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Já tinha dito ao Oblivion que tinha entrado num concurso aqui da terra, mas que estava à espera do resultado. Pois bem, surpreendentemente, o 3.º prémio veio ter aqui a casa. Digo surpreendentemente porque não é nada de especial e não me identifico muito com ele, mas o tema era um nadinha castrador e a qualidade não é das melhores (escrito numa tarde em que não estava muito virado para a escrita). Para os interessados, aqui vai o conto:
História de uma alma, por Fábio L. Fontes
O relógio indicava as oito horas da manhã quando António entrou no edifício, erguendo-se para o céu como um imenso braço sem mão que aponta para o vazio. António José Coelho, assim se chamava o advogado, e, se o bilhete de identidade lhe fosse pedido, facilmente se descobriria que no passado mês de Janeiro completara 42 anos. Também o B.I mostraria um homem robusto, alto, com a pêra rala a marcar-lhe o rosto e um cabelo desalinhado como marca pessoal. Os dentes amarelados, escondidos na boca esguia, eram apenas consequência dos cigarros que desapareciam dos seus dedos com rapidez e em números impressionantes. E, para finalizar a perspicaz analise à sua “carte d’identité de citoyen national”, dir-se-ia ainda que António habitava em Portimão, sob o sol agreste do Algarve. O edifício do tribunal era anguloso, repleto de arestas abruptas. As pedras rosáceas com que fora revestido davam-lhe ainda um aspecto mais estranho, face à entristecedora falta de cor que o cercava em todas as direcções. Talvez apenas as periódicas fileiras de carros, paradas diante dos semáforos ali perto, tonalizavam aquele deserto de cinzento. Perto dali, numa ironia estranha, ficava o templo de uma exótica crença, a “Igreja do Evangelho Quadrangular”, possivelmente para converter os pecadores que entram e saem constantemente no prédio para enfrentar o juiz. Depois, nas traseiras da rosada construção, a Biblioteca Municipal, a qual alguém dedicara à celebridade da cidade, Manuel Teixeira Gomes, e ainda uma creche e a esquadra da P.S.P. Mas este ambiente circundante era por demais conhecido de António para que reparasse nele todas as vezes que ali entrava. Com o hábito, apenas as portas envidraçadas do tribunal passavam a importar. Aquela manhã, com o sol ainda inseguro escondendo-se atrás dos suaves novelos de nuvens, seria possivelmente como tantas outras: uma visita ao tribunal para preparar um ou dois divórcios litigiosos ou para conhecer a sentença num processo de roubo ou qualquer outra aborrecida e enfadonha história. Por vezes, António perguntava o porquê de tantas pessoas aspirarem à advocacia como meta a atingir e, após olhar para si mesmo, concluía rapidamente que deveria ser a promessa de dinheiro ou algo semelhante. Embora não andassem longe da realidade, pensava ele, nem sempre era fácil conseguir emprego que conduzisse ao sonho das notas multicolores. Contudo, aquela manhã seria muito diferente das outras em mais do que um aspecto. Entrara no tribunal e, depois de se deter numa breve conversa com uma secretária fétida e sebenta que o tribunal se orgulhava em empregar, avançou para o elevador. Aí entrou pressionando o botão circular que o levaria ao terceiro andar. Porém, antes de o alcançar, parou no primeiro para que uma juíza sua conhecida e um outro advogado entrassem. — Sim, parece que o velho entrou no minimercado, sacou de uma caçadeira e… e atirou nas duas pessoas que lá estavam! Sem motivo aparente, ao que a Polícia apurou — disse a juíza, sem que o seu rosto mostrasse a mínima emoção. — Está no hospital, a realizar testes psiquiátricos, ao que me disse o Teixeira, o da Polícia… — As televisões e os jornais devem… devem ‘tar aos pulos com a história, não? — perguntou o outro advogado. — Claro… as televisões hoje em dia deliram com isto! Esta noite vai abrir os jornais todos, podes ter a certeza! — E quem é que o vai defender? O Pires? — Não… Deve ser alguém que estava de turno, ontem à noite. O cabrão do velho não deve ter dinheiro para pagar um advogado, e muito menos o Pires… — Soltou uma gargalhada, como se acabasse de contar uma piada e nenhuma morte estivesse envolvida nas suas palavras. Contudo, as suas palavras haviam accionado, ainda que não intencionalmente, uma ânsia incomensurável de António pela fama, pelo reconhecimento e todos esses adjectivos que marcam, de forma tão indistinta, o povo português do início de século e que não escolhe idades ou classes e tão pouco sexos. Antes que a porta do elevador se fechasse, saiu apressado, descendo as escadas que levavam ao térreo num ápice. Ainda acenou à secretária, mas o cheiro repugnante que exalava ainda o fez correr mais depressa. Com um click no comando do carro, abriu a porta do Audi e entrou arrancando como se o dia de amanhã não existisse. “O cabrão do velho não deve ter dinheiro para pagar um advogado.” As palavras ecoavam-lhe na cabeça. Quase como acontecera num filme qualquer… o Richard Gere entrava como advogado, se a memória não lhe falhava. Iria oferecer-se como advogado… um advogado que não cobraria dinheiro. A ideia parecia boa naquele momento e, como termo de comparação, no filme também resultara. Porque não resultaria também na vida real? O filme, porém, acabara algo mal, parecia-lhe… Mas a vida também não é nenhum filme! Avançava pela V6, palmilhando cada metro sem receio de um acidente. Não, a vida não lhe pregaria uma partida dessas agora que poderia ter a sua grande oportunidade. Os processos maçadores haviam acabado, seria convidado para um bom escritório de advogado em Lisboa ou no Porto, aparecia como comentador na TV… Não, o destino não atrapalharia isso com um acidente agora! Virou o carro à direita, meia rotunda efectuada, uma recta e outra rotunda e o Hospital do Barlavento Algarvio erguia-se diante dele, a mesma forma do tribunal elevando-se no céu. Uma pergunta a uma porteira ou encarregada e a sua resposta negativa não o fizeram desanimar. “Não vais ser tu a afastar-me do meu destino!”, pensou para si antes de retirar uma nota de valor algo elevado e estendê-la à auxiliar. Rapidamente recebeu instruções, face a tão generosa oferta… — Quinto andar, quarto 23 — disse-lhe ela timidamente, como diria uma criança que fez uma asneira e disso tem noção. Não foi necessário que ela o repetisse segunda vez. Avançou para o elevador e, depois de transpor um segurança com alguma mentira doce, subiu até ao andar indicado pela mulher e, em pouco passos, chegara junto ao quarto 23. Permitiu a si mesmo uns segundos de hesitação. Seria necessário alguma desenvoltura nas palavras para convencer o velho a aceitá-lo como advogado, mas, por outro lado, algumas meias verdades deveriam ser suficiente para o iludir. Porque o destino assim o desejava, não era? Era um pequeno quarto individual. Soubera-o logo que entrara, depois de se apresentar aos polícias que guardavam a porta como advogado do velho. Encostada à parede esquerda, do ponto de vista de quem entrava no cubículo, um leito de ferro e sobre ele o velho. Um lençol branco cobria-lhe o corpo, deixando apenas a cabeça, os ombros e as ossudas mãos de dedos compridos a descoberto. Dormia profundamente, como um pequeno recém-nascido. Por segundos, pareceu a António que o idoso seria incapaz de matar um insignificante insecto mas, rapidamente, perdeu as ilusões. Como ele sabia, a Polícia raramente costumava cometer erros tão flagrantes como prender a pessoa errada… E isso ainda tornava mais aliciante, até divertido, retirar das mãos do Ministério Público os criminosos, colocá-los fora da prisão, quando lá deveriam estar. Aquele velho seria apenas mais um, um que não suportaria muitos mais anos para cometer outro crime e aquele que o levaria para outros voos. — Acorde, temos de falar — sussurrou-lhe ao ouvido, para o acordar. Lentamente o idoso abriu os olhos, franzindo a testa enrugada. — Quem é você? — perguntou, numa voz áspera e grossa e algo arranhada, como se tivesse acabado de ingerir de um só trago um cálice de aguardente. — O seu salvador, caso queira! — respondeu-lhe ele, docemente. Explicou-lhe aquilo que imaginara, que não queria pagamento, que o salvaria, que iria preso caso confiasse no advogado nomeado pelo Ministério Público e tantas outras mentiras dissimuladas que, mesmo ele, o mentiroso, começava a acreditar naquilo que dizia. O velho, que a mãe havia baptizado de José João, ainda que um pouco confuso, acreditou e não demorou muito a aceitar o advogado que se lhe aparecia ali. Não nascera em Portimão, era de Albufeira. Mas os pais, um chauffer de barcos e uma operária da indústria conserveira, florescente na cidade no início do século XX, tinham vindo habitar uma casa em Portimão e ele, aos oito anos, viera para a cidade que agora chamava de sua. Deixara a escola aos dez anos, e, tal como o pai, fora para o mar, para a faina, trabalhar sob o sol abrasador do Verão e sob chuva selvática do Inverno. Muitas vezes entrava na barco às cinco horas da tarde e apenas voltava a ver terra firma pela manhã, quando as sirenes da fábrica chamavam até si os operários. Ficara-lhe desses tempos três coisas: o vício do tabaco, a artrite que lhe macerava o corpo e a pele morena e salgada, onde o mar e o sol se haviam entranhado até que ele morresse, um dia. E, agora que os setenta e seis anos lhe pesavam no corpo e a vida lhe começava a fugir a pouco e pouco, o velho Zéjão, como sempre lhe haviam chamado, acabava ali, numa estranha espera pela prisão que se afigurava eminente. — Mas que raio se passou? — perguntou António, olhando o velho num canto da sala, sentado numa cadeira que ali jazia abandonada. — Bem… O mundo é um lugar estranho, sabia? — começou o velho, sem encarar o advogado, preterindo-o a um ponto no infinito. — Tudo começou na semana passada… ou melhor, começar começou há muitos anos atrás, não sei se percebe?! — Fez uma pausa, suspirando suavemente. — Ela era uma cachopa bonita, a Açucena, e todos lá no bairro nos enamoramos por ela. Tinha uns caracóis negros como a fuligem que saia do motor do barco e uma pele morena e muito macia. E um sorriso, um sorriso lindo. António observava-o com atenção, conseguindo descortinar no esquivo olhar do homem um brilho de alegria, como se as recordações bonitas lhe viessem à memória já enfraquecida. — Quando havia bailaricos, todos dançávamos com ela e ela… ela ria, dava gargalhadas… Oh, sabe aquelas gargalhadas que saem do fundo da gente e vêm com uma alegria que se pega a nós como uma doença? Eram assim as gargalhadas dela! — continuou, transbordando um contentamento quase infantil e que em nada se parecia adequar a situação em que se encontrava. — Eu, o Duque… e todos os outros gostávamos dela. Um dia, depois de um bailarico, peguei-lhe na mão e, correndo pelo bairro, fomos até às oliveiras perto daquilo que hoje é a 25 de Abril. Olhei-a nos olhos e, ganhando coragem, perguntei-lhe se queria namorar comigo. Ela olhou para mim, aqueles olhos grandes e muito, muito negros e disse-me que não… Mais tarde nessa noite, chorei pela primeira vez desde que tinha deixado a escola. Mas naquele momento apenas fiquei ali, incapaz de me mexer, incapaz sequer de saber se aquilo não era apenas um pesadelo. Uma pequena lágrima formou-se junto do seu olhar que, entretanto, se tornara triste e até rancoroso. — E, incapaz de me mexer, ouvi aquilo que ela me quis dizer, como se me quisesse torturar ainda mais. Numa voz que ainda hoje me arrepia, disse-me que gostava do Duque… Do Duque, do meu melhor amigo, do meu companheiro de sempre! E disse-me que namorava com ele e tantas outras coisas que decidi esquecer e que também não quero recordar agora. Bem… eles casaram e emigraram para França. — E que relação existe entre eles e o homicídio? — Calma, já vamos lá! Eu continuei no mar e a morar na casa dos meus pais, no bairro do Pontal. Mas não casei, não tive filhos… e quando os meus pais morreram, fiquei sozinho. A cidade, entretanto, cresceu à minha volta e o que não passava de campo quando aqui cheguei é agora uma cidade. O fumo entra-nos nos pulmões e aperta-os quase até nos matar, as pessoas já não se conhecem umas às outras como antes, já não existe respeito por nada nem por ninguém! Transformou-se num sítio triste, o meu Portimão. Embora não concordasse com tudo o que o velho dizia, havia alguma verdade naquilo que ele dissera. Não era propriamente uma cidade alegre, mas também não era uma cidade triste. António achava-a simplesmente uma cidade… Para quê perder tempo a classificar uma cidade que não passava apenas de um local sem importância? Era apenas um local de passagem, um Purgatório para chegar ao Céu. — O Duque voltou há uns dez anos, mas a Açucena não. Morrera pouco tempo antes de ele voltar. Montou uma mercearia lá no bairro e tentou voltar a falar comigo… Apenas lhe respondi que não o conhecia de lado nenhum e gritei para que todo o bairro ouvisse que um dia ainda perdia o juízo e lhe enfiava um tiro no meio da testa. E aqui começa a história que me trouxe até aqui… — O minimercado em que o senhor entrou e matou… — Eu não matei ninguém! — gritou o homem, erguendo-se num pulo. — É como eu lhe disse… O mundo é um lugar estranho! António tentou acalma-lo, mas o velho Zéjão parecia fora de si, como se possesso por algo. — Eu não matei, eu não matei ninguém! — continuava a gritar. — Ainda não fez uma semana, acordei pela manhã e tinha tudo virado do avesso, tudo de pernas para o ar! Tinha sido roubado… Levaram-me a televisão, o rádio, algum dinheiro e… e a minha caçadeira. E tudo por causa daquele filho de um corno, daquele ucraniano de merda! — Como sabe que foi um… um ucraniano a roubá-lo? — Então eu não lhe vi as trombas quando ele fugiu da mercearia depois de ter morto o Duque? — berrou o homem, gesticulando nervosamente. — Então, a caçadeira que matou o Duque e a outra pessoa… — A Zulmira… sim, foi o ucraniano que ma roubou! — Não acha coincidência a mais? Eu acredito em si — mentiu o advogado, tentando manter a credibilidade. — Mas o tribunal… — É a verdade! Que me caia aqui um raio em cima se não é a verdade! Que caia já aqui! — disse o velho, sentando-se novamente na cama. — Eu ia a descer a rua quando ouvi dois tiros na mercearia do Duque. Não tive outra reacção senão correr para lá e, qual não foi o meu espanto, quando encontro um ucraniano debruçado sobre o Duque, a remexer-lhe nos bolsos. Gritei logo e o sacana viu-me e pisgou-se a correr! E que queria você que eu fizesse? Entrei para ver se estava alguém ainda vivo, mas já estavam os dois mortos. Depois olhei para a caçadeira que ele tinha deixado no chão e vi que era minha… Peguei-lhe, a olhar para ela e para os dois mortos no chão. Não tive nenhuma reacção, nada. Bem… entretanto chegou a coscuvilheira do bairro, a Maria Antónia, viu-me ali, de caçadeira na mão, sangue na roupa e os dois mortos… E pronto, agora estou aqui e não tarda vou para a prisão, não é? — E essa Maria Antónia não pode ter visto alguma coisa? — Oh, meu rapaz, se viu não vai dizer nada. Todos nós temos medo dos ucranianos e ela mais que todos. O filho mais velho está a fazer tijolo com uma facada de um. — Soltou um suspiro. — Mesmo que tenha visto o filho da mãe do ucraniano, não vai dizer nada com medo… Realmente, parecia que não havia nada a fazer. Mesmo que a história do velho fosse verdadeira, e António começava a acreditar que sim, seria difícil convencer o juiz, dada a sua estranheza, sem uma testemunha. — Meu caro amigo Zéjão, vai ser difícil, mas conte comigo para fazer tudo por tudo para o livrar da cadeia! — O velho respondeu-lhe com um sorriso, um sorriso sincero de agradecimento.
As portas do cemitério abriam-se de par em par para deixar entrar o caixão e o velório. Havia muita gente ali, na sua maioria pessoas do bairro do Pontal, onde o Zéjão vivera grande parte da vida. Iam amigos, conhecidos e apenas pessoas que o haviam visto de passagem, na sua laboriosa vida, quando o avistavam sentado à porta da tasca a jogar à sueca. E ali estava também a Maria Antónia Barreto. Estava em prisão preventiva quando se suicidara. Utilizara os lençóis da cama e, aproveitando um momento em que o companheiro de cela dormia um sono profundo, enforcou-se, deixando-se oscilar já morto sob o chão frio da prisão. Um morto preso e inocente. — Pobre diabo! — suspirou alguém que passou junto a António. Realmente ele tinha sido um pobre, uma pobre alma que sofrera até encontrar o descanso. No dia da sua morte, António estivera com ele à tardinha, para lhe dizer que não havia testemunhas… Apenas a Maria Antónia e essa afirmara logo ao advogado que não diria nada. E ele, não esperando que a notícia tivesse tal desfecho, contara ao velho, salientando que nada estava perdido ainda. E agora que via a coscuvilheira vestir um luto rigoroso e chorar como se da viúva se tratasse, sentia uma revolta imensa nascer dentro dele, como jamais acontecera. Não entrou no cemitério. Não suportou entrar ali para ver um triste espectáculo de teatro, ainda por cima um com péssimos actores. Olhou em redor, começando a perceber aquilo que o Zéjão lhe dissera. “Transformou-se num sítio triste”, dissera ele sobre Portimão. Talvez porque não tinha nunca visto outros locais. Porque não era apenas Portimão que era triste, era o mundo em que viviam. Olhou para o céu e pensou no destino que lhe havia parecido risonho uns meses antes, quando ouvira a juíza. O destino, por vezes, prega partidas que não esperamos… Tirou um cigarro do bolso e acendeu-o. Realmente, o destino engana-nos e apenas se rege pelas suas próprias leis. — O meu destino fica para a próxima… — disse, por fim, olhando para o nada. — Ainda há tempo! — continuou, afastando-se dali, para a cidade.
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