempo pareceu infinito a Nathaniel.
— Desculpe, Mike, mas vou ter de recusar esse gentil convite…
Michael sentiu-se, novamente, naquele restaurante, naquele doloroso almoço, tantos meses passados desde aí. Repentinamente, conseguiu ver os olhos brilhantes de Laura, cintilando da mesma forma que há tanto tempo atrás. Sentiu uma sombra cair sobre si, como se o afundasse dentro de si mesmo.
— Sabe, Michael, nunca contei isto a ninguém… Nem a mim mesma, se quer saber a verdade. Há uns meses estive noiva, um poderoso e influente editor americano a prometer-me como futuro as montras de todas as livrarias e papelarias e de todos os locais que, porventura, vendessem os meus livros. E como isso me ofuscava, como realmente me deslumbrava… Eram sonhos tornados realidade, sabe?
Ele baixou o olhar. As palavras dela ecoavam-lhe na mente e, pensou, isso apenas tornava aquele momento mais doloroso.
— E bastou o vislumbre de um homem para me fazer esquecer sonhos e pesadelos. E, sabe, não me arrependo, ainda que ele não esteja a meu lado, partilhando as minhas alegrias, as minhas tristezas… Enfim, e como isso também é importante, os meus lençóis…
Laura começava a magoá-lo, como se lhe rasgasse um qualquer órgão vital com um punhal de palavras e actos e, olhando para ele com desdém, o deixasse ensanguentado, esvaindo-se até à morte num recanto escuro.
— Como criei esperanças, ilusões com esse homem. O Michael nem faz ideia como criei espectativas com esse homem. Ele não era um príncipe encantado, que me vinha buscar montado a cavalo, mas eu nunca desejei um príncipe! — Sorriu, tentando esconder o rubor que aflorava nas suas salientes maçãs do rosto. — E, o mais estranho, o mais bizarro de tudo é que apenas o vi duas vezes… Por duas ocasiões fugazes…
Nathaniel sentiu-se cair num abismo infinito, numa escuridão eterna. O seu olhar emudeceu, ainda que dificilmente conseguisse chorar ou largar uma lágrima sequer. Subitamente, mergulhou num imenso mar de água gelada, acordando-o da paralisia que o consumia.
— Chamava-se Nathaniel, Nathaniel Ball. Conhece-o?
Michael não conseguiu esboçar mais que um suave aceno, sem afirmar ou negar o que quer que fosse.
— O Mike não me conheceu antes de eu ser conhecida, mas, se permite que me confesse, eu era uma pessoa abjecta. As minhas prioridades na vida eram o dinheiro, a beleza… Se quer que lhe resuma, vivia para todas as futilidades que a civilização teve o condão de inventar. Com o tempo, o mundo fez-me perder essas noções de grandeza, de tal forma que perdi a vontade de tais… riquezas! — A última palavra saiu-lhe tremida. — O Mike deve estar-se a perguntar o porquê, então, de me deslumbrar com o meu ex-noivo e com as suas oferendas.
Nathaniel vagava longe, ao sabor de um oceano imenso de sensações contraditórias. Ouvia as ondas do mar, sentia o odor salgado da maresia, via a infinidade da linha do horizonte…
— Chame-lhe uma recaída. — O seu rosto ruboresceu. — Mas isso nada importa, porque o fundamental é o meu encontro com o Nate. — O antigo nome de Mike fê-lo estremecer, como se uma gigantesca vaga o tivesse abordado violentamente. — Sabe, estávamos ambos num desses jantares agridoces, onde sentimos a miscelânea de frivolidade em que nadamos. Mas o Nate era um grão de areia, precioso e delicado, boiando naquele mar de… se me permite a expressão, de merda! — Dissera-o com ímpeto, como se tivesse aguardado aquele desabafo toda a sua vida. — Falamos durante toda a noite e que noite maravilhosa foi. Senti-me bem, como se não houvesse nada em redor, só uma luz que nos iluminava aos dois. Era como naqueles filmes que vemos vezes e vezes sem conta, todos iguais. Sempre pensei que isso fosse um exagero, mas não… Houve um músico brasileiro dos finais do século XX que cantou que o amor era eterno até ao seu fim; eu não lhe podia garantir o futuro, mas desejava dar-lhe todo o meu presente!
A ave pernalta de fugu parecia observar toda a cena, deitada sobre um enorme prato alvo. De um lado, Laura falava como se mel germinasse das suas palavras e um brilho intenso espreitava dos seus olhos, belíssimos faróis de jóias preciosas. Do outro lado, Nathaniel ou Michael, a ave não o percebera ainda bem, vivia numa apatia resignada, como se um qualquer planeamento que havia feito tivesse desabado qual castelo de cartas. Ver era uma faculdade dos vivos, a ave sabia-o bem, mas era tão delicioso ter a oportunidade de experimentar tal sensação. Mesmo que para observar dois tristes humanos, se humanos ainda os existe numa civilização podre e mecanizada, iludidos com os seus medos e esperanças.
— E o que se passou no almoço? — cuspiu um Nate feito Michael.
— O almoço? — perguntou Laura, não se apercebendo que ainda não o havia referido. — Nós, homens e mulheres de igual modo, criamos muitos delírios que sabemos impossíveis de alcançar ou concretizar. É estranho, Mike, como num momento pensamo-nos Deus e no outro, quando Ele se apercebe de tal blasfémia, no ensina a sermos vermes. Isso foi o almoço!
— Como eu a percebo…
Deixaram-se ficar num silêncio mudo, não desejando cessar a conversa que decorria dentro deles. Laura perguntava-se que homem estranho era aquele, num momento Narciso, noutro Orfeu. Nathaniel apenas se desprezava, nada mais.
— Sabe, Laura, houve quem dissesse que o universo não era um mero jogo de dados. Já duvidei mais disso. Um jogo de dados tem uma vontade própria, uma aleatoridade quase pré-programada, mas nunca deixa de ser aleatório. — Os olhos dela seguiam as palavras da Gárgula, uma vez mais metamorfoseado. — Hoje, Deus ou o Diabo ou quem quer que lance os dados e aposte as nossas vidas nesse estúpido jogo, provou-me que nada, nem mesmo este passatempo de que fazemos parte, é aleatório. Muito longe disso…
— Quando diz isso, assim, dessa maneira… Quase parece o Nate.
— Sim, talvez. Mas, mesmo tendo-o sido… — As palavras custavam-lhe a sair, ainda mais quando todo o rosto dela se contraiu. — Já não o sou. Aí está a falta de aleatoridade. Quando toda a vida se torna um simples acontecimento aleatório, tanto faz sair x como y, pois nada disso influencia verdadeiramente a vida. São meras projecções. — Ela estendia-lhe as mãos à face, tentando afagá-lo ou, talvez fosse isso, arrancar uma máscara que ele tornara carne e osso enquanto ele se perdia nas suas divagações lunáticas. — Diz-me, Laura, como posso eu ainda ser o Nate se, e foi essa a minha vontade, me tornei em Mike? Nunca tinha percebido porquê tinhas ido àquele triste almoço, se havia outro entre nós. Pobre idiota que fui… Porque deixara de haver outro, naquela noite, na estúpida festa, não foi?
— Sim… Mas isso pouco importa. Tu, Nathaniel, serás sempre tu, estejas em que corpo estiveres… O que realmente importa é isto! — Lançou a sua mão ao peito dele, derrubando o copo diante de si e o seu precioso líquido sobre a mesa.
— Isso são pieguices que contam nos livros e nos filmes! Servem para velhas desdentadas e homens e mulheres deprimidos. O mundo não gira em torno de um amor, seja ele possível ou não, Laura. — Afastou a mão do seu coração palpitante. — Sabes, minha doce Laura, começo a perceber porque dizem tantas vezes felicidade as pessoas que me fizeram isto. Sabes, elas querem apenas iludir-se a sim mesmas, tal como se iludiram quando o pequeno Adam nasceu ou quando ele morreu… Desejam fazer o papel de deuses, dar felicidade ou tristeza, converter os fracos em fortes! E, por favor, não chores, não é preciso. — Limpou uma das lágrimas que se precipitava dos olhos de Laura com a ponta do indicador e, lentamente, rasgou-a contra o seu próprio rosto. — Não há lágrimas a chorar.
Levantou-se e, uma segunda vez, abandonou-a a gritar incessantemente o seu nome, Nate, Mike ou Gárgula que fosse. Ele despertara do sono enganador que o prendera. E, durante o resto de toda a vida, arrependeu-se de ter acordado e não raras vezes pensou em voltar atrás, esquecer que era um homem que não era e tentar algo que percebera sem sentido. Nunca o fez, talvez porque lhe faltasse a coragem, talvez porque o sabia desprovido de lógica ou razão, talvez porque depois de acordar, não seria permitido adormecer e ignorar…


Edit:
Já tratei da hifenização marada...

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Oblivion
Posted: Jul 19 2005, 04:55 PM


Boss (not bottled)


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Gostei da moral subjacente ao texto. Como já te disse, só há alguns problemas quanto à clarificação dos flashbacks.
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Desolation Angel
Posted: Jul 19 2005, 05:34 PM


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Talvez uma formatação diferente facilita-se a leitura como tu próprio disseste.
A ideia é boa, obviamente se isso fosse verdade levantaria muitas questões sobre a identidade de uma pessoa...
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SiNeSha
Posted: Jul 19 2005, 06:21 PM


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QUOTE
Michael já lerá sobre um outro autor brasileiro com um perfil parecido, algo abominável de se ler, mas o nome apagara-se da sua memória… 


Está tão, mas tão bem metido que tive de comentar antes de continuar a ler! Parabéns! :D
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SiNeSha
Posted: Jul 19 2005, 06:38 PM


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Está ok, embora pareça um bocadinho "ingredientes daqui e dali". Admirável Mundo Novo?
Acho que o diálogo final podia ser melhor explorado. Não é muito... congruente (?) k ela lhe comece a contar aquilo assim de chofre. A conversa dela soa meio a falso... Gostei que ele a tivesse deixado. Há continuação? Ou fica-se por um "e viveu mal consigo mesmo até ao fim dos seus dias"?
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noonessoul
Posted: Jul 19 2005, 08:12 PM


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QUOTE (SiNeSha @ Jul 19 2005, 06:21 PM)
QUOTE
Michael já lerá sobre um outro autor brasileiro com um perfil parecido, algo abominável de se ler, mas o nome apagara-se da sua memória… 


Está tão, mas tão bem metido que tive de comentar antes de continuar a ler! Parabéns! :D

Conheces algum escritor assim, é? :P

O Oblivion fez-me a mesma pergunta, mas nunca li o Admiravel Mundo Novo. A ideia surgiu-me quando estava a pensar a caminho de uma aula, algo como poder trocar de corpo e poder faltar... E, no momento em que estava, a coisa descambou neste texto. Mas obrigado pelos comentários de todos (o flashbacks estão exagerados, eu sei... foi algo mais ou menos prepositado)
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Daemonfey
Posted: Jul 19 2005, 08:52 PM


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Bem, eu achei isto realmente bom. Estive a falar ainda há pouco com o Oblivion sobre o que poderia significar esta mudança. Pareces bem mais confortável com o que escreves, parece-te mais fácil vestir peles e dividir-te pelas personagens. Pode ser evolução, uma boa evolução na fluidez. Mas também acho que te sentes mais confortável em fc do que em fantasy e romances históricos.

Este texto é mais do que digno do Círculo.
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noonessoul
Posted: Jul 20 2005, 04:33 PM


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Respondendo à Sinesha, isto era para ter continuação, mas não com estas personagens. Em principio, ainda me poderei (mas não para já) na história de Adam e algumas coisas da Replicação e Éden, mas ainda não está nada esboçado nem sequer realmente imaginado.

Daem, verdade seja dita, este texto saiu-me com mais facilidade do que muitas das outras coisas que escrevi. Não estive, como antes acontecia demasiadas vezes, frente ao papel (ou monitor) sem conseguir avançar numa frase. Houve coisas que comecei a escrever e depois apaguei, mas foi uma escrita fluida (ainda que tenha tido um intervalo de duas semanas desde que ele pede um corpo até a história continuar desde aí).

Eu olho para o Sci-Fi e a Fantasia de um modo semelhante. Quando se escreve algo realmente bom (bom mesmo) nestes géneros, tal exige do escritor uma tremenda capacidade imaginativa e um forte sentido de credibilidade, isto é, de tornar os factos crediveis. Não julgo que essa capacidade ainda abunde em mim, mas tento melhorar isso. Ainda assim, nos últimos tempos, têm surgido na minha imaginação muitas ideias (post-it's frente à minha secretária são assustadores) para contos Sci-Fi. Talvez seja uma mudança, aliada à referida fluencia na escrita, para melhor...

This post has been edited by noonessoul on Jul 20 2005, 04:34 PM
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silent_dark
Posted: Jul 20 2005, 09:33 PM


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Grande texto com um óptimo fundo filosófico. O problema da identidade também é um sobre o qual me tenho debruçado ultimamente e que, diga-se de passagem, é dos mais profíucos em termos de histórias. Ora esta faz-lhe jus à dimensão, sendo de facto uma grande narrativa - a descrição da personagem principal, cujos vários nomes são já um mergulho na questão da identidade (ele tanto é Gárgula, como Jabba, como Nathanaiel), está muito bem conseguida. A Laura parece pretender ser uma personagem um pouco mais redonda, mas por não ser a principal e estarmos perante um conto, penso que a mudança de personalidade dela, ao ser resumida para uma diálogo, perde impacto. Contudo, ela é secundária. O conceito da troca de corpos é interessante e, se já apontaram aqui a influência (que o não foi) de Brave New World, eu diria que a Casa dos Sonhos me recordou amigavelmente o filme Vanilla Sky. Adorei os flashbacks exactamente da forma como eles estão, imersos, inesperadamente, no texto, e essa oscilação entre passado e presente parece-me óptima. Gostei do final, curto e seco, e dramático, mas não me importava de saber um pouco mais do que aconteceu a Laura, mas como eu próprio acima disse, ela é secundária, portanto... Todo o futurismo e a forma como o tornas banal e quotidiano é realmente de salutar, pela naturalidade atingida. Em suma, um grande conto de sci-fi, bem agradável de se ler, incómodo de se pensar.
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noonessoul
Posted: Jul 21 2005, 10:05 PM


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Antes de tudo o mais, agradeço os comentários positivos que este conto tem provocado, muito mais do que eu esperaria dele.

Realmente, a Laura é uma personagem secundária, cujo único verdadeiro motivo é promover na personagem principal o desejo de mudar e, no fim, a realização de que perdera a identidade. Por isso, é absolutamente precindivel, a meu ver, saber o que lhe aconteceu. Eu vejo este conto como um conto de uma única personagem, sendo as outras meros adereços da narrativa e da história em si. Aliás, o conto teve dois objectivos distintos: contar a história que me atormentou, antes de a passar ao papel, durante algum tempo e testar o uso dos flashbacks que, pelos comentários que já recebi, não provocam unanimidade.

Quanto a inspirações, é provavel que, inconscientemente, as tenham existido. "Admirável Mundo Novo" não foi de todo porque nunca li. "Vanilla Sky", se bem me lembro, a empresa que o David Aames (Tom Cruise) utiliza não lhe dá um novo corpo, apenas um sonho pós criogenia (se a memória não falha), ainda que, na essencia, a Replicação... confira um serviço semelhante: a possibilidade de realizar um sonho.

A minha única referencia no Sci-Fi, já que falaram em inspirações e mudança de género, é Philip K. Dick e mesmo deste autor li poucas obras. Resta-me concluir que a minha verdadeira referência Sci-Fi é o cinema, ainda que não exista uma grande variedade de bons filmes de Sci-Fi em que exista, como Asimov referia, uma ficção cientifica social, aquela que me suscita maior interesse.
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umbrae
Posted: Oct 15 2005, 04:17 PM


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Como já disse anteriormente, agrada-me os teus textos pois me parecem naturais. Consegues fazer a ficção científica aprecer quotidiana. Sem grandes exageros.
Mas devo dizer que preferi o "Sexo dos Anjos", não se é pela temática, se pela maneira de contar a história, se por só se focar nos problemas de uma personagem, mas o facto é que preferi o outro.

Como no anterior fazes uso da ironia, o que me voltou a agradar:
Ex: "sentara-se num banco público, colocando suavemente a moeda na ranhura "
"Aquelas tertúlias e a adolescência…"
"A incorruptibilidade era um defeito raro, pensara Nate."

A relação entre o nome da empresa "Replicação e Éden" e a sua função e adágio é bastante bem pensado.

Gostei também do problema moral que se põe perante o leitor. O problema pelo qual o Gárgula, Nate ou Mike ( talvez esta variação de nomes exemplifique na perfeição a divisão do espírito do protagonsita) passa.

Por vezes penso que ele é Mike para Laura, Nate apra ele própio e Gárgula apra o resto do mundo. Talvez ele não saiba bem qual deve ser.

Gostei também do tipo de serviço que a eden ofereceu.

Porem acho que podias dar mais foco á história de Adam e o porquê de ser morto. ( ah sim. Adam também foi um excelente trocadilho)

Havia certos flash back que não gostava. Fazia-me confusão como eles entravam no texto. Mas agora que o li pela segunda vez, já não estranhei.

Também não gostei de a Laura não ter ficado amsi surpresa com a revelação de o Mike ser o Nate. A laura por vezes aprece um dos androdies da história. As suas reacções são planas, não tendo a rpofundidade das de Nate criando um fosso sentimenta entre ambos.
Percebeste ou sou demasiado confuso?

Perguntas:
O cérebro não se "estraga" com o passar do anos?

This post has been edited by umbrae on Oct 15 2005, 04:18 PM
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Snipper Lundur
Posted: Oct 16 2005, 01:03 AM


Grande Escritor


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Células cerebrais não têm poder regenerativo, mas células vizinhas adoptam funções das que morrem. No entanto, eventualmente...

Quanto ao texto, sou mais um dos que gostaram dos flashbacks. Esta imersão súbita sem aviso obriga o leitor a estar atento e cria alguma profundidade, quase um paralelismo ao pensamento, organizado de acordo com quem o pensa.

Já a Laura, também a acho muito plana. A mudança dela foi tão súbita e pouco fundamentada que se torna desinteressante. Pior ainda, o diálogo final torna-se confuso.

Mas a escrita em geral está boa, boa organização e história, bom português, boas referências que garantem credibilidade, tudo isso muito bom. É só limar as arestas, e presto!
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