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 O Caminho da Serpente
Daemonfey
Posted: Jun 4 2006, 03:14 PM


Escritor do Círculo


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O Caminho da Serpente

Texto da Autoria de Ludovico M. Alves


Prólogo: Eu e a Cerca



− Ouse viver!
O chamamento ecoou, usando um universo de matéria para atingir as suas vítimas, num desafinado e distorcido comprimento de onda. Furioso, Avier voltou-se para a caserna. Era mais uma vez o outro sargento e o seu detestável programa de rádio.
− Ouse viver! Ouse ganhar! Ouse chaammmaaarrr − continuava o terrível jingle. Como poderiam aguentar aquilo? Companhia, era a desculpa do costume. Balelas, praguejava Avier. Se queriam ouvir uma voz humana, ligassem para as informações… Um rádio?
− Baixa-me essa porcaria! − gritou, em iguais porções de fúria e autoridade. − Se não o fizeres, garanto-te que te mando para o outro lado!
Falhou em receber resposta, a ensurdecedora cacofonia do aparelho dissolvendo toda a razão. A dez quilómetros de tudo e a maior distância de nada, não adiantava enervar--se. Afastou-se ainda mais da caserna, metralhadora a tiracolo e pacote de cigarros na mão.
Sobravam três.
Rendido, pegou no isqueiro e acendeu-o. Levou-o aos lábios, recebendo o fel como ambrosia, alegria destilada de um mundo que os tinha esquecido. Mas ele era necessário. Todos os soldados acabavam ali, era o último serviço pela pátria. Antes da reserva…
Amostra grátis do oblívio que os esperava.
Guardar a Cerca.
− Boooooommm diaaaa, bem-vindos à Hora Mágica − guinchava o locutor, pelo tom um homem de meia-idade. Não haveria nenhum programa com mulheres de vozes sensuais? Avançou, procurando distância. Saboreou o cigarro enquanto observava as tristes nuvens que se aproximavam.
Nunca fazia bom tempo na região. O pessoal na cidade costumava falar de mau feng shui, de linhas invisíveis dilaceradas por uma draconiana muralha de arame e aço. Mas Avier sabia melhor… a Cerca era necessária para manter o mundo saudável. Era um sacrifício válido. Se o que estivesse do lado de lá fosse assim tão importante, de certeza que ninguém se iria esquecer…
Na sua mente simples e habituada a obedecer, a verdade era simples.
As pessoas nunca se esquecem das coisas importantes.
− E o nosso primeiro concorrente de hoje é Joseph. Diga-me Joseph, está pronto para responder à pergunta de hoje…
Avier parou de andar. Atirou o cigarro ao chão, verdadeiramente nos limites. Aquilo já era tortura, não havia algum lugar para onde pudesse escapar? Pensou nos trinta quilómetros da Cerca. Nalgum lado não ouviria o estúpido rádio. Animado, acelerou o passo.
− Para ganhar um fantástico desfibrilador de ovos… − ouviu-se num guinchar electrónico. Desfibrilador de ovos? Ouvira bem? − Joseph: que imperador tornou Santo o Império Romano?
Santo, santo, santo. Quantas vezes Avier ouvira essa palavra?
Quantas vezes o seu significado lhe tinha escapado?
Fez menção de pegar num segundo cigarro, mas conteve-se. Aquilo não podia ser bom para ele. Só lhe faltava mais um mês, mais um mês e ia deixar de precisar de fumar veneno…
− Bismark? − novo guincho do rádio. Tinha que se afastar mais…
Ao contornar duas árvores, observou algo estranho no linear padrão de losangos de arame. Um enorme rasgão dividia a Cerca, quebrando a sua perfeita integridade, violando o círculo mágico que a impedia de contaminar o mundo que amava…
Ligou o rádio. Estática.
Continuava a ouvir o mesmo programa. Como?
Pegou na arma, encontrando na sua frieza um invulgar conforto. Aproximou-se rapidamente.
Distinguiu três figuras, correndo entre a vegetação. Traziam roupas pesadas e mochilas bem abastecidas. Mas que loucura os levava a procurarem a morte? Num misto de piedade e devoção ao seu papel de guardião, Avier disparou.
Era melhor aquela morte, fácil, do que o lento consumo que os aguardava no interior da Cerca.
Foi então que sentiu, um estranho ricochete. O peito doía-lhe, como se ele próprio tivesse sido baleado. Contudo, ao abrir a camisa constatou que não havia uma única ferida de entrada. Como era isso possível?
Novo ardor, desta vez tão forte que o estatelou no chão. Não conseguia mexer as pernas, apenas esbracejava impotente enquanto fitava a Cerca. Algures na relva, intermitente e espectral, uma serpente fugia. Tinha agora a certeza.
Era uma serpente.
E tinha-o morto.
− Lamento, mas penso que a resposta está errada…

This post has been edited by Daemonfey on Jun 5 2006, 01:26 AM
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17th_angel
Posted: Jun 4 2006, 07:38 PM


Escritor sem editora


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Este prólogo é um bocado estranho. Diferente, no mínimo... Não gostei nem desgostei.
É esperar para ver que história sairá daqui...
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Illiar
Posted: Jun 4 2006, 08:49 PM


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sim lá que é estranho é... mas continua, veremos como se desenvolverá...
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Snipper Lundur
Posted: Jun 4 2006, 09:07 PM


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Eu gostei. Está bem escrito, cativa bem para o que virá a seguir, segue um caminho muito cinematográfico, bem fixe. Toda a história dos cigarros, toda a envolvência do rádio, todo o "beat around the bush" que diz tanto mas nada revela acerca da Cerca... Gostei!

Uma coisa: "única ferida de entrada. Como era isso?" - Como era isso? - Não percebo a contextualização, o fraseamento.
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17th_angel
Posted: Jun 4 2006, 10:26 PM


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Acho que sei a que o daemonfey se refere. Também já ouvi o termo ferida de entrada, quando se trata de ferimentos causados por balas. Já que estas ferem ao entrar e também se saírem(no caso da bala atravessar por completo o corpo) do corpo. Se saírem. Daí a distinção. Ferida de entrada/de saída.

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Daemonfey
Posted: Jun 5 2006, 12:57 AM


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Sim, o Askane disse tudo.

Bem, por esta altura o pessoal já deve estar habituado aos meus textos estranhos. Assim que terminar, vou colocar a primeira parte onde são dadas três visões, três histórias.
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Oblivion
Posted: Jun 5 2006, 01:09 AM


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Concordo com o Snipper, está francamente bom.
Bem escrito e descrito, sem ser maçador. Geras uma óptima atmosfera. Venha mais.

PS: A título pessoal, espero que as tuas bizarrias não arruinem este prólogo :rolleyes:
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Snipper Lundur
Posted: Jun 5 2006, 01:22 AM


Grande Escritor


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Eu não falava do ferida de entrada, mas do "como era isso?"...
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Daemonfey
Posted: Jun 5 2006, 01:26 AM


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Editado.
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Daemonfey
Posted: Jun 5 2006, 01:35 AM


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Ainda muito bruto, acabado de sair...
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Parte I: Liberdades
Onde três faces se despem e um lugar assoma como argamassa de sonhos e pilar de pesadelos.

Clarisse sempre se vira como uma mulher simples.
O problema é que a sua definição de simplicidade incluía um quase sobrenatural amor pela ciência, um fascínio que culminava em fantasias científicas. Como jornalista, todas as fantasias eram um luxo caro e prejudicial para a profissão. Contudo, o vício satisfazia-a com bons amigos.
No seu apartamento nos subúrbios espera por alguns deles. Supostamente deveria estar a fazer a cobertura de um festival canino qualquer. Mas de banalidades estava ela farta, desculpas de festividades elaboradas com gente rica, dinheiro velho e podre demais. Ela queria algo diferente.
Uma justificação.
Um caminho digno de seguir.
E esperava iniciá-lo ainda esta noite.
Tocaram à companhia. Sem pedir autorização ou questionar os seus direitos de entrada, dois homens entraram na pequena casa. Relativamente jovens, talvez na mediana casa dos trinta, eram bastante diferentes.
Lucian, o antropólogo, era um caucasiano baixo e de cabelos castanhos-claros, sempre de face limpa e com uns curiosos e cansados olhos verdes. Algo nele dava-lhe o aspecto de um atleta, disfarçando o facto de Lucian nunca ter feito uma única flexão na vida.
Já Maxwell, o físico, era um mestiço alto mas que se encontrava no lado perdedor da batalha contra a calvície. Apesar disso, mantinha um ar animado, ocultando a cabeça descascada debaixo de um gorro da sua universidade, tentando parecer mais um estudante do que um professor.
Ambos solteiros, as pessoas costumavam perguntar-se por que razão nenhum deles tinha tentado algo mais sério com Clarisse. Num jogo privado, os dois homens costumavam comentar a razão. Conheciam demasiado bem a mulher.
Por mais que ela o afirmasse, Clarisse estava longe de ser uma mulher simples. Que simples mulher praticamente obriga os seus amigos a fazerem doze horas de avião para realizar um pequeno passeio nocturno?
− Finalmente chegaram − constatou a loira Clarisse, animada enquanto abria o frigorífico, regressando para ao pé dos homens com uma embalagem de cervejas locais. Com o ar mais natural do mundo, sentou-se num dos sofás que enchiam a sala. − Afinal tinhas razão, Lucian. De facto, está cá.
− Presumo então que a tenhas visitado − respondeu o antropólogo, pegando numa das bebidas. − Como é o local?
− Entre trinta e quarenta quilómetros, aspecto mais ou menos circular − descreveu Clarisse. − Contudo, esqueceste de referir as torres de vigia, os antiaéreos, os guardas armados até aos dentes, os cães… já referi os cães.
Maxwell suspirou, enterrando-se também num dos sofás. Não começava a gostar da conversa. Procurou na sua mente um álibi, uma desculpa… algum compromisso mais importante.
− E como sabes que é esse o tal local? − inquiriu. − E não desprezando as tuas fontes, Lucian, como é que o encontraste em primeiro lugar?
− Da mesma maneira que descobri que estavas a ficar calvo, Maxwell. Através de um programa de fotos de satélite.
O antropólogo e a jornalista desataram a rir, sempre com a mesma conotação, o mesmo tom desesperado que ambos colocavam em todas as emoções. Eternamente sério e impávido, o físico continuou o seu jogo de descrença.
− Fotos de satélite? Desculpa lá, mas essa informação é bastante duvidosa. Se fosse assim, a informação estaria na boca de todos. Além disso, se houver lá algo verdadeiramente interessante, está estampado nessas fotos. Qualquer pessoa o poderia ver.
− Bem, primeiro, o problema não está em ver o local, está em identificá-lo correctamente. O milhar de vedações e zonas fechadas Segundo, posso descrever-te pormenorizadamente o terreno do local, não é nada de estranho, dificilmente capta a atenção. Principalmente pantanoso, irrigado por um rio que desce do norte, com um bosque, uma elevação e um descampado com alguns edifícios. Chega para te satisfazer, Clarisse?
− Não − respondeu a mulher, prontamente.
− Podiam explicar-me novamente porque estamos aqui? − pediu Maxwell.
− Não sejas tão lamuriante − queixou-se Lucian, um pouco chateado. − Entre nós os três, eu sou possivelmente aquele que tem menos a ganhar com esta história, mas no entanto ainda não lamentei.
− Deixa o Maxwell em paz. Parece que não sabes como ele é… − interveio Clarisse. − No entanto, eu devo explicar os meus motivos. Os americanos adoram ressuscitar folclore, inventar mitos…
− … Em muito para compensar a sua própria falta de história…
− Ignorando o comentário social, eles têm criado inúmeras histórias urbanas. Lendas complexas, semelhantes às bruxas europeias. Estas movem-se por modas… algumas décadas atrás, eram os raptos feitos por alienígenas. Praticamente ontem, eram os Iluminati, templários e outras sociedades secretas e esotéricas. Mas a última criação daquela cultura é a mais curiosa… a Cerca.
− Sim, a Cerca. Supostamente isso não é o nome de código para diferentes estruturas, autênticos campos de concentração onde se realizam testes? De natureza mutuamente religiosa e científica? − constatou com desdém Maxwell, brandindo uma lata. − Cavalheiros, um brinde à imaginação.
− Dito assim até parece que alguém andou a ver demasiados filmes de Vinzenzo Natali… − observou Clarisse.
− Bem, a nossa pequena expedição, se lhe posso chamar assim, já vai com um orçamento superior ao da maioria dos filmes dele − calculou Lucian. − Tenho de te mandar a conta dos transportes, Clarisse.
− De bom grado pagarei, mas só depois de ter um Pulitzer nas mãos!
− A eterna busca por uma notícia… − comentou o físico.
− Parece que não conheces o jornalismo moderno, Maxwell. Pouco interessa a veracidade de uma questão, tudo o que importa é o suco emocional. Essa ambrosia vende milhões quando estampada nas caras dos pivôs e nas manchetes! E algo desta popularidade tem carga emotiva assegurada!
− E assim Clarisse vende a alma…
− Eu preciso do prémio, não de uma alma, isso já eu tenho. Além do mais, para factos concretos e frios temos vocês, cientistas.
Os três voltaram a rir, desta vez quebrando a barreira protectora do físico. Cada um pegou noutra cerveja, regozijando-se com o animador estalido e satisfazendo-se com o seu sabor fresco.
− Clarisse, Clarisse… − soluçou Maxwell afastando uma lágrima. − Já podes parar de falar como uma má jornalista. Qualquer que tenha sido a catástrofe ou acidente que causou essa “zona morta”, toda a gente merece saber…
− Tu queres é descobrir que grande laboratório podes acusar − murmurou Lucian. − Tu és mesmo uma mosca morta que só desperta quando lhe enfiam um pau coberto de fel garganta a dentro.
O comentário não era estranho. Em termos profissionais, Maxwell era da velha guarda, apreciador de pequenas e dedicadas equipas. Com grande desprazer acompanhou o nascer dos grandes laboratórios, dos titânicos projectos, das cidades de cientistas. Aos seus olhos, era tudo anti-científico. O que quer que fosse tido por verdadeiro por as experiências “sucedidas” desses grupos dificilmente conseguiria encontrar no universo científico uma oposição eficiente.
Eles não criavam teorias. Eles fermentavam dogmas!
− Partilho os objectivos de Clarisse. Contudo, eu vim preparado para realizar os “testes da verdade”. Penso que seja bastante difícil travar metralhadoras e cães de guarda com um detector Geiser.
− Isso não será um problema − revelou Clarisse, abrindo a bolsa e tirando uma pilha de fotos. − Aqui a Cerca atravessa um bosque e há apenas uma caserna a guardar uma área com quase dois quilómetros. Devemos conseguir entrar por aí.
− Ainda não percebi o que tens a ganhar com isto, Lucian − observou Maxwell. − Afinal, duvido que isto tenha grande interesse antropológico. Pelo menos nenhum que justifique arriscar a vida…
− Bem, tenho vocês os dois. O que fariam sem mim? − perguntou. − Na verdade, eu também tenho interesse. A tal treta do mito urbano é o menor. Sinceramente, as histórias acerca da Cerca davam para mil e umas publicações.
− É a porcaria de um mito urbano!
− Talvez sim, talvez não − afirmou Lucian. − Estão familiares com a ideia de Fiddler’s Green?
Ao ver as faces deles, decidiu explicar.
− É uma lenda comum entre os marinheiros. Uma terra perfeita e amena, um local de sonho. De festa eterna, onde nunca se para de cantar e dançar…
− Basicamente, Paraíso? − resumiu Clarisse.
− Sim, podemos chamar-lhe isso.
− E qual é o teu interesse nisso? − foi a vez do físico falar.
− Todas as boas histórias são dualistas. Quer dizer, tudo é definido por uma oposição, que ao mesmo tempo é parte do objecto perfeito. Inferno e Paraíso é apenas um exemplo. Essa Cerca em todas as cercas, todas as variações, é um locus horribilis, todos os piores lugares nos piores tempos e onde ocorrem os piores eventos − como sempre que tirava alguma genial conclusão, Lucian esbugalhou os olhos e abriu longamente a boca. − Depois de tamanha tormenta, qualquer marinheiro encontrará o Fiddler’s Green. E esses lugares são sempre giros de visitar.
Era oficial: Lucian não era um atleta, mas alguma loucura puxava-o sempre para as caminhadas mais ousadas…
− Estranho esse Éden “Verde” − troçou Clarisse. − Deveras estranho. Afinal, da última vez que consultei a Bíblia, era um anjo com uma espada de fogo que guardava a sua entrada.
− Trocou-a por uma metralhada e aprendeu a delegar a guarda do local − reclamou Maxwell. − Vocês sabem os dias de férias que estou a queimar para estar aqui? Vamos ou não?

This post has been edited by Daemonfey on Jun 5 2006, 10:36 AM
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Snipper Lundur
Posted: Jun 5 2006, 01:50 AM


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Ortografia:

detector Geiger

− De bom grado pagarei, mas só de

Num jogo privados, os



Resto:

Acho que a qualidade baixou um bocado. Pela necessidade de contar a história, os personagens estão a desbobinar de uma forma que não parece muito natural. Não que esteja artificial, pelo contrário, o fio da conversa faz bastante sentido, mas no que toca a quando se riem, e a forma como reagem uns aos outros - penso que isso pode ser melhorado. Ficou sem ser explicado como é que o programa de fotos de satélite não mostra aquilo a toda a gente, e isso fica um pouco inverossímil. Talvez se pusesses aqui um "factor cunha" - um dos cientistas, por conhecer muita gente, sabe de um programa muito independente, restrito, fora das mãos do estado, blá blá.

Fora isto, continua.
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Daemonfey
Posted: Jun 5 2006, 09:06 AM


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Vou ter de confessar uma coisa: seja nisto seja nos meus trabalhos mainstream, tenho sempre o mesmo problema: os meus dedos não escrevem rápido o suficiente para acompanhar a minha mente! O resultado? Para além dos erros apontados pelo Snipper, acontece que na parte dos satelites esquice-me de... uma frase inteira.

Acontece que por pontaria, as coisas que penso que escrevi, na sua ausência afectam seriamente a compreensão do texto.

Vou actualizar.

P.S: Quanto ao progama de fotos de satélite, tirar conclusões só por lá era a mesma coisa que dizer que não precisas de ir a um sítio porque já o viste no Google Earth. Mais uma vez, aquela frase que faltava arruinou isso.

This post has been edited by Daemonfey on Jun 5 2006, 09:09 AM
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17th_angel
Posted: Jun 5 2006, 11:29 AM


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Continua na mesma onda de "weirdness". Tenho de ler mais qualquer coisa para saber se gosto se não....
Ainda assim a forma como eles encontram o sítio realmente é pouco credível, porque outros, se soubessem também desse "mito urbano" conseguiriam encontrar esse local. Tendo em conta q outros jornalistas, físiscos e antropólogos desejosos de avançar na carreira também tantariam explorar esse mito.

Agora diz lá daemonfey, esses três vão-se infiltrar no que parece ser um complexo militar? :P
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Daemonfey
Posted: Jun 5 2006, 11:44 AM


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Bem, decerto que não são os únicos. Mas decerto que desta vez é a chance deles e este local, certo ou não é onde eles vão tentar a sua sorte. É como eles dão os exemplos: durante decádas diferentes grupos procuraram ovnis, o grail, homenzinhos verdes, conspirações e sociedades secretas. A última moda, é a Cerca. Contudo, aquela é a CERCA deles :P

Com todas as conotações possíveis.

Quanto à tua pergunta... acho que agora já podes responder.

This post has been edited by Daemonfey on Jun 5 2006, 11:46 AM
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umbrae
Posted: Jun 5 2006, 12:44 PM


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Comento agora, vou ser sincero, que fiquei às moscas com o primeiro texto.

Gosto muito das descrições que fazes, refrescantes, ou seja diferentes da média.
Um problema que encontro no texto é a passagem piada/assunto sério. Demasiado repentino, não surgem sequelas da piada como normalmente acontece na vida real.

O outro problemas, mas esse não sei resolver porque tenho o mesmo, é, como dizia o Snipper, a torrente de informação. é sempre dificl dar uma grande quantidade de informação entre amigos que já se conhecem sem soar a falso. Normalmente os escritores resolvem isso inserindo uma personagem estranha ao contexto que não sabe de nada e anda a aprender.

Aina não percebi muito bem a intenção dos professores. Sim, percebi que querem ir á Cerca, mas o porque não sei bem.
É preciso ter um grande amor à ciencia para entrar num sitio altamente guardado só pela curiosidade. Seria normal estudarem-na primeira de fora ( registos, impostos, relatos, documentos, etc...).

No primeiro texto, gostei da ligação rádio policia. E quando falaste do Caminho da Serpente fiquei com outra ideia, mas isso é a minha face amante de Pessoa.

Vais falar como eles se conheceram e ficaram com o mesmo assunto em mente?

This post has been edited by umbrae on Jun 6 2006, 02:09 PM
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Daemonfey
Posted: Jun 5 2006, 01:34 PM


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O nome Caminho da Serpente não foi dado sem ter o Mestre em conta.

Depois, concordo com muito do que dizes. Contudo,nem toda a gente gosta de dar seguimento às piadas, muitas vezes elas permanecem unilaterais.

Também não gosto da ideia da torrente de informações. Mas a primeira parte é compacta, uma introdução rápida que acabou por ter quatro páginas. Os motivos devem ser vagos: tal também faz parte da viagem.
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Daemonfey
Posted: Jun 5 2006, 02:21 PM


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Ainda mais em bruto, decidi por isto rapidamente porque estou a ver o pessoal a apanhá-las do ar. Não desesperem... por mais abstracto o sentido, a regra de ouro dos meus escritos é que só ficam bons na Parte III. Como dizem no gato... o próximo é que parece que está giro.

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Parte II: Magias

Onde se dá uma lição sobre a evolução da masculinidade e onde se descobre que cassetes de vídeo não servem apenas para perseguir bruxas e que nem todos os magos deixam estradas de neutrões amarelos.



Um estranho monstro de cinco pernas e uma estática tromba deambulava pela floresta, apressado com a respiração discordante de três pessoas. Com um bramido de dor ou de antecipação, essa quimera aproximou-se duma árvore mais forte, aplicando sobre esta o seu peso.
Sombras dissolvidas, restavam apenas Lucian e Clarisse, encostando Maxwell contra a árvore. Este suava em bica, abrindo a boca como para exprimir alguma maldição. Mas nada saía. Nervosa, Clarisse baixou-se, estudando o rasgão nas jeans do companheiro.
− Para de olhar! Faz alguma coisa! − pediu finalmente Maxwell, parando para apertar os dentes.
Estranhamente obediente, Clarisse começou a procurar na mochila do físico por equipamento de primeiros socorros. Mais célere, Lucian já brandia um frasco de água oxigenada, com a qual regou animadamente a perna do físico.
− Aiiiiiii! − gritou Maxwell, dobrando-se sobre a barriga e quase escorregando fora da segurança da árvore. − Estás doido? Já não chega o estúpido do guarda a disparar sobre nós, ainda tu me tentas matar.
− Desculpa… − pediu Lucian, abanando a garrafa vazia com um ar atarantado. − Sabes bem como sou nestas situações… nunca sei o que fazer.
− Então afasta-te e fica quieto. Deixa-me morrer em paz.
Já devidamente preparada, a jornalista regressou. Ajoelhando-se defronte do homem, aumentou-lhe o rasgão. Começou imediatamente a limpar o sangue.
− Está quieto − ordenou.
Contudo, apesar de todo o esforço aparentemente mantido por Maxwell, estampado na sua cara que ele perdia um combate contra o sofrimento. Tremia por todos os lados, parecendo recear os cuidados de Clarisse. Tentando parecer apaziguadora, esta ergueu os olhos, concentrando a pouca compaixão que tinha no seu ser naquele momento…
Aparentemente, não foi isso que Maxwell leu.
− Podes tirar esse olhar de desprezo, mulher! Eu sou um homem moderno, não tenho nenhum problema em mostrar os meus sentimentos… − soltou o físico, numa tentativa patética de ser suavemente duro. − Eu não te disse para parares de olhar assim para mim?
De facto, o olhar de Clarisse tinha-se tornado assustador.
− Por favor Maxwell, foi de raspão. Pouco mais te rasgou do que as calças. Deplorável. Pareces uma criança…
− Eu não sabia! − desculpou-se Maxwell, fazendo menção de se levantar, que aparentemente se vira curado das dores. Crítica feminina, a melhor panaceia.
Lucian sorria, apaziguado consigo mesmo. Permitiu-se ser jocoso.
− Diz-me, isso da sensibilidade sentimental dá resultados? Deve dar um jeito desgraçado para os encontros − parou, pensativo. − Desculpa, mas quando foi o teu último encontro?
− Genebra, ano passado. E tive sorte…
Clarisse revirou os olhos.
− Ainda bem que estão todos animados e saudáveis. Agora podemos ir? Vamos ter poucas horas de luz.
Maxwell olhou para o seu relógio, concentrando-se do mostrador digital. Preso ainda no seu fuso horário marcava as duas da manhã. Enquanto suspirava ao pensar no jet lag, Lucian constatava a ironia presente nas horas de luz. As nuvens que cobriam o céu eram terrivelmente escuras, carregando claramente água e maus auspícios.
− Não podíamos ter vindo noutro dia?
Distraidamente, Clarisse começou a retirar as hastes necessárias a edificação da sua tenda. Interrompeu a mecanização da tarefa para estudar a carta celeste. Num esgar de desdém, respondeu ao antropólogo.
− Aqui todos os dias são assim. Por isso mesmo vos disse para embalarem impermeáveis. E recomendo-te que escavas em redor da tua tenda para impedir que esta se encha de água. Tenho uma pá que te posso emprestar.
Sem mais palavras, ambos se dedicaram ao seu silêncio interior, despertando para monótonas tarefas. Mais experiente em assuntos campestres, Clarisse terminou de montar a tenda. Pôs-se a remexer entre artefactos do quotidiano, recuperando uma máquina de filmar. Mordiscando num barra energética, carregou energeticamente no Play, revendo uma torrente de relatos, na eslava e confusa língua local.
Largando o seu abrigo, Maxwell aproximou-se de Clarisse, curioso. No minúsculo visor via-se uma figura delgada e de peles enrugadas, uma mulher que certamente passava dos oitenta. A sua cara mostrava surpresa e um certo grau de confusão.
− Não percebo nada do que ela está a dizer.
− Então escolhe, tenho relatos de todos os cantos do mundo. Em inglês, alemão, mandarim, russo, espanhol, português, francês… escolhe a língua − revelou ela, animada. − Tenho cartões de memória com o equivalente a dezassete horas de filme.
Pasmado, Maxwell enfrentou Lucian, que sem esperar pela pergunta, esclareceu as dúvidas do amigo.
− Sim, nós estamos nisto faz muito tempo. Tenho uns quantos livros sobre o assunto. Se quiseres que tos empreste… − ofereceu.
Incrédulo, o físico abriu a boca para reclamar.
− Obrigado pela tua oferta, mas acho que nesta altura do campeonato é supérfluo. E eu que pensava que só vinha procurar derrames de produtos tóxicos ou alguma leitura estranha. Vocês estão aí com motivações maiores que o sentido da vida e eu vim preparado apenas para uma lixeira radioactiva.
Clarisse fechou a câmara, decidida a poupar baterias.
− Por falar em radiação, como vão as leituras? − perguntou.
− Normais − confirmou mais uma vez o físico. − Embora ainda não tenha testado o solo e a atmosfera para eventuais traços de contaminação química. É melhor não nos afastarmos muito da saída.
− Certeza? − questionou Lucian, desenrolando o saco-cama. − Não quero ser chato, mas os teus critérios de normalidade tendem a ser um pouco distorcidos.
Enervado, Maxwell ergueu o contador.
− É a mesma coisa que detectei lá fora. Não, não vai ser isto que nos vai matar. Por amor de Cristo, é um punhado de neutrões. Só nos vai afectar caso tu decidas construir aqui uma casa…
− A vista é bonita, mas já se sente os cheiros dos pântanos. E os vizinhos deixam muito a desejar − observou Clarisse, voltando a pegar na máquina de filmar, passando o dedo delicadamente pela objectiva enquanto fechava os olhos. − Hum…
O típico sinal de perigo. A jornalista estava e pensar.
− O que foi, Clarisse? − quis saber Maxwell
Não sei porquê mas não consigo deixar de pensar no Blair Witch… uma rapariga com dois rapazes jeitosos. Que desperdício de filme. Poderiam ter-se ficado pelas filmagens dos quartos…


This post has been edited by Daemonfey on Jun 6 2006, 12:17 AM
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Snipper Lundur
Posted: Jun 5 2006, 05:26 PM


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De estar perder uma batalha contra o sofrimento a "olha, afinal foi só de rasgão, estou bem" e ir imediatamente montar uma tenda, esquece, completamente mal.

Num complexo secreto altamente guardado por militares, onde eles são vistos e inclusivamente baleados, é no mínimo estranho como tenham conseguido fugir com uma perna a menos, como não estejam a ser procurados as they speak (pelo que escreves dá a sensação de que estão acampados do lado de dentro), se fossem dados como meros curiosos - justificação para não estarem a ser procurados - presumo que a intimidação devesse ter sido com balas falsas, e cães? Cães, não há cães?

Dos 3 é o pior. Embora goste daquela última reflexão (mas escreve-se Blair Witch). Mesmo que o próximo é que vá ser giro, aconselho-te a reveres isto.
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Daemonfey
Posted: Jun 5 2006, 06:37 PM


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Bem, no primeiro ponto sou capaz de te dar razão.

Contudo, discordo completamente no segundo. Em nenhum lado foi dito que aquilo era um complexo militar. Talvez o início do terceiro te lance alguma luz sobre esse ponto. E claro que há cães e balas e G3. Lá fora. Como tu bem apontaste, eles estão lá dentro.
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Daemonfey
Posted: Jun 5 2006, 08:01 PM


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Parte III: Hemoglobina

Onde bosque cede a paul e onde uma curiosa espécie de sanguessugas ameaça desviar caminhos...



O dia surgiu tão lentamente como tinha surgido, anunciado mais pelo orvalho do que por celestial iluminação. Temerosa, Clarisse tentava evitar todo o contacto com a água da Cerca, ainda mais que todos os testes de Maxwell se revelavam inconclusivos. Sorvia com pouca delicadeza cada gota que restava na sua garrafa de plástico. Longe de satisfeita mas decidida a poupar, lambeu furiosamente o lábio inferior.
Lucian aproximou-se, de binóculos em volta do pescoço e barba por fazer. Contudo, também os seus olhos deprimidos eram um auspício de más novas.
− Eles parecem não querer entrar… − explicou. − Andam de um lado para o outro com os rádios e os cães, mas parecem estar mais interessados em afastar-se do local do que em nos apanhar. Devemos estar certos, esta é de facto a Cerca.
− E conseguimos sair? − perguntou a jornalista.
− Eles ainda não repararam a fenda?
− Até dela parecem ter medo.
Numa silenciosa troca de olhares, os dois começaram a duvidar a sabedoria das suas acções. Mesmo com todo o planeamento, com a busca de anos, a Cerca assomava-se deles sobre uma forma extremamente desinspirada. Se até militares, homens duros e treinados temiam aquele local, que esperança podiam eles ter, estudantes do Homem?
− Deveríamos contar a Maxwell? Os nossos motivos?
Lucian olhou para o físico adormecido.
− Não vejo razão para o fazer − admitiu. − Ele não compreenderia.
A jornalista suspirou.
Começava a perder coragem. A única fé que mantinha.
Em si mesma.
− Podemos sempre voltar para trás?
Apesar de soar como uma pergunta, o palato era o de uma declaração exclamativa, de um figmento de força e um fingimento de cobardia. Atarantado pelo híbrido, Lucian demorou a elaborar uma resposta.
− Bem, os caminhos da liberdade não são infinitos? Eventualmente teremos uma chance para escapar, vai haver uma altura em que vão abandonar a vigia. A parte mais difícil foi entrar e isso já foi feito. Isto é um limiar. Na Cerca guarda nenhum pode passar.
− Não comeces a acreditar em todas as lendas que ouves, senão em todas as lendas que ouves vais acreditar − sussurrou Clarisse. − Ainda me custa acreditar no que fizemos, os riscos que corríamos se esta não fosse a Cerca. Foi algo louco demais, até para nós. E se tivéssemos errados, já viste em que alhada estaríamos, com militares que não hesitariam em nos perseguir?
− Esta é a nossa Cerca − concluiu Lucian, encostando-se à árvore mais próxima, um exemplar mirrado e frágil. − Isso é o quão errados podemos estar.
Estupefacta, a jornalista quase deu um berro.
− Que merda de resposta é essa? Para de falar como um astrólogo, Professor Bambé. Toca é descobrir o que assusta tanto o mundo, o que tem de ser guardado com tanto sigilo…
Apercebeu-se então que Maxwell a observava, claramente acordado pelo seu berro. Sem trocarem palavras, procederam a arrumar as suas coisas. Por alguma razão estranha, nenhum telemóvel parecia apanhar sinal, nenhum GPS parecia responder. Todos estavam prestes a desistir, mas engoliam ao máximo as palavras, tentando não deitar abaixo a determinação comum.
Nesse momento o maior pilar de força era a silenciosa concordância.
Também em silêncio, seguiram caminho para o interior da Cerca, cães e sirenes formando uma curiosa banda sonora. Mas naquele mundo interior, naquela ferida sem crosta, naquela terra sem terra, o sono para lá da Cerca parecia chegar distorcido, assassinado em sonhos por branca almofada.
Mais avançavam, mais o universo definhava. As árvores, enraizadas num solo empobrecido, aproximavam-se à terra, como infantes regressando ao berço. Mas cada vez mais inseguro, esse berço, essa terra, lutava para não se tornar água, perdendo o combate em lodaçais e deprimentes poços.
“Ainda bem que estão a vigiar a Cerca.” Pensou Lucien. “Preciso de todos os incentivos para continuar esta expedição infernal. Quem diria, que para descobrir o Homem tenho que me afastar do Homem…”
Paul estavam, paul eram.
Ainda agarrada à garrafa de plástico, Clarisse pensou em libertar-se dela. Mas esta parecia exercer sobre ela um fascínio pessoal, um elo de ligação com o mundo exterior palpável e funcional. Poderia mandá-la para um dos charcos, borbulhante de gás dos pântanos.
Um pouco mais de corrupção no pior dos lugares?
No pior dos tempos?
Mas mesmo assim hesitava. O ser humano parecia ter deixado aquele local impuramente puro, intocável memorial de caos e natural civilização. Ordem estranha mantinha a Cerca. Qual prisão, qual laboratório, qual nave espacial caída. As vozes, as faces aprisionadas na sua máquina fotográfica, todas elas mentiam. Nenhuma delas sabia o que a Cerca.
Nas suas mentes era tudo o que temiam…
E tudo o que invejassem. Desejassem.
Clarisse saiu dos seus pensamentos para ver os dois olhos a conversarem, hesitantes frente a um pequeno lago. Ladeado por juncos pobres, entre infinitas algas, moscas velavam para manter uma eternidade que não podia existir. Algures nessa segurança, um sapo coaxou.
− O que se passa? Porque é que paramos?
− O lago. É pouco profundo − apontou Maxwell, mostrando um pequeno pau coberto de lodo apenas até metade. Não vai ser nada agradável, mas provavelmente é melhor do que darmos a volta. Que dizes?
− Vamos! − exclamou, tentando afastar a sua própria relutância.
Olhou para as suas calças, receando molha-las. Erradamente, começou a subi-las até aos joelhos. Apertando melhor as alças da mochila, respirou fundo e preparou-se para iniciar a travessia.
A água estava quente. Não acolhedora como o útero materno, mas tépida e abafada, fruto de estagnadas correntes. Águas ásperas e temperamentais, impróprias para gerar vida superior, mas fervilhantes de toda a escória da existência.
Ao menos não viviam lá crocodilos.
Movimentando-se com problema, conseguiram mesmo assim avançar. Resistindo ao abraço que tentava prolongar-se para cima dos joelhos…
Mas algo foi despertado, respondendo à sua natural confiança.
O universo vibrou em resposta.
Na dianteira, Clarisse começou a sentir-se estranhamente fraca. Continuava a caminhar, mas de braços caídos e um estúpido sorriso estampado no rosto. As vozes dos companheiros distantes. O resultado das coisas parecia tão óbvio.
Foi então que as águas revolveram-se e ela afundou-se, sem resistir. Sentiu milhares de mordidelas, o seu sangue a ser retirado por uma sucção infinita. Pálida e respirando a custo, aceitou de bom grado as mãos dos seus companheiros. Assim que recuperou pé, correu para a margem, tentando em vão retirar as gordas sanguessugas que a tinham tomado como hospedeira.
Puxava, puxava, mas não saiam.
Subiu para terra mais estável, seguida de perto por Lucian e por Maxwell. Estes olhavam para ela com um olhar inquiridor.
− O que se passa, Clarisse?
− As sanguessugas! − queixou-se ela, coçando-se furiosamente, olhando extasiada para os companheiros.
Aparvalhados, Maxwell foi o único que respondeu.
− Não tens nada sobre ti…
Foi então que a jornalista notou que afastava o vazio. Sacudindo a roupa, escutou uma mistura de sons, uns metálicos e outros que não soube reconhecer. Ainda tremendo do susto, que agora culpava aos gases do pântano, estudou o chão.
Abismada, estudou o que encontrou.
Um Faravahar de prata, um crucifixo de bronze, um touro de ouro, uma caveira de pedra, um rosário de osso, um taijitu de madeira, um crescente de jade, uma estrela de David cosida em pano, um Buda de cobre e até uma pedra com um Aum.
Todos remexendo-se no chão, vomitando sangue roubado.
Sagrado consumado.


This post has been edited by Daemonfey on Jun 6 2006, 12:16 AM
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