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| Círculo de Escritores - Fórum > Yahaira > Opinião |
| Posted by: silent_dark Apr 17 2004, 08:51 AM |
| Devo dizer que fiquei maravilhado, mirificado com o teu texto. Nem sequer sei bem o que quero dizer, já que fiquei mesmo atordoado com a beleza da tua escrita, sem dúvida, muito diferente da de todos os membros restantes do círculo. Em todos os outros, a personagem central é um homem, tu, mulher, mulher escolheste para protagonista. Em todos falamos dalguém jovem ou adulto; tu recuaste até à infância, pelo menos até onde me foi possível ver. Foste a única que deu logo ao leitor um forte gole de mitologia própria. Enfim, um rol tão grande de coisas pelas quais me hipnotizei na tua obra que não me atrevo a desenvolver muito mais e a desenrolar o infindável pergaminho. É que só posso mesmo elogiar. Verás que quase ou nada te censuro nas notas que se seguem e que espero que ainda possam ser dalguma utilidade para ti. “Foi um tempo perdido no próprio Tempo...”- apesar de a frase ser batida, abres em grande o teu texto. “Anüdan”- Sei que, aqueles que tiverem lido todas as minhas críticas aos livros dos do Círculo, já devem julgar que eu sou uma viva grafonola, um autêntico papagaio, mas: fizeste algum estudo filológico/linguístico sobre os nomes? Ou estás a criar a língua à medida que necessitas dela? Tudo depende do que pretendes e dos teus objectivos...Desenvolver a língua com um estudo de tal natureza tem vantagens para os que querem mostrar e revelar muito da sua língua, mas para os que se ficam pelos nomes de coisas e lugares... Porém, devo acrescentar que os teus nomes me parecem os mais bem conseguidos, dentro e com influência da filologia tolkieniana. Isto é, utilizas fonemas muito suaves e melódicos (ex. o “l”, “y”, “n”, “d”,...) que são típicos dos elfos, um povo musical. O uso de tremas por exemplo também mostra uma veia tolkieniana. (o que, naturalmente, não quer dizer que todos os que agora usarem tremas sejam tolkienianos! Tu própria também tens coisas que não são nada tolkienianas- ele jamais escreveria “Yeja”! ) Gosto mesmo muito dos nomes que escolheste para as tuas personagens. “Handel fez a diferença.” – talvez uma pequena introdução, como a que fizeste às suas irmãs, não fosse má, visto que nunca a referiste antes. Quando o li pela primeira vez não me recordei desse nome, voguei então entre os parágrafos anteriores buscando o nome dela e nada. Só na frase que se segue à seguinte é que entendi que ela era uma estrela, o que é facilmente entendível. Porém, continuo a achar que qualquer coisa como “Handel, a mais nova de todas,...” ou “Handel, a última,...” ou “Handel, sua irmã,...” ajudaria. “Alisdair sugeriu então...”- aqui surgiu-me a minha primeira dúvida relativamente a quem se referia o nome. Não me recordava quem era “Alisdair”. Já estava avisado para este problema com o que lera no fórum anterior, visto esta ter sido talvez a maior crítica que te fizeram. Ao invés do que alguns propuseram, não te aconselho a fazer um Glossário no início. Se o houver, que seja no final. Mas se o motivo para a sua existência se prender unicamente com este problema, então que não seja feito, é o que te aconselho, pois julgo que há uma melhor maneira de contornar a situação. Sugiro antes que uses mais cognomes, pois isso é muito mais fácil para a memorização do leitor. Como tu própria fazes mais à frente: “Anüdan invocou então Tashait, a Sábia,...”- este “a Sábia” permite ao leitor identificar muito mais facilmente a quem te referes. Julgo que se o fizeres, um glossário é uma ideia que fica totalmente ultrapassada. “E todos os novos seres passaram a conhecer o prazer de nascer e crescer”- isto é lindo! “Primeiros Seres”- é bom haver tantas designações para os Conscientes. Isso, para além de ser útil em termos estilísticos, ilustra também mais um pouca a ideia dos cognomes como uma forma fácil de memorização do leitor. “Aí tornar-se-iam Pó novamente.”- Ao ler isto só me consegui recordar de “És pó e em pó te transformarás.” “...a Tashait a mais eterna, pesada e exigente das tarefas.”- e, efectivamente, compreender o que é o tempo é mesmo isto: a mais pesada função. Gostei desta frase pelo seu realismo, mas ao mesmo tempo o seu pessimismo, porque obriga o leitor a parar e meditar sobre o que é o tempo para ele, mais do que isso, o que tem feito com o tempo que lhe foi dado. E isso é incómodo. “... e foi esse o momento de mais puro orgulho que alguma vez brilhou no Universo.” – isto é fenomenal, simplesmente! Este orgulho de ser sapiente demonstrado pelo homem, e a forma como tu o, hiperbolicamente, descreves... O penúltimo e antepenúltimo parágrafos da quarta folha são sem dúvida muito belos e espirituais, filosóficos mesmo. Todo o prólogo é simplesmente assim: belo, espiritual e filosófico. O parágrafo que se lhes segue é um bom resumo no lugar certo, que facilita ao leitor o trabalho de processar e organizar as novas informações. O parágrafo seguinte, que se refere à transformação de Anüdan, que duma figura boa passa a uma figura má, lembrou-me a transformação momentânea de Galadriel, se bem que a tua é sublimemente diferente, já que se funda numa realidade (a sua proveniência das Trevas) totalmente distinta. E porque se trata duma transformação permanente. “De Anüdan, que era, apesar da sua luz, a Escuridão.”- exploração antitética excelente! “Handel deu-lhes a esperança,...”- a Esperança, tal e qual como o último miúdo mudo grito na Caixa de Pandora, a consolação depois de tanta tormenta libertada... O final parágrafo é um sacrifício final, é uma apoteose de amor total mesmo heróica e comovedora. Resumindo: o prólogo não é uma pequena obra-prima, mas a mais pequena prima da Obra- a Escrita na sua beleza bruta! Chamai-me louco, chamai-me demente, mas foram linhas que me comoveram profundamente, como muito raramente a escrita me toca. Por isso assim falo, e se falo mal, podeis-me ensinar a falar, que eu persistirei na minha, porque existem dois níveis de avaliação: o nível objectivo e o subjectivo. Mas eu não quero pertencer a uma turba uníssona e monocórdica que proclama objectivamente a mesma coisa, prefiro antes ser livre e dar a minha opinião e essa é, firmemente: este é dos melhores prólogos que eu já li! “Mas também não era aquela uma situação normal.”- Julgo que seria melhor “Mas também aquela não era uma situação normal” a não ser que se trate dum hipérbato propositado, para mesmo aos ouvidos do leitor não soar nada como uma situação normal... “-Quiz it tar khamen?”- Sonoridade familiar ao homem “Quiz”- “Qui/Que”, “it”-“est/is”, “tar”-“teu” e “khamen”-“name/nome”. Esta parecença é boa porque familiariza o leitor com uma língua estranha. Claro que porém a médio-longo prazo, demasiadas parecenças acabarão por fazer pensar o leitor de que te limitaste a deturpar palavras das línguas latinas e anglo-germânicas. Mas julgo que não é esse de modo algum o teu caso. “Tinham-na tirado da floresta fria e cheia de bichos maus...”- esta linguagem infantil contribui para criar uma proximidade entre o pensamento inocente infantil da criança e o leitor. “- Sentiste?” até “...em Lassinkaya”- esta é uma magnífica descrição dos Elementos, mais uma vez, profundamente, em meu ver, nostálgica, lamentativa e comovente e melancólica, com o seu clímax no “...água correu na face do Fogo”. É lindo, simplesmente e mais palavras não arranjo. “O oceano de Ravanna a fixar o céu de Garieth.”- Esta Ravanna lembrou-me imediatamente Galadriel, e um pouco ao jeito dela a imagino: uma senhora élfica importante, no seu palácio, cheia de enigmas... Claro que também já deves ter percebido que para mim tudo é Galadriel e eu tenho uma fixação por ela, mas saltemos este pormenor. Para além disso, esta frase é, mais uma vez, duma beleza inexpugnável! A analepse que se segue é muito boa e gostei. Porém, talvez devesse estar mais para a frente, esta analepse, pois assim, apesar de ter a óbvia vantagem de o leitor perceber imediatamente a empatia entre Ravanna e Garieth, dá um pouco os factos de mão beijada, como diria o Maguskrool, e julgo que poderias prolongar o mistério um pouco mais e só colocar a analepse mais à frente, mais perto do final do primeiro capítulo ou até mesmo depois, mas esta segunda possibilidade depende do curso que deres à história, por isso não me atrevo a falar mais. “E a resposta foi a mesma, pois não poderia haver outra.” – Esta frase, com a carga emocional que a precede, torna-se numa das minhas favoritas e indubitavelmente uma jóia de escrita- é uma beleza suprema! “No interior dos palácios, reparou então, tal como no interior...”- falta aqui um “que” antes de “tal”. Sem dúvida que esse se subentende, mas mesmo assim explícito ficaria melhor. A tua ideia dos desenhos nas estrelas pareceu-me tão boa e radical quanto a dos génios do Pullman (ok, talvez não tão boa, mas segue-lhe as peugadas). “E detestou Ravanna por isso.”- Realmente, as mulheres são todas assim: umas ciumentas- Lol! “Olá- cumprimentou ela, depois de fazer uma careta ao elfo....”- Toda esta cena de Yahaira em Esklehd, da qual esta frase é um exemplo, é divertida, cómica e querida, ternurenta! Ainda mais me toca, visto que infelizmente as crianças não são grande tema nos meus livros e nunca terei esta tua arte de as tornar dóceis. As minhas crianças favoritas literariamente são as de Golding no seu “Lord of the Flies”, logo já podes imaginar como estou longe de ti, mas adoro a tua escrita pueril! Enfim, estou como a início, não sei mais que dizer. Só quero, escusado será ele, deixar-te um apelo para que continues, porque está mesmo bom! |
| Posted by: nirky Apr 18 2004, 07:40 PM |
| Muito obrigada por essa crítica tão completa. Ontem fiz um post a responder detalhadamente aos pontos que focaste e a perguntas que colocaste, mas este &%$#$% de fórum começou a mandar vir e às tantas apagou-me o post porque resolveu que eu não podia postar no thread... Mais um vez, muitíssimo obrigada. Foi uma crítica mesmo muito útil. |
| Posted by: nirky Nov 1 2005, 01:33 AM | ||||||||||||||||||
| Bem, já que estou de regresso... Volto a agradecer-te, silent_dark, pela tua completíssima crítica que tão bem elevado deixa o meu ego de cada vez que a leio. Antes de mais, a escolha de uma mulher para protagonista foi o resultado de vários acasos que, acumulados, criaram primariamente o prólogo na minha mente, e só muito depois, Yahaira na minha imaginação. O conjunto veio a revelar ser o alicerce de uma ideia maior, embora eu considere que dificilmente criarei algo que supere o poder das Estrelas e a força da Yahaira ao longo desta obra.
Há clichés que vêm por bem... Falando dos nomes das personagens, não têm uma origem concreta. É claro que tenho aquela ideia pré-concebida que os nomes élficos são suaves e melódicos (como tu próprio o afirmas), o que fez com que os nomes escolhidos para os "meus" elfos soassem dessa forma, mas fora esse caso particular, os restantes nomes provêm ou de apelidos estranhos que vejo nos créditos finais dos filmes ou resultam de passeios aleatórios pelo teclado do telemóvel, ou de subversões de palavras de origem nórdica. Como vês, a minha técnica para isso não é nada apurada nem deve ser exemplo a seguir.
A não introdução a Handel foi propositada devido ao próprio contexto. Aliás, a expressão em si "Handel fez a diferença", introduz esta Estrela de uma forma singular, diferente da de todas as outras.
De facto, muita gente se tem queixado do prólogo e dos seus nomes infindáveis, associados a outras tantas infinitas ideias... Os ditos cognomes a que associo as Estrelas já pretendem facilitar a compreensão do leitor. Não sei se, ao fim de tudo completo, porei glossário no manuscrito, é algo ainda a pensar. Mas desde já adianto que, caso não memorizes os nomes de todas as Estrelas e seus deveres logo no prólogo, não é grave. Quanto ao resto das observações que fazes ao prólogo, é bom ver que alguém repara nos recursos de estilo e subtilezas da escrita que normalmente um autor faz para si e não para os outros.
Bem, acho que só de se ler o teu comentário se percebe a minha opção...
Não sei se tenho intenção nem capacidade de prolongar a exploração da Língua Primitiva, ou Primeira Língua, como queiram chamar-lhe. Essa frase está de facto associada às línguas latinas e anglo-germânicas, embora tenha criado frases em que dou pontapés a todas essas regras gramaticais. O caminho da criação de uma língua é um caminho que não sei se quero, nem sei se estou preparada para, percorrer.
Esta linguagem infantil não foi de todo premeditada e foi algo que até me soou mal quando revi o texto. Mas penso que encaixa razoavelmente na situação e agora sei que ajuda o leitor a penetrar no mundo tal como Yahaira o vê.
Modéstia à parte, é lindo, simplesmente.
A analepse só poderia ser aí. Como espero que um dia venhas a ler, saberás que é mínima a acção que decorre em Ravanniel (três capítulos apenas), sendo que é irrelevante o que quer que seja que houve entre Garieth e Ravanna. O que torna também irrelevante o facto de o leitor saber pormenores tórridos de mão beijada!
Aqui discordo da tua opinião. "No interior dos palácios, reparou então, tal como no interior das pequenas casas, as portas tinham maçanetas." Não faz aqui falta nenhum que, pelo contrário. Acho que transmitiria uma ideia diferente, aliás, acho que a frase não teria sentido nenhum gramaticalmente... Quer dizer, pelo menos eu não consigo percebê-la, desculpa-me. Terminados os esclarecimentos, fica mais uma vez o meu agradecimento por te teres dado ao trabalho de escrever este enormíssimo post, que finalmente tem resposta à altura. EDIT: voltando à última quote, acho que finalmente entendi o teu que, mas considero-o um preciosismo desnecessário. A frase, na ordem correcta e livre de figuras estilísticas, seria: "Reparou então que tal como no interior das pequenas casas, as portas tinham maçanetas no interior dos palácios.". Penso que seja daqui que vem o que previamente reclamado. |
| Posted by: Snipper Lundur Jan 10 2006, 12:42 AM | ||||||||
Ok, my turn:
Eu contribuo. Embora goste deste início Valaquentesco da história, que, ao criar o mundo de raiz, confere a quem lê uma maior proximidade com o grande plano para além do pequeno, pff... É complicado! Para quem não tem grande habilidade de memorização, não tem a paciência santa do silent_dark [é elogio - invejo isto em ti, silent!] para se inteirar e procurar a compreensão de todos os detalhes, e ainda por cima detesta desfolhar para trás à procura de um nome, este prólogo tem algo de dor de cabeça. Por outro lado, o que não envolve nomes nem confusão na distinção de estrelas, elementos, mundos, criaturas, pó, etc., está muito interessante. Tem uma sequência muito fácil de aceitar, muito verosímil, interessante. Gosto principalmente da história do aperfeiçoamento do mundo, e da relevância de coisas que, enquanto pudessem parecer tão insignificantes como história de fundo, tenham um peso e um reflexo na realidade da história, como a chacina se reflecte na cor dos olhos. Gosto de coisas como as referidas pelo silent_dark, seja a transição de Anudän, ou termos próprios como o sopro do pó, sejam outros dos muitos doces que escreveste por aí afora.
Mas tem em conta que o leitor não tem noção nenhuma disto. Para o normal leitor, o prólogo é nada mais nem menos que o que lá está escrito. E, embora belo e bom, pode ser intimidante (principalmente na primeira página, que é um imenso desbobinar de nomes de coisas - embora o bom leitor dure mais que uma página de sofrimento - que não é o caso). O resto, só vem depois. Mas deixa estar, eu acho que cativas bem na mesma e está fora de série assim como está.
Este "O elfo" imediatamente a seguir à fala dá a sensação que a acção é dele e cria alguma confusão. Principalmente, porque as menções todas a acção nas proximidades são dele. Acho que, para quebrar este potencial nó, ficava bem um "correspondendo prontamente, o elfo (...)" ou algo do género.
Ali onde pus o [**], acho que faz muita falta um "que", senão o texto fica a soar a inconsistente, de certa forma gelatinoso, porque o não mais esqueceria perde-se um bocado na ligação à visão. Omitindo o estonteamento, dir-se-ia 'Uma visão que não mais esqueceria' e não 'uma visão não mais esqueceria'. No entanto, já tens 2 ques muito próximos nesta frase pelo que seria desaconselhável acrescentar outro (que eu acho muito importante). Talvez uma alteraçao ao genero de 'deparou com uma visão estonteante que não mais esqueceria' ou 'deparou com uma visao que nao mais esqueceria, e a deixou estonteada' [este último funcionando já melhor sem o que]. Em qualquer das alterações propostas, confesso uma ligeira variação textual que poderá fazer uma diferença indesejada mas, sei lá, talvez seja possível dar a volta à frase de alguma maneira. No que toca aos elementos, não achei aquela a melhor parte, mais ao contrário. Primeiro, porque foi ali que tive que ir desfolhar para trás. Depois, por causa da confusão de nomes com L no início, e referentes a coisas distintas. Laraliah é uma lua, certo? Só descobri isso enquanto escrevia este comentário, porque estava ainda empancado a pensar "mas que raio, não há mais elemento nenhum! cabelos por baixo dela? que é isto?". Depois, porque parece-me estranho este comportamento dos elementos, sei lá, imagina-los-ia menos, erm... terra a terra ( Daqui para a frente só me babei e achei que realmente mereces todos os elogios que te foram tecidos, talvez mesmo de forma forreta. No todo, tens aqui uma escrita fenomenal, do mais alto calibre que por aí se encontra e que eu me atrevo a levar acima de alguns a nível profissional (não que isso seja difícil. digamos que achei tremendamente bom e pronto). Mas tens um defeito que eu acho lastimável e tremendo. Epá, segundo consta, só terminarás de escrever esta história postumamente, e eu creio que isso seja complicado de se conseguir. Epá, tens um material verdadeiramente fora de série, que eu adorei assim - Mas mais adoraria ver completo. Vou torcer por que consigas, e que depois me mostres. |