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 Messias, O mito messianico e as suas variantes
noonessoul
Posted: Apr 24 2005, 03:02 PM


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Sempre fui cativado melo mito messianico, embora não tenha conhecimento das suas multiplas variantes (assim de repente, lembro-me da arturiana, sebastianista e a judaica). Por isso mesmo, decidi colocar aqui o tópico para o especialistas nestes campos darem umas achegas.

P.S.: Não sei se isto estará bem aqui, ou deveria ir para o Esoterismo (Oblivion, dps vê isso!).
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Oblivion
Posted: Apr 25 2005, 12:30 AM


Boss (not bottled)


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Esoterismo e Religião, sem duvida. ;)
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Spectral
Posted: Apr 27 2005, 06:56 PM


Grande Escritor


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Ok, tb tenho umas dúvidas...

Existe algo que se possa classficar como o messianismo "original" ? Será o judaico ?
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Tomoe
Posted: Apr 27 2005, 10:17 PM


Escritor de 2ª


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Espero muito em breve reunir condições e conhecimentos para fazer um pequeno texto esplicativo do Mito Sabastianico. Mas só daqui a algum tempo.
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noonessoul
Posted: Apr 29 2005, 05:40 PM


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Acho que o Kamen já referiu isto em qualquer tópico por aqui, mas existem pontos em que a cultura humana, seja qual for a civilização, se toca, mesmo que seja separada por milhares de quilometros. Acho que o Messianismo é um desses pontos, Spectral. Ainda assim, o mito judaico é, assim de repente, o mais antigo que conheço.

Lembrei-me de mais um mito messianico, ainda que este tenha consequencias mais práticas: o mito budista do Dalai-Lama... Acho que também se pode incluir aqui, embora de uma maneira diferente dos que referi acima.

This post has been edited by noonessoul on Apr 29 2005, 05:41 PM
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Sith'Ari
Posted: May 3 2005, 05:12 PM


Escritor de 2ª


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bem, não percebo muito de messianismo em geral, mas já li mt sobre o messianismo "judaico" e cristão para poder dizer que:

Não existe messianismo judaico!!!! Isso é uma treta católica anti-semita introduzida na mente dos putos na catequese para lhes mostrar como os judeus são mauzinhos por ainda não aceitarem Jesus como o messias.

Os judeus, em geral, nunca estiveram à espera de nenhum Messias. Hoje sabe-se, isso sim, que uma facção judaica, a responsável pelos textos do Mar Morto (em principio serao os Essenios), eram messianicos e acreditavam que o messias ia ser um deles, sendo esse um(dos muitos) motivos para eles viverem parcialmente usados dos fariseus e afins.
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Kamen
Posted: May 4 2005, 09:49 PM


Grande Escritor


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Na minha prespectiva, o mito messianico tem muito a ver com o Saudosismo, o "culto" da saudade. Nós portuguêses temos pontos extra no campo por termos uma palavra inteira para descrever o sentimento. Daqui advem imediatamente o Sebasteanismo, por si só um mito messianico.
Ora, o que é que se passa então? Acho que é simples e todos conseguem perceber. Nos momentos conturbados, nos momentos dificieis, as pessoas olham em volta e apercebem-se: "Isto está mal." Filosofos olham para o mundo e dizem "Isto está mal". Este sentimento é relativista, ou seja, a actualidade está mal em relação a algo. Mas que algo é esse? Estranhamente as pessoas acabam por olhar para trás no tempo. Algo dentro delas diz que existio algo que foi melhor, mas sem conseguirem apontar o tempo. Fala-se em idades do ouro e tal...
Agora, o messias é alguém que vai REestabelecer a ordem. Podem ver, mais de metade dos mitos (senão todos) dizem que as coisas vão ser como eram ANTES de algo, nem que seja da perda da inocencia.

MAs que antes é esse? Entre alguns misticos aponta-se para um culpado: O mundo dos espiritos. O local para onde as almas vão entre vidas. Estão a começar a perceber todas estas implicações? Todas as religiões (ou quase...) falam numa especie de paraiso, terra prometida para onde as almas migrão e vivem em perfeita harmonia. Local tão forte deve causar saudade nos espiritos acabados de reencarnar, alguns mesmo à força!

O messias é então a encarnação do construtor. A REaparição daquele que criou as coisas, aquele que vai restabelecer a ordem que instaurou.

Pelo menos é assim que eu penso... posso estar errado. Muitas vezes eu engano-me a mim e aos outros. Como na frase anterior, aquilo tem uma estrutura muito estranha.
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Tomoe
Posted: Jul 12 2005, 11:22 PM


Escritor de 2ª


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“Introdução Superficial ao Sebastianismo” ou “A Noção Básica da Religião de Portugal”




Augurai gentes vindouras
Que o Rei que vos há-de ir
Vos há-de tornar a vir
Passadas trinta tesouras.

- Gonçalo Annes Bandarra



Ora… Sebastianismo… Não querendo parecer convencido nem arrogante, arrisco-me a dizer que sou o membro deste fórum com mais habilitações para falar sobre o assunto. No entanto, embora tenha todos os meios ao meu alcance, falo de livros claro, ainda não tive tempo de ler o livro que de forma mais completa aborda o tema: “Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista” de António Quadros, da Guimarães Editores. No entanto existem aqueles momentos e sentimentos que apelam a um homem e o fazem fazer coisas sem ele saber porquê, pois este é um desses tais momentos e estou a passar por um desses tais sentimentos. Como Sebastianico eu próprio, quero e necessito de escrever um pequeno texto sobre este tema, mesmo correndo o risco da mediocridade.

O sentimento Sebastianico teve a sua origem muito antes sequer do nascimento do monarca português de nome Sebastião. Embora na altura fosse algo sem nome e difuso, muito semelhante á Saudade, que está intimamente ligada ao Sebastianismo, já se sentia por tudo o país uma desilusão, uma falta de vontade, os Descobrimentos tinham passado de uma experiência quase espiritual (totalmente espiritual para alguns), de uma aventura, um fascínio para algo decadente que criava uma crescente corrupção no país. As pessoas estavam preguiçosas, a politica de crescente exploração comercial do Oriente de D. João III tinha arruinado o país devido ao bloqueio da burguesia capitalista pela parte da Inquisição, que dava á coroa todos os lucros do comércio colonial. Na verdade o Reino entrava numa grave crise económica, o povo sentia como que uma dessacralização das suas tradições marítimas e sentia-se traído pelo Reino, isto veio a acentuar-se quando no espaço de dez anos o Rei e a Rainha perdem todos os seus filhos. Na óptica popular este era um castigo e uma paga, por uma qualquer falta desconhecida, mas que todos sentiam. De facto era esperado alguém, monarca ou não, que viesse trazer a gloria perdida á Expansão Portuguesa.
É neste ambiente de espera que nasce D. Sebastião e sobre ele de imediato caiem todas as esperanças e vontades de mudança, o povo crê ter chegado aquele que trará o equilíbrio a Portugal (“bem nascida segurança / Da Lusitana antiga liberdade”).

D. Sebastião nasce dia 20 de Janeiro de 1554 entre as oito e as nove horas da manhã, o último dos nove filhos de D. João e D. Joana de Áustria. Durante as horas de parto da Rainha que por todo o reino se rezavam missas e tocavam os sinos das igrejas, organizando-se uma procissão do clero secular até á Igreja de São Domingos, na qual era carregado o braço de São Sebastião, relíquia oferecida por Carlos V.
O Príncipe viria a chamar-se Sebastião, devido ao facto de ter nascido no dia deste mesmo santo (tendo mais tarde, a sua figura e a do santo se fundido no desenvolvimento do Sebastianismo).
O Jovem príncipe é desde cedo educado pelos padres da companhia de Jesus, sendo um havido praticante dos Exércicios de Santo Inácio de Loiola, crê-se que isto, aliado a toda a expectativa em redor dele tenham sido alguns dos factores responsáveis por este se ter tornado um fanático religioso.
Assim, dia 24 de Junho de 1578 uma armada de quinhentas velas sai do Tejo com o Rei, de apenas vinte a quatro anos, a comanda-la e, depois de uma paragem em lagos, na madrugada de 7 de Julho, e dividindo-se em duas no estreito de Gibraltar, a primeira seguia com o Rei para Tanger e a segunda dirigia-se para a foz do rio Tagadarte.
Dia 29 de Julho o exército real de cerca de 16 mil combatentes vai ao encontro do velho e doente rei Mulei Moluk.
O exercito era formado por 14 mil infantes e 1600 cavaleiros, alguma tropa estrangeira, o esquadrão de Álvaro Pires de Távora, chamados os aventureiros, com os sargentos-mores João Álvares de Azevedo e Pedro Lopes, alem das topas de Mulei Mahomed somando 300 arcabuzeiros e 300 combatentes a cavalo.
O exército de Mulei Moluk era constituído por 8 mil infantes e 40 mil cavaleiros.
A batalha toma lugar pelas oito horas do dia 4 de Agosto de 1578 numa campina atravessada pelo rio Mocazim, chamado de campo de Alcácer, a quinze quilómetros de Alcácer-Quibir.
Segue-se um relato da batalha segundo o livro “A Historia Misteriosa de Portugal” de Victor Mendanha:

“ (…) o terço dos aventureiros, composto por homens decididos e apoiados nos arcabuzeiros de Tânger, investe com vigor o que moraliza todo o exercito português a avançar e obrigando a frente inimiga a voltar as costas para iniciar uma verdadeira debandada.
Entretanto o esquadrão real carrega sobre a ala direita das tropas de Mulei Moluk com tal ferocidade que centenas de cavaleiros marroquinos abandonaram o campo com tanto pânico e pressa que só pararam a vários quilómetros do local de luta, na povoação de Alcácer-Quibir.
Mulei Moluk, á beira da morte e transportado em liteira, ao observar a fuga dos seus guerreiros é tomado da mais viva indignação, resolvendo montar a cavalo para fazer regressar os fugitivos, mas o esforço feito, demasiado para um velho doente à beira da morte, provoca-lhe uma síncope e o aliado dos turcos e chefe inimigo cai, inerte, sobre o pescoço da montada.
Tentado ocultar um facto só por si determinante para a vitoria do exercito de D. Sebastião, os validos pegam no corpo e metem-no novamente na liteira, correndo as cortinas, mas o xerife morria passados minutos sem sequer recobrar os sentidos.
Esta cena chega a ser observada por alguns combatentes do nosso terço de aventureiros, cujos mais audazes estavam já tão perto do local que conseguem apoderar-se de dois estandarte de Mulei Moluk e gritam: “Vitória! Vitoria! O Moluk é morto!”
Em qualquer parte do mundo, com um chefe inimigo morto, a sua vanguarda estaria praticamente ganha sendo necessário apenas insistir na ofensiva, gerindo aqueles trunfos, mas subitamente algo estranho sucede nas nossas hoste, tão estranho que leva a pensar em traição.
Segundo o Professor Queirós Veloso, «uma bala fere, numa perna, o capitão Álvaro Pires de Távora e o sargento-mor, Pedro Lopes, manda-o conduzir para uma liteira e, certamente com receio de que a retirada se tornasse difícil, ordena que todo o terço dos aventureiros se detenha», dando a célebre voz de: «Ter! Ter!»
Este grito inusitado não fés só com que todo o terço se detivesse como toda a ofensiva parasse, causando o esmorecimento do entusiasmo e levando a que estas tropas se vissem cercadas quando decidiram retroceder.
Não existe memoria de que, numa tão grande e decisiva batalha como aquela, um substituto do comandante de um terço mandasse recuar as tropas devido a simples ferimento na perna de um capitão e, se por isso mesmo, a confusão propagou-se a todo o exercito, não se passando depois de um combate mas de luta de três ou quatro centenas de bravos, vendendo cara a vida.
Um antigo criado de câmara do soberano, Fernando Góis de Loureiro, mais tarde abade de S. Martinho de Soalhães, assistiu á batalha e narrou no livro que compôs, editado em Mântua sob o título de “Breve suma y relacion de las vidas de hechos de los Reys de Portugal”, o destino do príncipe com estas palavras:
«Importunado, o Rei abandonou o local da batalha quando tudo estava já concluído, cavalgando direito ao Rio Mahacer para passá-lo para a margem onde menos gente poderia aparecer, mas antes de lá chegar, a uma légua de distancia do local da contenda, saíram de uns azinhais alguns setenta cavaleiros árabes que o prenderam, tendo sido ali morto por causa da controvérsia havida entre estes cavaleiros e os turcos da guarda de Maluco, chegados ao local ao mesmo tempo, sobre quem levaria o prisioneiro.»
«Morreu o nosso Rei na idade de vinte e quatro anos, seis meses e catorze dias, tendo o seu corpo sido achado no dia seguinte por Bastian de Resende, seu moço de câmara, no mesmo lugar, e reconhecido por todos os seus, inclusivamente por mim, devendo-se o caso de muitos se enganarem dizendo que não morrera porque o viram cavalgar no fim da batalha, não sabendo ir acabar a uma légua do lugar dela.»
«Outros ainda dizem ter morrido D- Sebastião na batalha, conforme afirma Jerónimo Franchi na sua «Historia de Portugal», embora sejam vivas hoje varias testemunhas de vista como eu, que sabem como o Rei morreu em Alcácer-Quibir.»”


O Rei tombou sobre as areias de Alcácer-Quibir mas…

Da Pátria medieva cemitério,
Começou ali um grande mistério…
Levantada do chão a poeira,
Entre um ruidoso tropel,
Cavalos e homens lutando sem quartel,
El-Rei de Portugal perdeu seu viseira…
Com ela um mundo se perdia,
Uma doce quimera,
Uma Primavera
Que no peito do rei ardia…
Começou o enigma ali em árido terreno,
Às mãos do mouros
Se perderam desejados louros
E o mundo ficou muito mais pequeno…
Começou ali, no deserto,
O mito do Encoberto…

O país fica pior que nunca, a liberdade pouco depois é perdida para os Castelhanos e os seus Filipes, mas o sentimento que tinha visto em D. Sebastião um salvador não morreu com ele, parece na verdade que apenas aqui é que nasceu verdadeiramente.
Sebastianismo passou a ser sinónimo de patriotismo e de anti-Filipe, o povo mais que nunca espera um salvador e é aqui que começam a aparecer as coisas estranhas.
Vindos no nada surgem três D. Sebastiões. O primeiro em 1584 em Alcobaça, o segundo na Ericeira em 1585 e o terceiro em Madrigal em 1595, todos estes foram presos e executados pelos castelhanos como incentivadores da revolta, sendo o caso mais estranho o terceiro, pois este sabia factos que poucos sabiam á cerca da batalha fatídica e inclusive reconheceu a espada que D. Sebastião deu ao duque de Medina-Sidónia entre varias e muitas outras coisas.
Mas é antes, em 1580, com a apreensão do Bispo da Guarda por nacionalismo que pela primeira vez são tomadas em conta as Trovas de Bandarra como um manifesto anti-castelhano, aplicando a partir daí o perfil do Encoberto a D. Sebastião. Surge aqui o novo Sebastianismo.

Gonçalo Annes Bandarra é sem duvida o mais impressionante profeta do Sebastianismo, mais impressionante sobretudo pelo facto de ter morrido muito antes da batalha de Alcácer-Quibir.
Tratava-se de um humilde e analfabeto sapateiro judeu de Trancoso, com fama de profeta e astrólogo, as suas Trovas já foram editadas inúmeras vezes e em varias línguas, não é difícil encontra-las.
Sem me querer demorar no profeta do Sebastianismo aqui ficam algumas das suas Trovas (o conjunto que acho mais explicito):

Em vós que haveis de ser Quinto
Depois de morto e segundo
Minhas profecias fundo
Com as letras que aqui pinto.

Inda o tronco está por vir
Já vos vejo erguido cedro.
Pouco vai de Pedro a Pedro
Se o ramo o tronco medir

Fiz trovas de ferro e prata
Dignas de qualquer tesouro
Hoje quando faço de ouro
Que em vós Senhor se remata.

Não conto sapatarias
Que noutro tempo sonhei
O que agora contarei
São mais altas profecias

A giesta não se torce
Muito amargo o saragaço
Tudo quanto agora faço
São bocado de erva doce

Faço trovas muito inteiras
Versos muito bem medidos
Que hão-de vir a ser cumpridos
Lá nas eras derradeiras.

Eu componho mas não ponho
As letrinhas no papel
Que o devoto a Gabriel
Vai riscando quando eu sonho.

Vejo mas não sei se vejo
O certo é que me cheira
Que me vem honrar à Beira
Um grande de ao pé do Tejo.

Formas, cabos e sovelas
Lavradinhas com primor
Mandareis abrir Senhor
Muitos gostarão de vê-las.

Mas ai que já vejo vir
O Presbítero maior
A riscar todo o primor
Que outra vez há-de surgir.

Augurai gentes vindouras
Que o Rei que vos há-de ir
Vos há-de tornar a vir
Passadas trinta tesouras


O Pastorinho da Serra
Grita que tenham cuidado
Que se vai perdendo o gado
Por mais que gritando berra.

Desamparar o cortiço
Uma Abelha mestra veja
As outras com muito pejo
Não sem asas para isso.

Irão tempos de lazeiras
Virão tempos de farturas
Os frades terão tristuras
Por acudirem às freiras.

Este sonho que sonhei
É verdade muito certa
Que lá da Ilha Encoberta
Vos há-de chegar o Rei



Algures nas suas trovas Bandarra refere-se ao Encoberto pelo nome de D. João, isto levou o grande Sebastianico Padre António Vieira, responsável pela associação do Quinto Império do sonho de Nabucodonosor ao futuro de Portugal, a acreditar que este seria realmente o nome do Encoberto que chegaria, identificando-o com D. João IV, mas a verdade é que não nos podemos esquecer que Bandarra era Judeu, logo “João” poderá ser, numa leitura hebraica D. Foão, ou seja fulano, do hebraico feloni, de falah, ocultar, mantendo assim o mistério da identidade do Encoberto. Mas mais estranho que isto e novamente incidindo sobre a judaísmo de Bandarra, não faz sentido que um judeu proclame um Messias fora do povo judeu. A questão é que, os judeus não têm tradição messiânica pois para eles o Messias são eles mesmos, o povo escolhido, isto faz com que alguns estudiosos acreditem que associar as Trovas a Sebastião é um abuso e não tem lógica. Mas bem… na minha opinião, se o homem era realmente profeta, por mais que quisesse proclamar um Messias judaico não o poderia se as suas visões diziam o contrario.
Juntando a isto temos o facto de judeus terem achada que Alcácer-Quibir tinha sido um castigo para os Portugueses por todo o mal que tinham feito aos judeus no passada, tendo inclusive os judeus de Marrocos o festival “Purim dos Portugueses”, ou “Purim de D. Sebastião”, em que celebram a batalha perdida. Esta opinião também era partilhada pelos muçulmanos que viam em Alcácer-Quibir a tentativa do reacendimento das cruzadas cristãs (que na realidade era). Assim nos primeiros momentos do Sebastianismo, sem D. Sebastião esta era um pensamento seguido por poucos, até os cristão não gostavam dele visto se admitirem o Encoberto como Messias estariam a cometer sacrilégio. Mas tudo isto mudou no século XVII. Subitamente os muçulmanos e judeus aperceberam-se que morar em Portugal nem era assim tão mau e até nas colónias portuguesas podiam viver com liberdade de religião, coisas que não aconteceriam em Castela, onde as comunidade islâmicas e judaicas eram tratadas abaixo de cão. Assim, vindo do nada, o Sebastianismo é revitalizado por judeus e muçulmanos que viam no Encoberto alguém que viria castigar os Castelhanos pelos seus maus-tratos, embora não o vissem como um Messias viam-no como um castigador e justiceiro que viria ajudar a libertar a comunidades mouriscas e judaicas. “Portugal há-de ser império quinto e universal, como se prova com a fé dos históricos, com o juízo dos políticos, com o discurso dos matemáticos, com as profecias dos santos, com as tradições dos mesmos maometanos, para cuja prova se têm feito e escrito doutíssimos tratados”.
Aqui o Sebastianismo cresce realmente, quer em adeptos, quer em profundidade espiritual. Secretamente chegavam mensagens aos nobres nacionalistas de comunidades judaicas e islâmicas por todo o mundo oferecendo ajuda para a libertação de Portugal, inclusive da comunidade judaica da Holanda. No entanto o seu apoio era agradecido mas a sua ajuda não, pois temia-se uma nova invasão islâmica da península se as ajudas fossem aceites.
No entanto, não muito depois, Portugal é libertado, Castela vencida e o Encoberto sem nunca chegar.
No entanto as coisas não melhoram, o sentimento mantinha-se lá, a falta de algo indefinido, o país podia estar livre mas não era o Portugal desejado e o Sebastianismo tinha crescido de um pensamento nacionalista para uma corrente espiritual e filosófica.

Este é o Sebastianismo histórico, mas o que é o Sebastianismo espiritual?

A resposta é estranha e confusa, pode parecer egocêntrica e até profana a alguns. A resposta está noção de Religião de Portugal, de Portugal e não Portuguesa, uma fé religiosa cujo centro é o próprio país.
Um Religião é o estudo, compreensão e recriação de um mito, o mito, como já vou debatido neste fórum, é o arquétipo de uma acção, realizada pelos Deuses ou os antepassados míticos. O “Rei” dos mitos é o mito da Criação, o momento em que do Caos nasce o Cosmos. Regra geral todos os mitos de criação são semelhantes. Tentem agora seguir o meu raciocínio.

Antes dos Descobrimentos Portugueses o Oceano era fonte de mistério, estranheza. Era o Caos, depois da passagem dos navegadores Portugueses (os antepassados míticos) do Oceano de Caos foi surgindo o Mundo ou o Cosmo, os Portugueses tinham criado a Ordem e o Cosmos. Dominaram os Oceanos fazendo cartas náuticas, tornaram terras imaginárias em realidade traçando-as em mapas. Onde havia separação os Portugueses criaram a união (que o mar una e não separe). Das águas primordiais e caóticas fizeram emergir o Mundo. Esse não é mais que o trabalho dos Deuses.
Assim podemos dizer que o tempo mítico dos Portugueses, em que tudo era bom e havia Ordem foi aquele período de fascínio pelo mundo, até cerca do reinado de D. Manuel, em que o Mistério da criação do Mundo Português foi encerrado em pedra, na arquitectura Manuelina.
E aqui que se dá a “queda” a perda do estado de perfeição e beleza e é aqui que nasce o primeiro Sebastianismo. Agora, com a continuação da queda, o Encoberto é aquele Messias que trará a perfeição da época pré-Manuelina, não só a Portugal mas também a todo o mundo (entrando aqui o conceito genial de Nacionalismo Místico e Cosmopolita de Pessoa), recriando os Descobrimentos, mas desta vez de forma completa, coisas que não aconteceu no passado. No entanto já não se espera um D. Sebastião histórico, espera-se um D. Sebastião Supra-histórico, poderá ser um homem que mobilizará as energias dos Portugueses, um grupo de homens, será algo tão difuso e desconhecido como nevoeiro.
Esta noção religiosa é real, é tem tanta validade quanto qualquer outra religião do mundo, tem um tempo mítico de criação (alguém aqui consegue conceber na sua mente, vivendo o Portugal actual, que esses momentos de gloria se passaram neste mesmo Portugal?), os antepassados míticos, a queda, os profetas e o Messias. É a verdadeira Religião de Portugal. O próprio Fernando Pessoa já tinha percebido isso clamou:

“O verdadeiro patrono do nosso País é esse sapateiro Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso.
Esse Bandarra é a voz do Povo português, gritando, por cima da defecção dos nobres e dos clérigos, por cima da indiferença dos cautos e dos incautos, a existência sagrada de Portugal.
Quando António Vieira quis basear em qualquer coisa a sua fé natural nos destinos superiores da Pátria, que coisa foi que encontrou? As profecias desse sapateiro de Trancoso. Amou-as e as comentou o maior artista da nossa terra, o Grão-Mestre, que foi, da Ordem Templária Portuguesa.
Bandarra é o símbolo eterno do que o nosso Povo pensa de Portugal.
Não queremos estrangeiros. No sentimento patriótico não deve existir elemento que não seja o nosso. Expulsemos pois o elemento romano. Se há que deve haver religião em nosso patriotismo, extraiamo-la desse mesmo patriotismo. Felizmente temo-la: o Sebastianismo.”



E é isto o Sebastianismo… embora seja uma apresentação algo superficial creio que dá para apanhar a ideia. Para aqueles que queiram continuar a pesquisa sobre isto ponho aqui mais uma lista de poetas (profetas) que abordaram o Sebastianismo e a minha bibliografia consultada.




Poetas anteriores a D. Sebastião:

- Gonçalo Annes Bandarra (? - 1545 ou 1556)

Poetas contemporâneos de D. Sebastião:

- Diogo de Teive (1513? – 1566?)
- Pêro d’Andrade Caminha (1520? - 1589
- António Ferreira (1528 – 1569
- Camões (1525? – 1580)

Poetas posteriores a D. Sebastião:

- Manuel Bocarro Francês (1588 – 1662)
- P. João Godinho (? - ?)
- João de Lemos (1819 – 1890)
- Luís Augusto Palmeirim (1825 – 1893)
- Guerra Junqueiro (1850 – 1923)
- Luís de Magalhães (1859 – 1935)
- António Nobre (1867 – 1900)
- Afonso Lopes Vieira (1878 – 1946)
- Teixeira de Pascoaes (1877 – 1952)
- Vario poetas ligados ao movimento da Renascença Portuguesa: Jaime Cortesão (1884 – 1960), António Correia de Oliveira (1879 – 1960), Mário Beirão (1892 – 1965)
- António Sardinha (1888 – 1925)
Fernando Pessoa (1888 – 1935) (o derradeiro Mestre)


Bibliografia consultada:

- O Mistério de Portugal – na Historia e n’Os Lusíadas – António Telmo
- Dos Templários á Nova Demanda do Graal – Paulo Alexandre Loução
- Historia da Filosofia Portuguesa – A Filosofia Hebraico-Portuguesa – Pinharanda Gomes
- Historia da Filosofia Portuguesa – A Filosofia Arábigo-Portuguesa – Pinharanda Gomes
- Arte de Ser Português – Teixeira de Pascoaes
- Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos – José Manuel Annes
- Mistérios Iniciáticos do Rei do Mundo – Historia Oculta de Portugal – Vítor Manuel Adrião
- Historia Misteriosa de Portugal – Victor Mendanha
- Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista – António Quadros


E por favor leia a Mensagem AQUI






'Screvo meu livro à beira-mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

- Fernando Pessoa in Mensagem






Porto-Graal Sempre!

This post has been edited by Tomoe on Jul 15 2005, 06:57 PM
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Tomoe
Posted: Jul 15 2005, 01:33 AM


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Bem, embora ainda não tenha havido respostas ou comentarios ao texto, deixo aqui o link para um artigo tambem sobre Sebastianismo, que pelo que eu persebi foi um trabalho para uma cadeira universitaria qualquer. Este incide mais sobre o fundo mitico que origina o Sebastianismo, coisa que eu passei ao lado, de certa forma propositamente, porque não me apetecia estar a consultar os livros do Mircea Iliade.
Pois bem cá fica ele, creio que quem quer que tenho gostado do meu texto devia ler este tambem pois, embora falem do mesmo tema, raramente se tocam.

http://www.klepsidra.net/klepsidra2/sebastianismo.html
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noonessoul
Posted: Jul 15 2005, 02:28 PM


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Só agora vi o artigo. Está excelente, Tomoe, informativo e bastante acessivel. Disseste que o artigo era apenas superficial e, por isso, tenho de te pedir que faças um outro, em que vás ao fundo daquilo que sabes. É que fiquei mesmo muitissimo interessado no mito (ainda mais do que já era). E muitissimo obrigado pelo tempo que perdeste com o assunto.
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umbrae
Posted: Jul 15 2005, 04:51 PM


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Reforço o pedido do Noonessoul e subscrevo o que ele disse.

Muito obrigado Tomoe pelo tempo gasto a fazer este "artigo", está mesmo óptimo.

Era mesmo disto que eu precisava e não conseguia encontrar de maneira tão clara.

Também apreciei bastante as quadras passadas a lingugem corrente. É que quando li as Trovas do Bandarra elas estavam ainda em Português arcaico pois tratava-se de uma edição fac-similada da Edição de Nantes.

Eu tomei algum conhecimento deste mito de uma maneira menso leve através do livro:

Portugal Misterioso, selecções do Reader's Digest

Que me pareceu bastante interessante para a minha pesquisa. Se estiverem interessados penso que é um bom livro apra dar uma introdução. Se bem que mais extensa que a do Tomoe.
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Tomoe
Posted: Jul 15 2005, 07:20 PM


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Bem, a respeito da historia acho que haverá pouco mais a acrescentar, talvez alguns detalhes acedemicos como datas e nomes. De resto a parte que considero que ficou de facto superficial foi a descrissão do Sebastianismo como religião. O problema disso é que não se restrige apenas ao Sebastianismo, envolve a Saudade, o Espirto Santo e o Quinto Imperio (os quatro pilares da espiritualidade Portuguesa) e passa pela herança Hebraica-Arabica-Cristã da cultura Portuguesa, assim passa a ser mais semelhante a um tratado de espiritualidade do que um texto esplicativo sobre unica e exclusivamente Sebastianismo.
Assim tal texto passa a estar bem longe da topica deste thread, mas no entanto incluindo-o.

Outra coisa importante é que ainda não me debrucei sobre estes quatro pilares de forma exclusiva, tendo-me mantendo por livro, embora já bastanta especializados, mas de caracter geral.
Novamente, já tenho praticamente todos os livros sobre estes assuntos que creio serem nesseçarios para a sua compreenção basica (talvez com exepção á Saudade... ainda só arranjei a "Intrudução á Saudade" de Pinharanda Gomes e Dalila Pereira). Para mais, e tal como disse no inicio do texto, ainda não li os meus melhores livros sobre Sebastianismo, ou seja, o meu conheciemnto ainda não é assim tão grande e profundo.

Resumindo: é melhor esperarem sentado.
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Tomoe
Posted: Aug 17 2005, 06:57 PM


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Ok, para os interessados. Tendo acabado de ler o "Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista" e o "Intrudução á Saudade" sinto-me em condições de escrever mais um pouco sobre o complexo e fascinante assunto do Sebastianismo. Desta vez irem um pouco mais ao encontro de uma leitura esoterica do mito messianico Portugues (contrariamente á exoterica do texto anteior), derivada da analise de pequenos exertos sobre o tema dos génios da lingua Portuguesa, Padre Antonio Vieira e Fernado Pessoa, onde poderei incluir já os conceitos de Saudade, Quinto Imperio e Espirito Santo (para não falar do complexo Sebastianismo Brasileiro e Sebastianismo Islamico).
No entanto apenas o pederei começar a escrever lá para Setembro, porque estou de ferias e não tenho PC em casa.

Já agora acho que seria bonito mais alguem se dar ao trabalho e escrever sobre um outro mito messianico qualquer... nem que seja com um conjunto do Copy/Pastes de outros sites... é que ás vezes dá-me a ideia que sou o unico gajo que realmente se esforça para oferecer, altruisticamente, informação extença ao forum de modo a subir a sua qualidade...
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Tomoe
Posted: Sep 7 2005, 02:00 AM


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Ainda sobre Sebastianismo


“Portugal foi grande pela acção descobridora e conquistadora. Desbaratada, em Alcácer-Quibir, apareceu ao Povo em fantasma, como Jesus aos Discípulos depois da Tragédia do Calvário.
Este espectro divinizado da nossa grandeza morta, prometendo o seu regresso, numa encoberta manhã, é o próprio Sebastianismo.
Se a nossa grandeza morreu materialmente, foi para ressurgir em espírito. O Sebastianismo, sendo a expressão mítica da nossa dor, é, já, em sombra nocturna, o futuro sol da Renascença.
Na sua matéria de nevoeiro, sonho morto do mar, transcurece a cruz do Sacrifício, remissora do Pecado: - a dissoluta opulência de egoísmo que enfraquece o homem. Sem a dor, a necessidade, o contínuo esforço, não há heroicidade nem beleza, não há vida espiritual, porque o indivíduo mente ao seu destino de sacrificado e perde a sua razão de ser.
Foi na ilha de S. Borondon que o génio da aventura se fez messianismo. E desta ilha fabulosa datará o Portugal messiânico do futuro, anunciando aos Povos a nova Renascença:

Este sonho que sonhei
É verdade muito certa…

Bandarra”

Teixeira de Pascoaes in “Arte de Ser Português”



Quem tiver percebido o excerto anterior escusa de ler o que se segue. Mas caso contrário, e não perdendo muito tempo, pego imediatamente, mais ou menos, no fim do último texto:

“O verdadeiro patrono do nosso País é esse sapateiro Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso.
Esse Bandarra é a voz do Povo português, gritando, por cima da defecção dos nobres e dos clérigos, por cima da indiferença dos cautos e dos incautos, a existência sagrada de Portugal.
Quando António Vieira quis basear em qualquer coisa a sua fé natural nos destinos superiores da Pátria, que coisa foi que encontrou? As profecias desse sapateiro de Trancoso. Amou-as e as comentou o maior artista da nossa terra, o Grão-Mestre, que foi, da Ordem Templária Portuguesa.
Bandarra é o símbolo eterno do que o nosso Povo pensa de Portugal.
Não queremos estrangeiros. No sentimento patriótico não deve existir elemento que não seja o nosso. Expulsemos pois o elemento romano. Se há que deve haver religião em nosso patriotismo, extraiamo-la desse mesmo patriotismo. Felizmente temo-la: o Sebastianismo.”

E agarrando num outro seu texto brilhantemente claro e explicativo (como apenas Fernando Pessoa consegue) á cerca da definição do mesmo:

“O sebastianismo, fundamentalmente o que é? É um movimento religioso, feito em volta de uma figura nacional, no sentido dum mito.
No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico – como, por um mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica – mas em que não é absurdo confiar.
D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, vindo da ilha longínqua onde esteve esperando a hora da volta. A manhã de névoa indica, evidentemente, um renascimento anunciado por elementos de decadência, por restos da Noite onde viveu a nacionalidade…”

No entanto ler este texto, claro e simples nas palavras, não nós faz compreender o que o Poeta via no Sebastianismo. A sua noção de nacionalidade é muito particular e sempre que este refere Portugal um profundo significado e simbolismo vem de arrasto. É preciso tomarmos noção do que Fernando Pessoa chama de Nacionalismo Místico e Cosmopolita.
A noção de Nacionalismo Místico e Cosmopolita creio que é essencial em todo o esoterismo pessoano (e indispensável para a mínima compreensão real do esoterismo Português), José Manuel Anes, no seu livro “Fernando Pessoa e os Mundo Esotérico”, tenta dar uma definição do mesmo mas não me parece que tenha muito sucesso, pois após ler um pequeno excerto de uma antiga entrevista com o Poeta, este em uma ou duas frases o explica. Ora o Nacionalismo Místico e Cosmopolita trata-se do seguinte: o povo português, quando é permitido ser português, torna-se universal, apenas em momentos em que o povo português é oprimido é que este se torna apenas português. Ora, este é um dos significados ocultos dos Descobrimentos, numa altura em que o povo português era verdadeiramente português, tornou-se todo o mundo (este é o verdadeiro Nacionalismo, não as imbecilidades de berradas durante os jogos de um desporto estrangeiro, jogado por jogadores estrangeirados, ou aquelas tangas de politiquismos ditos de direita ou de esquerda, de grupos nacionalistas, que berram o nome de um país cujo significado nem sequer conhecem e que na verdade seguem ideologias estrangeiras e estrangeirantes… eles próprios são a escoria estrangeira, que tanto detestam).
Então, sempre que Fernando Pessoa refere Portugal ou o povo português, como verdadeiro povo português, refere-se na verdade a tudo o Universo e todo o Mundo, assim quando fala:

“No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico…”

Na verdade isto significa que D. Sebastião voltará para todo o Mundo e para toda a Humanidade para lhes devolver a glória perdida, instaurando o Quinto Império, o Império de Espírito Santo, o império puro das ideias e da cultura. É agora que o verdadeiro esoterismo poderá ser associado ao mito sebastianico.
A volta do Encoberto trará o Homem de volta ao seu estado de glória, aquele estado antes da queda e da perda da divindade. Assim o Sebastianismo é na verdade a esperança e acção para o regresso a Deus, e este Encoberto está sim encoberto, não num sitio fisicamente longínquo, mas sim encoberto em nós mesmos, pela nosso corpo e ignorância, a sua chegada, ou desencobrimento, trará sobre nós o Divino Espírito Santo, ou de outro ponto de vista, a sagrada Sophia, é uma espécie de Gnosticismo Português, que na verdade é Universal (que não se encontra completo com apenas o Sebastianismo, para tal coisa é também necessário o Saudosismo).

Agora creio que será oportuno desenvolver o aspecto de Messias de D. Sebastião, o seu trajecto é na verdade muitíssimo semelhante ao de Cristo. Tratou-se de um jovem rei, ardente de fé e desejoso de levar o povo português (a Humanidade) de volta ao seu estado de glória anterior, assim parte para a batalha contra a fé, mesmo que está fosse a morte certa. Mas esta sua morte física, o seu martírio, foi na verdade todo o propósito da sua batalha, através da sua morte (da sua paixão) os portugueses (novamente a Humanidade) passaram a ter a salvação á sua mão, foi-lhes dado um caminho para percorrer no Sebastianismo.
Malheiro Dias em defesa do Sebastianismo contra as investidas imbecis de António Sérgio (uma das maiores bestas de estupidez alguma vez a nascer em território nacional) disse o seguinte: “O Encoberto não é hoje o rei vencido pelos mouros; é Portugal flagelado pelas calamidades do presente, e que todos os patriotas de coração e consciência aspiram a ver reposto na estima e no conceito universais”. O Encoberto é Portugal, e Portugal é a Humanidade, logo o Encoberto é a Humanidade, ele será como que uma segunda vinda de Cristo (o filho do Homem): “No fado, os Deuses regressam, legítimos e longínquos. É esse o segundo sentido da figura de D. Sebastião”. Diz novamente Fernando Pessoa.
E esta Humanidade flagelada novamente reflecte na noção de Religião de Portugal, do povo que fez emergir o mundo do caos e a meio do seu projecto foi derrotado ficando “pelo mundo em pedaços repartido”. A chegada do Desejado e do Quito Império será a reconstrução deste mundo projectado e inacabado.

O Sebastianismo, nas suas origens surge de um confronto de duas ideias. O primeiro Sebastianismo que existiu, o Sebastianismo anterior a D. Sebastião, era isto mesmo. No reinado de D. João III o país começou a estrangeirar-se, os portugueses deixaram de ser livres na sua portugalidade e como tal tornaram-se limitados, “apenas portugueses”. Foi neste tempo que as correntes do estrangeiro entraram em força no país, o renascentismo italo-cêntrico e contra-reformismo hispano-cêntrico e como não podia deixar de salientar a, dita santa, Inquisição. As duas ideias que se começaram a confrontar formam as de um Portugal português face a um Portugal estrangeiro de D. João III e, posteriormente, dos Filipes. E sendo Portugal no fundo uma metáfora para toda a Humanidade, isto significa o inicio da queda no profano. O que no mundo se mostrou como a luta entre Portugal e Castela revela-se nas ideias como luta entre a liberdade e a tirania e no espírito como a luta entre o sagrado e o profano.

Agora para poder compreender a evolução do mito é necessário algumas noções mais.
A concepção do mundo e do tempo das religiões judaico-cristãs tem uma particularidade quase única no mundo: a não crença na existência de tempo mítico, ou seja, para o judeu e o cristão, todo o espaço temporal da criação e das historias dos seus antepassados míticos é tratado como tempo histórico, e como tal é negada a ciclicidade do tempo, pois este não é recriado nunca, pois para isso era necessário o regresso do tempo mítico, assim o tempo é tratado como uma linha recta.
Mas tendo nascido de um seio judaico-cristão o Sebastianismo quebra com esta “lei”, admitindo a ciclicidade do tempo. Esta ciclicidade é essencialmente introduzida pelo Saudosismo. Rapidamente e de uma forma simples o Saudosismo trata-se de uma junção entre o Desejo e a Lembrança, assim, uma experiência vivida no passado é lembrada no presente e desejada para o futuro. Simultaneamente a dor causada pelo desejo é apaziguada pelo prazer da lembrança. Quando o Saudosismo é levado ao seu nível máximo torna-se a Saudade de Deus, a consciência de uma qualquer altura antes desta em que o homem era perfeito e um com Deus e dá-lhe a noção da ciclicidade do mundo e da existência. Quando trabalhada de forma adequando esta Saudade eleva o homem de novo a Deus, mas isto já começa a ser outra história.
A figura do herói morto que nunca regressa torna-se Saudosa e começou a ser transferida para certos e determinados homens que numa época ou outra se destacaram como possíveis salvadores e redentores da pátria, esta ideia foi principalmente desenvolvida por Fernando Pessoa. O Sebastianismo começou a admitir a reencarnação cíclica do Messias em sucessivos avatares do Encoberto, D. João IV, Marquês de Pombal ou Sidónio Pais, a quem Fernando Pessoa chamava de Presidente-Rei.
Ou seja, o Encoberto, ao ser Saudado, pode manifestar-se em qualquer um em qualquer momento, como já o tem feito, mas isso no entanto não deverá ser interpretado como uma desculpa para nos deixar-mos estar e esperar por ele, em passiva expectativa, pois quem nos diz que não somo nós mesmos a sua nova manifestação? Assim todos os homens deveram esforçar-se ao máximo procurar o Encoberto neles.
O Sebastianismo é então, também uma filosofia de afirmação do indivíduo, em oposição ás politicas materialistas das massas, é o desejo de liberdade da maré comum, já o era, no tempo de D. João III e ainda o é agora. Neste ponto ele mostra-se como derradeiro oposto á noção marxista de um império de justiça e igualdade, enquanto que o Quinto Império será o império do espírito e da individualização, o ideal comunista é o império do materialismo e da uniformidade.



Bem… acho que não tenho muito mais a dizer sobre o Sebastianismo mais esotérico, espero que não tenha sido demasiado confuso e devo dizer que estava á espera que o texto tivesse ficado um pouco melhor.
Agora apenas me resta dar alguns exemplos de Formas do mito Sebastianico, nomeadamente o Brasileiro e o Islâmico.


Os casos de maior relevo de Sebastianismo Brasileiro são invariavelmente encontrados no Nordeste Brasileiro, nomeadamente no interior do Recife, da Baía, da Paraíba ou do Maranhão. Ora, estas são zonas afligidas por inúmeras dificuldades económicas em contradição com o “progressismo” do litoral. Isto cria uma clara distinção entre o rural e o urbano e é nesta contradição que nasce o Sebastianismo Brasileiro (tal como em Portugal nasceu entre Portugal e Castela). Citando Gilberto Freyre: “… casos de ruralismo místico desajustado, por segregação sócio-cultural dos valores predominantes nas áreas urbanas: «Profetas com aspecto de monges russos, de Rasputines caboclos: um povo de vida arcaicamente, mas honestamente pastoril. Falando um português ainda do tempo colonial e praticando um cristianismo que, por falta de padres, se tornara menos ortodoxo, porém não menos sincero que os das gentes mais assistidas pela Igreja e pelos padres, das cidades do litoral” (…) “gente rural contra urbana, contra imposições do imperialismo urbano – chamemo-lo assim – à revelia de conveniências, aspirações e sentimentos das populações rurais das áreas pastoris, mantidas numa espécie de servidão colonial em relação às agrárias do litoral e ás urbanas”.
Somado a isto temos que o povo brasileiro ser produto das chamadas três raças saudosistas: os Portugueses desterrados e emigrados num país distante (levando já consigo a herança cristã, judaica e muçulmana), o Africanos arrancados á sua terra natal para trabalharem como escravos e o Índios Brasileiros, a quem as terras foram roubadas e como Teixeira de Pascoaes diz: “E a saudade, com a sua face de desejo e esperança, é já a sombra do Encoberto amanhecida, dissipado o nevoeiro da legendária manhã”. O Sebastianismo caminha lado a lado com a Saudade, assim o povo Brasileiro torna-se um campo terrivelmente fértil para o surgimento de messianismos, em especial o Sebastianismo, com uma força e fanatismo por vezes aterrorizadores. Muita desta força pode ser devida ao Padre António Vieira, claro, cuja influencia penetrou profundamente no subconsciente Brasileiro, mas o Sebastianismo Brasileiro é uma coisa completamente aparte do Português, se considerarmos o Sebastianismo Português como branco, o Sebastianismo Brasileiro é mestiço, é como o seu povo. A Religião Sebastianica, como a sonhou Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoaes de facto existiu, mas nas regiões dos jagunços, de cangaceiros, de atavismos tupis e africanos, numa mistura de crença nacional, cristã, mística e animista.
O primeiro caso de profetismo Sebastianico Brasileiro deu-se em 1819, no sertão de Pernambuco, quando um homem chamado Silvestre José dos Santos começou a pregar a ressurreição do Encoberto que viria instaurar o seu Reino no Brasil. Este conseguiu um razoável número de apoiantes mas foi rapidamente destruído por tropas do governo, que mataram todos os envolvidos.
Mas de real digna menção existem dois casos de Sebastianismo Brasileiro, o sanguinário e psicótico caso de Pedra Bonita (creio que se o Diabo existir no mundo físico é na Pedra Bonita que está escondido) e o da guerra religiosa de Canudos.

O caso do Pedra Bonita deu-se logo em 1838 (depois de um outro caso em 1836, profetizado pelo mameluco [mestiço de branco e índio] João António dos Santos de Vila Bela de Pedra Talhada, de pouco relevo), novamente no sertão de Pernambuco, profetizado por João Ferreira. Este reuniu o pobre povo sedento de um salvador em redor de um alto penedos arredondado chamado Pedra Bonita. O seu carisma e poder hipnótico seria tanto que convenceu o povo que D. Sebastião, com todo o seu exercito, estavam encantado, dentro da pedra e que seria desencantado, trazendo o seu Reino, quando esta pedra fosse banhada com o sangue dos inocentes. Segundo Ariano Suassuna este “profeta” falaria do seguinte modo: “Dom Sebastião está muito desgostoso e triste com o seu povo, porque o perseguem, não regando o Campo Encantado e não lavando as duas torres da Catedral do seu Reino com o sangue necessário para quebrar de uma vez este cruel Encantamento.”
O que se seguiu foi o que se poderá chamar de psicose ou loucura colectiva, uma sucessão de rituais de sacrifício humano no cimo do penedo, pessoas ofereciam-se como vitimas, ofereciam os seus filhos, em soma, o horror reinou (ainda mais) no sertão. Citando os autores brasileiros, que, com certeza sentiram muito melhor o caso.

Euclydes Cunha: “Este lugar foi, em 1837, teatro de cenas que recordam as sinistras solenidades religiosas dos Achantis. Um mameluco, um cafuz, um iluminado, ali congregou toda a população dos sítios convizinhos e, engrimpando-se à pedra, anunciou, convicto, o próximo advento do reino encantado do rei D. Sebastião. Quebrada a pedra, a que subiria, não a pancada de marreta, mas pela acção miraculosa do sangue das crianças, espargido sobre ele em holocausto, o grande rei irromperia, envolto da sua guarda fulgurante, castigando inexorável a Humanidade ingrata, mas cumulando de riqueza os que houvessem contribuído para o desencanto.
Passou pelo sertão um frémito de nevrose…”

Lúcio Azevedo: “ (…) o embusteiro sanguinário que capitaneava estes energúmenos, logrou convencê-los de que por sacrifícios humanos se alcançaria desencantar o monarca, e que as vitimas ressuscitariam com ele, para participar dos tesouros que ao seu povo então distribuiria. Houve pais que sacrificaram os filhos, maridos as mulheres, e indivíduos que voluntariamente deram vida. Nada tinham tais factos com o sebastianismo português. A tradição, constante no povo, deformara-se no contacto da mestiçagem, mal integrada na civilização. Amalgamou-se com reminiscências dos contos de fadas, e o resto foi o recordar inconsciente de ritos bárbaros dos antepassados, nos tempos em que o sangue índio e africano se não mesclara ainda o do europeu.”

A resolução do caso é invariavelmente a mesma de todos os grandes cultos Sebastianicos Brasileiros, este foi esmagado pelas forças armadas, que mataram praticamente toda a gente envolvida, incluindo o “profeta”.

O caso de Canudos deu-se em 1897, numa altura especial da história politica brasileira, pouco tempo depois da implantação da república. Uma onda da racionalismo, positivismo e varias outras filosofias materialistas estava a invadir o Brasil, sendo o lema “Ordem e Progresso” ainda uma marca dessa altura. Ironicamente toda esta anti-espiritualidade evoluiu para uma, na minha opinião, ridícula religião do positivismo, teve o seu Templo, o seu Calendário Positivista e até o Catecismo Positivista.
Como sempre, estas andanças de meia dúzia de políticos “iluminados” não era do agrado do povo, fortemente espiritual, isto criou oposição, a oposição do materialismo contra o espiritualismo, explodindo de imediato, como é óbvio, o Sebastianismo. Este Sebastianismo foi tão forte que chegou a sair fora dos sertões e por em risco o sistema de governo social Brasileiro.
O seu profeta era António Vicente Mendes Maciel, o António Conselheiro. Este “culto” era de uma natureza muito diferente do de Pedra Bonita, quase antagónico. António Conselheiro anunciava a vinda do Reino de D. Sebastião, pregava á igualdade, à liberdade, á caridade, ao amor ao próximo, ao casamento sagrado, ele proclamava um verdadeiro reino paracletico, o Império do Espírito Santo, esta ideia chegou tão longe que nas aldeias onde a sua mensagem era mais ouvida chegou a desaparecer por completo o uso de dinheiro.
Um testemunho descreve o profeta assim: “Quando ali passámos (no Cumba, em 1887) achava-se na povoação o célebre Conselheiro, sujeito baixo, moreno, acaboclado, de barbas e cabelos pretos e crescidos, vestido de camisolão azul, morando sozinho numa desmobilada casa, onde se apinhavam as beatas e afluíam os presuntos com os quais se alimentava (…). O povo costumava afluir em massa aos actos do Conselheiro, a cujo aceno cegamente obedece e resistirá ainda mesmo a qualquer ordem legal, por cuja razão os vigário o deixam impunemente passar por santo, tanto mais quanto ele nada ganha e, ao contrario promove os baptizados, casamentos, desobrigas, festas, novenas…”
O Conselheiro vê a Lei de Deus quebrada pela Republica, que legalizava os divórcios fazia outras afrontas, ordenou a desobediência civil. No interior do estado da Bahia, nas terras do Conselheiro, entre Queimadas, Pombal, Bom Concelho, Mirandela e Canudos, para lá do Monte Santo e de Acaratí reinava a lei de Deus, não entrava a lei do Cão, a lei do Demónio.

D. Sebastião já chegou
E trás muito regimento
Acabando com o civil
E fazendo o casamento

O anticristo nasceu
Para o Brasil governar
Mas cá está o Conselheiro
Para dele nos livrar!

Visita nos vem fazer
Nosso rei D. Sebastião
Coitado daquele pobre
Que estiver na lei do cão!

O povo não sentia medo das represálias do governo pois o exército encantado de D. Sebastião viria em seu auxílio. Tal não aconteceu e foram mobilizados dois regimentos do exército. No fim da batalha quando caiu Canudos, apenas restavam 5 mil soldados, a lutarem contra dois homens, um velho e uma criança que lutavam ainda fervorosamente. O povo de Canudos e crente no Reino de D. Sebastião lutou literalmente até ao último homem, com crença e fervor, verdadeira fé e religiosidade.

A respeito do Sebastianismo Islâmico tenho muito pouco informação, apenas a lenda básica, estou no entanto a procurar o livro de onde António Quadros retirou está pequena informação.
D Sebastião não morreu na batalha de Alcácer-Quibir, cujo resultado foi a vontade e de Allah. Impressionado por tal poder, D. Sebastião viajou, incógnito, até Meca, para conhecer a religião de Maomé. Aí ter-se-á convertido ao Islão. Os corifeus desta seita asseguram que está para breve o seu regresso, quando ele unirá todo o mundo árabe (que bem precisa…) e iniciará a sua expansão.



Bem… creio que está feito. Espero que nunca mais me chateiem com isto… grumph!



Não me dizes que lá por Portugal
Andam as almas todas quebradas?
Vae, meu filho: vae para Portugal
Vae levantar as flores, já tão quebradas.

Anda meu filho, vae dizer baixinho
A esse povo do ar, que é teu irmão,
Que não fraqueja nunca no caminho,
Que espere em pé o seu D. Sebastião.

Anrique, vae gritar por essa rua
- Virá um dia o «Sempre-Desejado»!
Deu a vida por vós, Tu, dá-lhe a tua,
Esquece n’elle todo o teu passado

Procura bem Anrique, em Portugal
Procura-o na flor das primaveras,
Procura-o na sombra do olival;
Procura à luz de todas as chymeras…


- António Nobre




Porto-Graal Sempre!
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noonessoul
Posted: Sep 12 2005, 09:12 PM


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Muitissimo obrigado pelo tempo dispendido na satisfação dos nossos pedidos. E o resultado não poderia ser melhor. Era-me totalmente desconhecido o Sebastianismo Brasileiro e o Islâmico.

Se queres que te diga, não vejo no caso de Pedra Bonita uma forma de Sebastianismo. Era a mesma coisa que dizeres que o Charles Manson era um profeta do Beatlerismo. Tratava-se apenas de um louco que encontrou em D. Sebastião uma "desculpa". Contudo, em Canudos, é notorio o culto sebastianico, tal a força e a mensagem que propagou.

A universalidade do Sebastianismo está, como dizes, não ligado à figura histórica de D. Sebastião, mas ao sentimento de opressão (principalmente espiritual) que ocorre aqui e ali. Não sei se concordas que podemos atribuir as mesmas caracteristicas a figuras históricas tão dispares como Rainha Isabel I(de Inglaterra), o Rei Sol (em França) e outras tantas figuras, essencialmente líderes de épocas gloriosas do seu país. Mas também é verdade que a elas não existe um sentimento saudosista tão forte, não é?

É interessante quando afirmas que o povo brasileiro é uma mistura dos três povos saudosistas. Consideras, portanto, haver uma maior predisposição para a ressurgência ciclica de focos sebastianicos nesse país? Ou trata-se apenas de uma herança cultural que acentua o sentimento já existente nos portugueses?

Falas também, algo agressivamente, do chamado nacionalismo (o actual). Sou contra esses sentimentos xenofobos, e pareceu-me que partilhas essa minha opinião. Vejo-te, porém, a defenderes um Portugal livre de influência estrangeira. Mas, se Portugal, como dizes, é a Humanidade, de onde parte essa influência estrangeira?

Perdoa-me se, por acaso e com grandes possibilidades de acontecer, percebi mal as tuas palavras e fiz perguntas sem sentido. E, se não quiseres responder devido a isso ou à tua indisponibilidade à abordagem do tema, estás à vontade.

Sem mais nada a dizer senão um obrigado:
Fábio Levi Fontes
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umbrae
Posted: Sep 12 2005, 09:40 PM


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Citarei, mais uma vez, Fernando Pessoa, que no livro "Comentário maior às profecias do bandarra explica isso. Ou pelo menso a mim me parece. ( O livro que eu acabei de referir não existe, mas estava progamado existir. Por isso reuniram o espólio de pessoa para o fazer com textos que já estavam destinados ao livro)

"O índios da Índia inglesa dizem que são indios, os da índia portuguesa que são portugueses. Nisto, que não provêm de qualquer cálculo nosso, está a chave do nosso possível domínio no futuro. Porque a essência do grande imperalismo é o converter os outros em nossa substância, o converter os outros em nós mesmos."

Ou seja, o que eu compreendi, e talvez esteja errado, é:

- Somos um povo que engloba muitos povos. Mas eles passaram a ser portugueses. Como hei-de de explicar? O povo português engloba outros povos tornando-os no dele. Tornamos a sua cultura aprte da cultura portuguesa. Mas por exemplo outras coisas, como a Igreja Romano é criação de Roma. E que foi "imposta" aos portugueses, mas mesmo assim pode-se ver o quanto os portugueses a transformaram. Basta apenas ver muitos dos ritos e tradições por todo o país, como por exemplo a grande devoção ao espírito santo.

Espero não ter dito nada de mal. Se sim, por favor, corrijam-me.
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7ony
Posted: Sep 13 2005, 01:21 AM


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QUOTE
Não existe messianismo judaico!!!! Isso é uma treta católica anti-semita introduzida na mente dos putos na catequese para lhes mostrar como os judeus são mauzinhos por ainda não aceitarem Jesus como o messias.


http://en.wikipedia.org/wiki/Jewish_Messiah

Neste artigo, que pode bem estar errado, embora não acredite, passo a citar:

"Present-day positions

Orthodox Judaism

Most Orthodox Jews hold that Jews are obligated to accept Maimonides's 13 Principles of Faith, including an unwavering belief in the coming of the messiah."

Claro, isto é só uma das posições actuais, mas isto não corresponde à definição de messianismo judaico?
Comentários?
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Tomoe
Posted: Sep 13 2005, 10:58 AM


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Bem... respondendo ás questões:

QUOTE
A universalidade do Sebastianismo está, como dizes, não ligado à figura histórica de D. Sebastião, mas ao sentimento de opressão (principalmente espiritual) que ocorre aqui e ali. Não sei se concordas que podemos atribuir as mesmas caracteristicas a figuras históricas tão dispares como Rainha Isabel I(de Inglaterra), o Rei Sol (em França) e outras tantas figuras, essencialmente líderes de épocas gloriosas do seu país. Mas também é verdade que a elas não existe um sentimento saudosista tão forte, não é?


Os casos que referistes não podem ser incluidos num sentimento sebastico, por assim dizer. Como tu proprio referiste, elas não deixaram saudade, a sua gloria não foi perdida, como no caso Portugues.

QUOTE
É interessante quando afirmas que o povo brasileiro é uma mistura dos três povos saudosistas. Consideras, portanto, haver uma maior predisposição para a ressurgência ciclica de focos sebastianicos nesse país? Ou trata-se apenas de uma herança cultural que acentua o sentimento já existente nos portugueses?


Devido á sua intença predesposição Saudosa o povo Brasileiro é propricio á surgimento de messianismos, em epecial o Sebastianista, visto ser o que mais "cola" com o Saudosismo.

QUOTE
Falas também, algo agressivamente, do chamado nacionalismo (o actual). Sou contra esses sentimentos xenofobos, e pareceu-me que partilhas essa minha opinião. Vejo-te, porém, a defenderes um Portugal livre de influência estrangeira. Mas, se Portugal, como dizes, é a Humanidade, de onde parte essa influência estrangeira?


Essa influencia extrangeira, aplicada forçosamente por aqueles que não compreendem Portugal e o Nacionalismo Mistico e Cosmopolita, vem oprimir a Portugalidade, turnando os Portugueses apenas portugueses e não Universais. Apenas quando se deixa Portugal ser Portugues, livre de influencias e correntes de pensamento opresoras (nomeadamente estrangeiras, sendo a vigentes na Europa do presente as Alemãs materialistas) é que ele se torna Universal.
Portugal sem a influencia extrangeira torna-se tambem extrangeiro... tipo... não persisa de ajuda, isso só o lixa.

QUOTE
- Somos um povo que engloba muitos povos. Mas eles passaram a ser portugueses. Como hei-de de explicar? O povo português engloba outros povos tornando-os no dele. Tornamos a sua cultura aprte da cultura portuguesa. Mas por exemplo outras coisas, como a Igreja Romano é criação de Roma. E que foi "imposta" aos portugueses, mas mesmo assim pode-se ver o quanto os portugueses a transformaram. Basta apenas ver muitos dos ritos e tradições por todo o país, como por exemplo a grande devoção ao espírito santo.


Mais ou menos isso, mas a interecção cultural entre Portugal e outras culturas funciona para os dois lados, "do Tejo não apenas saía, mas tambem entrava". Portugal era as outras culturas, Portugal era a India, o Brasil e Africa. Pensem nisto: Portugal era um Imperio, mas não tinha Imperador, porque Portugal era uma ideia um modo de ser e estar, uma verdadeira Nacionalidade Universal, ser Portugues não era abdicar da sua propria nacionalidade, era antes abraçar as outras.


Espero que tenha explicado as coisas... caso contrario avisem...
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Tomoe
Posted: Sep 15 2005, 05:10 PM


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Ainda sobre este ponto em especifico:

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Falas também, algo agressivamente, do chamado nacionalismo (o actual). Sou contra esses sentimentos xenofobos, e pareceu-me que partilhas essa minha opinião. Vejo-te, porém, a defenderes um Portugal livre de influência estrangeira. Mas, se Portugal, como dizes, é a Humanidade, de onde parte essa influência estrangeira?


A questão é que Portugal é a Humanidade, mas apenas quando Portugal está numa situação ideal, caso que não se verifica actualmente. Logo, para de facto Portugal se turnar novamente a Humanidade é nesseçario afastar as politicas culturalmente castradoras estrangeiras, para Portugal se turnar de novo Portugal e então depois, a Humanidade.
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