O Caminho da Serpente
| Daemonfey |
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O fim. Em bruto, para variar.
Parte VII: A Montanha do Adormecido
Onde um colapso invulgar desvenda as sombras que guia cegamente os sonhos da humanidade. Onde se apreende o preço de reacordar um passado nunca morto, muito menos passado.
Maxwell decidiu não contar nada aos seus companheiros, acordando no dia seguinte como se nada tivesse acontecido. A sua mente ainda tentava assimilar o que tinha acontecido naquele local, naquele jardim das oliveiras. Teria sido uma alucinação? Efeito da estranha contaminação do local? Alguma doença esquisita? Ou seria como o antropólogo e a jornalista diziam… Uma maleita espiritual? Impossível. − Hoje vamos à montanha − sugeriu Lucian, arrumando apressadamente o equipamento, tamanha era a sua ansiedade. − Demasiado excitado, não? − constatou o físico, apressando-se ajudá-lo, ignorando as suas dores. As costas doíam-lhe, ressentindo a falta do conforto da civilização. − Contudo, insisto que deviamos explorar a cidade mais um pouco. O que é que tenha acontecido, deve haver por aqui algo a informar-nos da situação. Algum jornal, algum relatório… A jornalista, até ali silenciosa, fez-se ouvir. − A história vive-se, não se pilha… Surpreendido, o físico retaliou. − Pensava que tu dizias que as histórias fazem-se… − Exacto. Vivem-se. Sem mais discussão, levantaram acampamento. Percorreram as ruas da cidade, caóticas linhas de geométrica ordem, perdidas no tempo e sem o minímo de alento. A qualquer momento, poderia surgir uma pessoa, um refugiado, sobrevivente impossível. Mas continuava tudo vago, cinzento e castanho. Vazio. Um monumento onde tudo era estrangeiro. Ao princípio estranharam a ausência de animais, mas agora começavam a achar esse facto natural. Se a Cerca, um local tão humano chegava a ser estranho para eles, quão alienígena deveria parecer às vulgares e simples criaturas daquela Gaia conspurcada. Saíram da aldeia em ruínas, arriscando-se a penetrar por um caminho de cabras. A atmosfera negra da Cerca pareceu alterar-se suavemente, trazendo um véu de nevoeiro que abraçou a terra, emulando encontro com uma cálida noiva. Cada vez mais denso, enrolando-se entre as novamente reanimadas árvores que decoravam o caminho. Fios que formavam novelos de visco etéreo. Não estava frio, não estava calor. E a depressão que os invadia parecia ser apenas uma ferramenta de esperanças perdidas… Por fim chegaram à montanha, o seu cume uma feia cicatriz nos céus, manchada por salpicos abstractos de neve. Pássaros circulavam-na, indistintos pontos negros aos olhos de Maxwell. Seriam águias? Corvos? Ou um misto de híbridos entre os dois? O que importava? Avianos não estavam na tabela periódica! Os outros dois, mais práticos, focavam-se apenas no sopé. Acendiam lanternas, não querendo tornar a sua entrada às cegas em algo literal. Apreensivo, o físico deu voz aos seus medos. − Acho que não estou pronto − confessou, enquanto pousava a sua mochila. − Vou só ali atrás agora, porque senão ainda me borro todo lá dentro… Concordando com acenos de cabeça, o antropólogo e a jornalista ignoraram o físico enquanto este se afastava. Mais do que necessidades fisiológicas, Maxwell precisava de pensar. Quais as verdadeiras regras do jogo que estavam a jogar? Aproximou-se de uma árvore conveniente, oculta no nevoeiro. Enquanto baixava as calças, apercebeu-se de um silvar familiar. Por instinto, voltou a puxá-las e procurou em volta. Antes de raciocinar calmamente, já buscava a sombra e humana voz… Que nunca se separava da Serpente. − Já compreendeste? – perguntou a autoritária entidade. − Não… qual o propósito deste local? As serpentes não suspiravam, mas a Serpente fê-lo. − Isto é um depósito de memória. Um local de escolha, como eu já te tentei explicar. Hoje a humanidade é aquilo que é porque soube esquecer, porque soube crescer para além do que aconteceu. Memorizar e recordar não é aprender. Vocês estão num desvio do caminho, uma falsa loucura que pode eliminar qualquer chance de ascensão. Algo que apenas conduz aos lodaçais das falsas fés e esperanças… Maxwell queria mais informação. Queria algo mais específico. − E qual o nosso propósito? − Tens de caminhar pelos teus próprios pés. Ninguém pode crescer por ti. Com estas palavras, sentiu-se de novo sozinho. Maxwell voltou à montanha. Excitados, os outros dois estenderam-lhe uma lanterna, que ele aceitou com desânimo. Entraram na montanha, naquela gruta existencial. As paredes, macias mas marcadas assemelhavam-se à garganta do mundo, demasiado quentes e abafadas para algumas vez serem confortáveis. Alguma luz brilhava no fundo, escarlate e ao mesmo tempo dissolvida em negro, feita de resquícios do sopro de um dragão adormecido. O cheiro era confuso, maresia e grandes e queimados festins. Sem hesitar, seguiram o seu chamamento. Indistinto, um salão de rocha erguia-se. Uma grande mesa, banquete invisível. Um oceano de névoas essenciais cobria o chão, um soneto acompanhado por barbas ruivas que cresciam sem controlo, enrolando pernas de mesas e pequenos bancos. No tecto escuro estava desenhada a Via Láctea, em todo o seu obscuro esplendor. Era um dos falsos atalhos. A rota da conservação e de uma utópica estabilidade. No meio disto tudo, o único homem que presidia ao banquete. Sentado em lado nenhum, mas também no trono e em todos os lugares marcados e vazios. Lucian foi o único a elaborar a pergunta que ia nas mentes de todos. − Quem és tu? − Eu? – respondeu a figura, tão distante e subitamente assexual. − Eu sou o Rei da Montanha! Barbarrosa e Charlesmagne dos Impérios, Corvinus dos Eslavos! Eu sou o archeiro sem medo, William Tell! Eu sou a voz de Deus, Joana da flor de Lis! Eu sou todas as incarnações de Britannia, Artur, Drake ou Nelson! Eu sou Roosevelt, cavaleiro da nova prosperidade. Eu sou Sebastião, herdeiro do nevoeiro e portador da eterna dinastia. Bran dos Celtas, Wenceslas das mil vitórias! Sou o divino Elijah, Hitler da terceira ressureição, Dracula dos Turcos… A cantilena continuou. Um desfile de eternidades. Por fim, uma pergunta emergiu. − Por agora aqui estou, aqui estamos. Os corvos e águias ainda sobrevoam a minha montanha? Pois eles são os capatazes da libertação que prometo… A resposta adivinhava-se… Maxwell teria de responder. “Sim, eles ainda nos guardam”. Mas hesitou. E se dissesse… Não?
This post has been edited by Daemonfey on Jun 18 2006, 10:45 AM
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| Snipper Lundur |
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Talvez seja a "sombria e humana voz", e isso seja um lapso dos que eu alertei. Mas também não estranharia que fosse propositado, já que aquilo que fala é a sombra, e a ambiguidade textual contribui para o sentimento global da história, mas como há mais imperfeições, fica a dúvida. Daí eu achar importante a revisão prévia, para ir limpando este tipo de potenciais obstáculos.
Quanto ao perder de importância das personagens, eu nem tanto o acho. Não acho que elas perdem importância, mas sim que o cenário a ganha. E este "desiquilíbrio" de protagonismo é uma coisa que estou a apreciar muito, torna esta leitura diferente, interessante e motivante. Além de que há certas coisas que indicam que ainda se possa alterar tudo outra vez, como as motivações secretas dos personagens. Tanto quanto sei até podiam acabar a matar-se uns aos outros, as far as we know, e essa imprevisibilidade dentro de uma evolução até agora sólida, é algo muito bom.
Por fim, acabarem todos assim. Cliffhangers! É bom! Deixa-nos à espera do próximo episódio, agarra-nos ao texto. Se queres ser arrebatado, lês o próximo, e ainda ganhas o bónus de nele haver ainda mais um cliffhanger, que te puxa para novo arrebatamento ;)
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| Daemonfey |
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Em quatro pontos, o Snipper acertou em três.
De facto, a expressão significa exactamente aqui que foi dito.
Sim, as revisões são de uma importância tal que nunca está em demasiada apontar e sublinhar.
Também é verdade que o verdadeiro protagonista, o local, vai escalando de importância ao longo das diferentes partes, acabando por ocultar a chama das outras personagens. Contudo, tal é consequência do jogo de importâncias.
Sim, cliffhangers são bons, mas nem sempre um fim anti-climático é a melhor ideia. Por vezes acaba por ser frustrante.
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