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 Antes do Cair da Noite, Novo Projecto
17th_angel
Posted: May 6 2007, 12:57 AM


Escritor sem editora


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Leiam e comentem se puderem. Ainda está mesmo no princípio(e portanto é tudo muito provisório), é algo diferente da Promethèa, mais em termos de escrita do que temas mas pronto...E sim, eu dou quase sempre os mesmos nomes a personagens minhas :P

Prólogo



Nathaniel levantou-se da cadeira e dirigiu-se de encontro ao massivo rectângulo de vidro, incrustado na parede. Voltou o rosto para observar o ecrã, no canto da divisão. Aí, vários caracteres estavam expostos.
Baixou, de forma discreta, o seu semblante. Naquela posição assemelhava-se a um objectivo inanimado, sustido apenas pelo pescoço. O homem inspirou fundo:
- Deus, o que é que eu fui fazer? – deixou escapar, como se de um gemido se tratasse.
Sentiu o toque da mão do seu companheiro por detrás de si. A suave pressão exercida em redor do ombro direito tentava transmitir conforto. Compreensão.
- História, meu amigo – a voz envelhecida sussurrava-lhe ao ouvido. – Todos nós, cada qual com o seu contributo fizemos História. Saltámos do precipício do conhecimento humano prévio e atirámo-nos de cabeça para grande desconhecido.
O homem de bata voltou a atenção na direcção dos dados exibidos no monitor. Depois, prosseguiu o seu discurso:
- E sabes qual foi a recompensa pela nossa ousadia? – o entusiasmo subjacente às palavras do seu interlocutor deixavam Nathaniel pouco à-vontade. – A imortalidade! Os nossos nomes serão recordados pelas gerações vindouras. Encontrámos a resposta necessária aos problemas com que o mundo se debate!
Por fim, o elemento final do triunvirato de homens de ciência, responsáveis pelo projecto Pandora, afastou-se do centro da divisão. Percorreu a vertente esquerda da mesa de conferências e, também ele, se acercou do ecrã.
- Alternar, gráfico 2 – ordenou ao computador central.
Era difícil estimar a sua idade, devido à abundante barba que lhe proliferava pelo rosto. As suas feições mais marcantes esbatiam-se atrás da barreira, propositadamente, criada. Mesmo Nathaniel e Ismael, desconheciam quantos anos ele teria, ao certo. Contudo, se tivessem de adivinhar, apostariam que ele se encontrava na casa dos cinquentas. Certas coisas, como o olhar, são impossíveis de se resguardar dos outros.
- Ele tem razão Nathaniel. Subestimas aquilo que nós alcançámos aqui. O verdadeiro potencial do ser humano, só será despertado, de facto, connosco. – o seu braço agitou-se no ar, quase tocando na imagem da espiral helicoidal dupla, em perpétuo movimento. Mas a tridimensionalidade não passava de uma ilusão de óptica. Aperfeiçoada pela tecnologia holográfica incorporada no monitor. – Nós dominámos, finalmente, o poder do genoma.
Nathaniel concentrou-se no rectângulo vítreo. Pouco tempo depois virou-se, para enfrentar os seus companheiros, frente a frente. Vislumbrou a expressão confusa de Ismael e a resolução patente nas feições de Gaghiel. Nesse instante, tomou consciência que nenhum dos dois tivera, alguma vez, as dúvidas, agora manifestadas por si. Falhou em estabelecer contacto visual com qualquer um deles.
Em vez disso desviou o olhar para a mesa central. Na sua extensa superfície marmórea, a luz emitida pelas lâmpadas embutidas no tecto, era reflectida, com grande pormenor. Naquela ocasião, o brilho parecia-lhe ainda mais intenso. A peça de mobiliário possuía dimensões desproporcionais às meras quatro cadeiras, dispostas pelos pontos cardinais. Alguém não tinha olhado a despesas.
- Eu sei da importância que o nosso trabalho tem. Mas, por vezes, questiono-me sobre aquilo que precisámos de fazer, por forma a atingir os resultados pretendidos.
Gaghiel aproximou-se dele. De novo tentou reconfortá-lo. Desta vez o seu braço envolveu ambos os ombros de Nathaniel num amplexo apertado.
- Lutámos por isto, juntos durante, quantos anos? Onze, doze anos? Agora chegámos à fase terminal. É normal teres receios – havia algo em relação a toda àquela conversa que começava a irritar Nathaniel. – Todos nós duvidamos de nós próprios ou daquilo que fazemos nalgum ponto da nossa vida – mentira, tinha-o lido nas expressões de ambos. Gahiel e Ismael nunca tinham duvidado do projecto Pandora. Não da forma como ele o havia feito, pelo menos.
- Mas podes estar seguro. Este projecto é algo de que te deves orgulhar – tornara-se óbvio o tom condescendente e paternalista de Gaghiel. Fora esse o motivo da sua cólera. Embora ele fosse mais velho, os três eram colegas de trabalho. Cientistas. O que o fazia presumir que toda a razão teria de estar sempre do lado dele?
Resolveu encarar Ghagiel, de frente. Talvez fosse tarde demais para expor as reservas que possuía em relação a toda a investigação. Esta já estava demasiado avançada, desistir, naquele ponto, era irrelevante. Ghagiel e Ismael sozinhos, acabá-la-iam.
- Eu não estou a refutar isso – meteu ambas as mãos nos bolsos. A bata branca pesava-lhe nos ombros. – O que me preocupa é o preço a pagar em nome dos objectivos cumpridos.
A última frase veio em tom de desafio. O brilho nos olhos de Gaghiel alterou-se. De compreensão, as suas feições passaram à fúria, em escassos segundos. Dissolveu o enlace que o ligava a Nathaniel, de forma a poder afastar-se dele. Ismael continuou a contemplar, vagamente, o ecrã.
- O preço?! – vociferou, exaltado. – O preço pago pela realização do projecto Pandora não é nada comparado aos benefícios que ele trará. Mas em que planeta é que tu estás a viver? Tens de acordar para a realidade. Cheirar o café! – Nathaniel encontrava-se abismado. Era isso que o assustava no seu colega. A cobaia nunca significara nada para ele. Era apenas um animal. Menos que isso. Puro lixo. Ismael também partilhava essa perspectiva, porventura seria menos radical, mas o princípio basilar não mudava.
- Alternar, sintonizar CNBC – proferiu Ismael.
Num segundo a imagem da espiral de ADN desvaneceu-se. No lugar desta surgiu o logótipo da estação de televisão, no canto superior esquerdo. Logo, toda a face do monitor se iluminou, com as imagens de um famoso pivot. A transmitir, em directo, de alguma localização árida do globo.
- Poupa-nos aos teus laivos de moralista. Pagá-lo-ia duzentas vezes se isso significasse ter em minha posse o conhecimento que nós obtivemos!
“ Neste que é o terceiro pior atentado terrorista desde que as guerras do Médio Oriente começaram, 33 soldados do Corpo Aliado Internacional morreram e 245 ficaram feridos. A sede provisória do governo libertado de Teerão ficou completamente destruída”.
- Sabes tão bem, ou melhor que eu, que no nosso campo não existem certos ou errados absolutos – a emissão continuava, em pano de fundo, ao diálogo entre os dois. Imagens de violência explícita sucediam-se numa crescente espiral voyeurista. O relato dos acontecimentos prosseguia. – Se tentares julgar o nosso trabalho por esses parâmetros enlouquecerás. Nós sempre nos movemos nas areias movediças das tonalidades cinzentas.
“ O Presidente dos E.U.A. já reagiu a este ataque, apelidando-o, e estou a citar, de: acto bárbaro e cruel. Executado por pessoas desesperadas por saberem que, em breve, a democracia instalar-se-á em todo o Médio Oriente. Rumores continuam a circular quanto ao envolvimento da Rússia e China no apoio logístico a estas facções terroristas”.
- Além do mais Nathaniel – prosseguiu o mentor do projecto. - Tu foste informado daquilo que seria exigido de ti. Tinhas plena consciência de onde te estavas a meter. É demasiado tarde para te fazeres de vítima.
Ismael anuiu.
Nathaniel colocou as mãos sobre a cabeça. – Eu sei disso. Eu sei disso tudo! – gritou, exasperado. – Não compreendes Gaghiel? – voltou-se, de encontro a Ismael. – Não compreendes Ismael? A vítima não sou eu. É ele – terminou, apontando para o rectângulo vítreo. – Tudo aquilo que nós lhe fizemos…
“ Desde o começo da guerra, há quase nove meses, as forças do Corpo Aliado Internacional já sofreram vinte mil baixas. A maior parte dos soldados mortos provém dos E.U.A., seguido, de perto, pelo Reino Unido e França. Espanha e Grécia assinaram hoje o tratado para a sua inclusão na Aliança Internacional. Juntando-se, assim, à maior parte dos seus congéneres europeus”.
- Alternar, gráfico 2 – o computador cedo acedeu ao pedido de Ismael. Era agora ele quem confrontava Nathaniel. – Não sejas hipócrita. Tal como nós sabias aquilo que teria de ser feito. Aceitaste as condições impostas e agiste em conformidade com isso. Pudemos parar o derrame de sangue causado pela guerra. Graças a Pandora temos a chave para a arma mais formidável de sempre! Se quisesses realmente impedir-nos terias agido há muito tempo atrás.
Eles tinham razão, Nathaniel sabia-o. O argumento de que as necessidades da maioria superavam as da minoria, era racional. Ainda para mais, sendo aquela minoria, em específico, constituída por um único elemento. Ele tentava convencer-se da justeza e sanidade de tal posição. Porém, não conseguia.
Nada mais fácil para um bioquímico ou para um geneticista, cujo fugaz contacto com o paciente ocorrera apenas durante os meses do internato, teorizarem sobre a prioratização do sofrimento. Quanto a si? A voz dentro do seu espírito ainda gritava “ Primeiro, não fazer mal”.
Havia traído o juramento mais sagrado da sua classe. De novo, a bata e o estetoscópio lhe pesaram sobre os ombros. Olhou através do estrado de vidro, vislumbrando a sala adjacente ao qual ele dava acesso. Não respondeu às restantes interjeições de Gaghiel e Ismael. O seu silêncio falou volumes.
Até mesmo a inacção acarretava consigo consequências inevitáveis.


A divisão encontrava-se submersa num ambiente crepuscular. Ele só conseguia entrever dois ténues focos luminosos, proporcionados pelo par de lâmpadas compridas, enclausuradas na gaiola de plástico opaco. E o brilho do aparelho de televisão, colocado acima de si. Tudo o resto lhe pareciam trevas.
No centro daquele espaço surgia a singular cama de hospital. A partir dela despontavam várias amarras, ligando-se a partes específicas do seu corpo. Torso, braços e pernas permaneciam de tal forma presos que, qualquer movimento, mais brusco, se tornava excruciante.
Ele desconhecia há quanto tempo estaria ali. Tinha-se esquecido. Passado, presente e futuro já nada significavam para si. Naquele lugar tais palavras não possuíam razão de existir, estavam desprovidas de todo o sentido, nunca se derramando no seu mundo. Viver para o momento, isso era tudo o que lhe sobrara. Embora este se revelasse ingrato. Tentava erguer os braços e pernas, nos acessos de fúria que, ocasionalmente, se apoderavam do seu corpo. O homem tinha plena consciência que as amarras nunca cederiam. Mas, pelo menos, a dor sentida através do esfolar da pele indicava-lhe que ainda estava vivo. Só o fluir do sangue o reassegurava disso.
Era difícil não ensandecer. Apenas a televisão lhe proporcionava alguma companhia. O único escape da neblina de incertezas que o rodeava. No entanto, o pior de tudo não era o suplício da sua condição. O que o atormentava mais, nas raras ocasiões em que permitia ao sofrimento jorrar da sua alma, era o facto de não ser capaz de se lembrar da sua vida anterior.
Desconhecia o próprio nome, se tivera colegas, amigos ou família. Haviam-no privado da memória de recentes ou antigas paixões, dos rostos de amantes pelos quais se pudesse desesperar. Algo tão precioso cuja perda o obrigasse a chorar. As lágrimas nunca vieram. Ele tinha-se perdido a se mesmo.
Assim, na sequência inesgotável da passagem de horas, o homem procurava por formas de se entreter, para além da linearidade das histórias apresentadas no ecrã de televisão. Dentro da sua mente ele viajava aos sítios que sempre quis visitar. As grandes metrópoles do mundo: Nova Iorque, Madrid, Londres e outras tantas. Imaginava-se a passear ao longo das margens do Sena. Nas ruas movimentadas de uma cidade oriental. O vento a soprar-lhe gentilmente no rosto, o sol a aquecer-lhe o corpo.
Fingia manter conversas animadas com algumas das personalidades mais interessantes do globo. Inventava família, amigos, colegas, uma vida real. Tudo aquilo que ele não possuía. Ansiava, no seu cerne, por contacto humano de qualquer espécie. Porém, à medida que o tempo foi avançando até este refúgio lhe ia sendo, pouco a pouco, negado. Sem nunca parar, ou sequer abrandar, a linha intravenosa central despejava, na sua corrente sanguínea, uma parafernália de medicamentos.
Os sinais eram evidentes, mesmo para alguém tão debilitado como ele. O indivíduo confinado à cama sentia-se a mudar. As suas entranhas fervilhavam e a capacidade de concentração diminuía de forma drástica. Os diálogos e viagens imaginárias tornavam-se cada vez mais indistintas, mais indefinidas. E o que sobrou, no seu lugar, foi uma cacofonia de ecos que se repercutiam no cérebro.
Alguma coisa estava a acontecer, as visitas dos três homens de batas tornaram-se diárias. Gritara-lhes para acabarem com aquilo. Sentia-se agoniado, em dor, mas o silêncio deles não se modificara. Dias deram lugar a noites e o ciclo repetir-se-ia incontáveis vezes. A tríade de homens de ciência ignorava e destroçava, por completo, a primeira regra do juramento Hipocrático.
E, no centro de tudo, o homem. A perfeita imagem da solidão. Vinculado à cama, com tubos a violentar o seu corpo. Rezando pela chegada da morte antes que a tortura o despojasse dos últimos traços de humanidade. Então, num dia, ou numa noite, pois ele permanecia no eterno estado intermédio, o destino sorriu-lhe.
Noutra das comuns visitas de Gaghiel, Ismael e Nathaniel, algo de inesperado aconteceu. O bioquímico e o geneticista separaram-se, por momentos, do médico. Ocupados a registarem a informação dos vários instrumentos que registavam os dados vitais do homem prostrado na cama. Todavia, enquanto isso, Nathaniel aproximou-se dele, vislumbrando-o num momento de compaixão. E, na primeira manifestação de genuíno arrependimento tocou-lhe no braço. Murmurando um quase imperceptível:
- Lamento.
O breve instante de contacto, entre si e outro ser humano, despertou nele alguma coisa intensa. A sensação cristalizar-se-ia no tempo e ele viu a alma do médico. Juntou os farrapos de memória de Nathaniel. Organizou-os numa estrutura perceptível, deslindado o novelo da sua vida. Ao fazê-lo viu-o pelo que ele realmente era, por aquilo que ele tinha feito e, nessa acção, descobriu, por fim, a sua própria identidade.
Surpreendendo a tríade de cientistas, o grito do homem acamado ecoou por toda a divisão. Toda sua fúria foi libertada. Haviam-lhe roubado tanto… Dotado de poderes a que humano deveria ter acesso, ele permitiu aos seus sentimentos extravasarem para a realidade. A divisão exígua rebentou, então, num mar de chamas.
Solitária, uma silhueta ergueu-se, por fim, no meio daquele inferno. Incólume. Ele sorriu. Pelo menos tinham-lhe dado algo pelo qual viver.
Vingança.

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