View Full Version: "Zuron", 2ª versão

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Title: "Zuron", 2ª versão


maguskrool - September 7, 2005 03:19 PM (GMT)
Estou a reformular a história curta intitulada "Zuron", que marca o começo dos Mundos Rivais. À medida que os textos forem ficando prontos vou postá-los aqui. Como sempre, todas as opiniões são bem vindas.

Zuron - João Henrique Silva

O sol apenas começara a expulsar a noite dos céus de Terel-Zuron e já Enifri se encontrava numa das torres de observação da fortaleza de Ast Jarx. A torre era um dos muitos braços da fortaleza, um gigante de pedra, madeira e metal que se esticava para tocar as nuvens cinzentas da manhã fria, e destinava-se a proporcionar um ponto de vantagem para detectar eventuais ameaças à cidade. Enifri Zuron, herdeira do império Zuron, estava sentada numa das luxuosas poltronas viradas para o Olho de Bazimz, uma amálgama de estruturas metálicas delicadas que seguravam lentes polidas de vidro rosado. Em frente a cada janela havia outras tantas estruturas e lentes semelhantes que apontavam para o exterior, captando imagens de locais distantes que depois projectavam no Olho. As mãos pálidas e pequenas de Enifri repousavam em duas esferas cinzentas e lisas encastradas num painel metálico à sua frente. Dos seus dedos soltavam-se pequenas descargas de poder negro, a sua marca como nobre de Vanystos, que eram absorvidas pelas esferas e faziam rodar as lentes, controlando o fluxo de imagens. Outros painéis possuíam conjuntos complicados de esferas, alavancas e manivelas que duplicavam as funções de controlo do Olho, mas destinavam-se aos guardas que habitualmente faziam a vigilância na torre ou a qualquer outra pessoa desprovida do poder negro.
Enifri maravilhava-se com as imagens perfeitas que as lentes formavam a cada instrução sua. No meio de um jardim via crianças a perseguir um pássaro ferido, rindo-se dos seus curtos voos de desespero. Duas mulheres discutiam junto a um poço, faces vermelhas de fúria, fazendo grande reboliço logo pela manhã. Um guarda de patrulha num dos extremos da cidade aceitava uma pequena bolsa das mãos de dois homens que olhavam constantemente em redor. Uma mulher velha numa varanda esforçava os olhos para ler uma carta amachucada enquanto se baloiçava na cadeira. Tantas vidas, tantas possibilidades e pormenores deliciosos para descobrir por entre ruelas e praças da cidade, pequenos mistérios que passavam despercebidos todos os dias.
— Continuo sem saber porque fazes isto todas as manhãs — disse Braugar, andando de um lado para o outro, mãos atrás das costas. A impaciência manifestara-se cedo naquele dia.
Enifri continuou a examinar as imagens, ignorando os comentários do irmão mais novo apenas o tempo suficiente para não parecer demasiado ansiosa para iniciar a discussão que este queria provocar.
— Pensei que fosse óbvio — respondeu por fim, tentando manter um tom neutro.
— És assim tão curiosa acerca da vida dos outros, irmãzinha? Estará a grande Enifri Zuron tão aborrecida com a vida que leva? — perguntou Braugar.
Irmãzinha. Tratava-a sempre assim quando a queria irritar, como se fosse ele o mais velho. Não percebia que aquele tipo de atitudes só evidenciava a sua imaturidade?
— Um dia mais tarde todos estes locais, todas estas vidas que espreito a cada dia, serão governadas por nós, Braugar. Não achas que devemos saber o mais possível sobre o nosso império? — disse, sem desviar a sua atenção do Olho, continuando a criar novas imagens nas lentes rosadas a cada toque nas esferas.
— E achas que é aqui, fechada numa torre e espiando através do Olho, que vais conhecer alguma coisa de Terel-Zuron ou de qualquer outra parte do nosso império? — respondeu Braugar, aproximando-se de uma das janelas que quase roçavam o tecto altaneiro. A paisagem distante mas familiar parecia reconfortá-lo.
— Suponho que preferisses passeios nocturnos pelas zonas mais perigosas da cidade — disse Enifri, a voz doce de criança acentuando a provocação.
Braugar fixou os olhos verdes nas costas da irmã, desafiando-a a encará-lo, mas Enifri permanecia concentrada nas imagens de Terel-Zuron.
— É a única forma de conhecer alguma coisa — respondeu, soltando uma longa exalação nostálgica. — Seja uma pessoa ou uma cidade, tens de misturar-te com ela, sentir-lhe os cheiros e os barulhos, tens de te expor e deixar-te invadir por ela. Não podes aprender nada de valioso só a olhar para imagens falsas e estéreis.
Enifri sabia que o irmão tinha alguma razão, mas não havia alternativa. Como nobres de Vanystos tinham nascido com poder negro suficiente para enfrentar exércitos, mas não eram imortais nem invulneráveis e a ameaça das outras famílias nobres era real demais para ser ignorada em qualquer circunstância. Braugar era ainda demasiado jovem para se aventurar tanto sem protecção e teria de compreender isso, por muito que o seu espírito rebelde se ressentisse.
Braugar continuava de olhar fixo na paisagem para lá da janela da torre. Algures no solo distante estava vida, emoções reais e imprevisíveis que ansiava por experimentar e dominar. Lá fora estava o desafio final a que não podia aceder, a fortaleza que o protegia não lhe parecia mais do que uma jaula luxuosa.
— Um dia encontrarei uma outra forma de sair de Ast Jarx ou de desactivar os teus discos de alarme — disse, sorrindo para o seu reflexo no vidro grosso. — Chegará o dia em que as coisas serão diferentes.
— Pensas demasiado no futuro em vez de te concentrares no presente, como devias. Cada dia que passa deve ser vivido sem pressas nem demoras, devemos pisar os degraus do tempo com passos firmes e sem remorsos, a…
— A escadaria da vida é um caminho sem retorno, eu sei — completou Braugar, com um sorriso de escárnio. — O mestre Lelim’d ficaria orgulhoso se visse como a sua pupila favorita o cita na perfeição.
Enifri desviou por fim a atenção da maquinaria à sua frente e voltou-se para o irmão, preocupada com a crescente amargura que cobria as suas palavras. A conversa estava a tomar um rumo perigoso, era altura de o encarar e esclarecer a situação.
— O mestre não tem pupilos favoritos e tu sabe-lo bem, sempre nos tratou de igual maneira. És tu que muitas vezes não lhe dás o respeito que ele merece.
— Estás enganada, querida irmã, eu dou-lhe todo o respeito que acho que merece. Só não acho que mereça assim tanto.
— A tua insolência começa a ultrapassar as marcas, Braugar…
— E a tua recusa em ver o que está diante dos teus olhos há muito que ultrapassou quaisquer marcas, Enifri — ripostou Braugar, subindo o tom e apontando-lhe um dedo acusador. — Acreditas mesmo que Lelim’d não te acha com maior potencial do que eu? Tu sabe-lo, mesmo que não o queiras aceitar, e no fundo regozijas-te com isso, anseias por agradar-lhe, surpreendê-lo com o teu talento. Olha só para ti, uma criança que controla o Olho de Bazimz melhor que um par de vigilantes! Que prodígio!
— Tu poderias controlar o Olho tão bem como eu se ao menos tentasses…
— Mesmo que o conseguisse tu irias ultrapassar-me nos treinos de combate, nos conhecimentos de história e estratégia ou noutra área qualquer, é o que fazes sempre que sentes que posso superar-te. Pensas que és muito melhor que eu mas garanto que um dia vos surpreenderei a todos.
Não pensei que existisse tanta raiva acumulada dentro dele, pensou. Devo solucionar este mal-entendido antes que se torne um rancor demasiado profundo para expurgar.
— Nem eu nem o mestre Lelim’d jamais te quisemos fazer sentir diminuído, Braugar — disse, recebendo um grunhido e um revirar de olhos como resposta. — Desde que me lembro que tento testar e ultrapassar os meus limites, não o faço para ser melhor do que tu. Como tu, apenas quero ser o melhor que posso. E se te impedi de deixares a fortaleza durante a noite foi apenas a pensar em ti, é minha responsabilidade como irmã mais velha. A segurança de Zuron depende da nossa cooperação, não podemos ser rivais, irmão.
— A usar o império e o nome da nossa família como justificação para tudo o que fazes, como sempre — disse entre dentes, a voz aproximando-se de um rosnar de frustração. — Temos menos de dois anos de diferença, mas tratas-me sempre como uma criança de berço, como se existisse uma imensa distância entre nós! Achas que é sendo protegido de tudo como uma flor delicada que vou conseguir crescer e aprender o suficiente para governar? Tu és minha irmã, não minha mãe!
— Seu fedelho insuportável e estúpido! — berrou Enifri, lábios pálidos comprimidos um contra o outro, mordendo a raiva. — Não te atrevas a falar da mãe! Tu é que tiras prazer em desafiar-me em cada passo, em contrariar-me só para me veres zangada e forçar-me a tentar impedir-te de cometer mais uma estupidez! Se te trato como uma mãe é porque nunca agiste como se não fosses uma criança irresponsável e caprichosa!
Os olhos de Braugar brilhavam com lágrimas de fúria reprimida e os dentes brancos mostravam-se por entre os lábios abertos, como um predador prestes a saltar. Os punhos cerrados pareciam retidos por amarras invisíveis, prestes a soltarem-se em direcção ao alvo à sua frente. Enifri sentiu uma leve mas familiar mudança no ar à volta do irmão e arregalou os olhos.
— Braugar… é a isto que chegámos? Vais usar o poder negro contra mim?
Braugar arfava, parecendo ponderar as palavras da irmã em câmara lenta, até que por fim cedeu e baixou os punhos, deixando escorrer uma lágrima que logo foi limpa pelas costas de uma mão. O horror do que estivera prestes a fazer estava a instalar-se na sua mente, mostrando-lhe que Enifri podia ter razão. Talvez precisasse mesmo de uma mãe que o vigiasse constantemente.
— Asseguro-te que deixarás de ter razões para te preocupares comigo. Nunca… nunca quis pôr Zuron em risco.
As palavras saíam a custo, mas Enifri apercebeu-se da profunda sinceridade por detrás delas. Braugar apercebera-se do perigo extremo das suas acções e estava genuinamente arrependido. Sorriu, tentando também ela transparecer o seu alívio sincero, e relaxou a sua habitual posição rígida para reforçar a nova confiança que depositava no irmão.
— Eu sei que não. Nem sempre as melhores intenções produzem os melhores resultados.
— Mais citações do mestre Lelim’d? — perguntou Braugar, com olhar matreiro.
Enifri deixou escapar um leve sorriso, fazendo crescer um semelhante na face do irmão. Aquela pequena provocação era a confirmação de que a tensão entre os dois se havia dissipado.
— Não, esta é de Arlok — respondeu, reparando que os olhos do irmão se arregalavam de interesse. A menção do nome do primeiro-general de Zuron, desde sempre admirado por Braugar como um herói de lendas em carne e osso, produzira o efeito desejado. Talvez assim Braugar prestasse mais atenção à sabedoria daquelas palavras. — Mas se não queres ouvir citações de Lelim’d é melhor não nos demorarmos a chegar ao Probatório.
Braugar assentiu em silêncio e dirigiu-se para o Olho de Bazimz, deixando as mãos diminutas poisar nas esferas de controlo com um cuidado pouco habitual, como se receasse o toque do metal. Enifri observava-o, vendo como as lentes voltavam aos devidos locais, uma colónia de animais vítreos que se reorganizava em passos lentos. Ainda é muito lento, mas está a melhorar. Se não o conhecesse diria que tem praticado às escondidas.
O jovem de cabelo rebelde soltou uma longa exalação quando a última lente retomou a posição correcta, feliz com a sua prestação naquele teste subtil. Enifri sorriu-lhe de mansinho e os dois encaminharam-se para as portas de madeira esculpida. Do lado de fora encontravam-se os dois vigilantes cujos deveres os jovens herdeiros haviam interrompido e um par de guardas junto à esfera de transporte. Os vigilantes apressaram-se a entrar e fecharam as portas pesadas atrás de si, como se tentassem proibir os irmãos de voltar a interrompê-los. Os guardas imperiais que ladeavam a entrada para a esfera de transporte exibiam expressões igualmente austeras, o ar estava carregado de repreensões silenciosas.
Enifri avançou procurando exalar a autoridade de uma mulher madura. — Sou perfeitamente capaz de operar a esfera sozinha e faço-o todas as manhãs, não precisam de olhar assim para mim cada vez que saio da torre.
Nenhum dos guardas esboçou qualquer reacção e Enifri amaldiçoou-se por não ter resistido à tentação de se justificar. Pareceu-lhe então que a sua pouca idade se tornou ainda mais aparente, era uma menina caprichosa que se rebelava contra os serventes que a aturavam com enfado e preocupação. Afinal não era assim tão diferente de Braugar.
Dedos pequenos e delgados pressionaram de forma ordenada os bordos recortados de um círculo saliente na porta de vidro da esfera. A fechadura circular respondeu ao código de entrada e Enifri e Braugar entraram sem mais demoras, aguardando que a porta se fechasse antes de se sentarem. Enifri sentou-se na cadeira junto aos controlos, quase esperando protestos por parte do irmão, mas nenhum surgiu. Melhor assim, não havia tempo para mais discussões.
— Pela maneira como te olhavam parece que foi ontem que tiveste o acidente — disse Braugar, divertido. — Não percebo porque se preocupam tanto, controlar as lentes todas do Olho é muito mais complicado que guiar uma esfera de transporte.
— Aos olhos deles seremos sempre crianças. Crianças espertas e poderosas, mas crianças. É a forma que arranjam para não se sentirem inferiores a nós e pensarem que nos podem realmente proteger.
Os irmãos encostaram-se nos assentos confortáveis e grandes demais para eles e ajustaram as barras de protecção. Enifri colocou as palmas das mãos na esfera cinzenta à frente do seu assento. Tal como os Olhos de Bazimz, as esferas de transporte tinham controlos separados para os nobres. Um curto esforço de concentração e estavam em movimento, descendo o túnel interior da torre a grande velocidade.
— Eu sei que consegues ir mais depressa, Enifri — Braugar não conseguia evitar provocar a irmã.
— E eu sei que só queres ver o quão depressa consigo ir para tentares superar-me assim que conseguires esgueirar-te sozinho para dentro de uma esfera de transporte.
— Então também sabes que vou fazê-lo de qualquer forma — respondeu Braugar, soando mais fatalista que desafiador. Levantou-se do assento e agachou-se junto da irmã — Se me mostrares os limites do teu controlo sobre a esfera, prometo que te levo comigo quando for pilotar uma.
Enifri ponderou as palavras do irmão. Estava a ser sincero e a fazer um esforço para se redimir do que acontecera na torre. Não a estava a incluir nas suas pequenas aventuras apenas para se exibir nem para competir com ela, mas para estarem juntos, para partilharem os raros escapes que tinham do mundo de responsabilidades em que viviam. Braugar estava a admitir que precisava dela. Por Kedryx, quando é que ele cresceu tanto?
Uma ligeira mudança na pose e um endireitar de costas foram os sinais de concentração que antecederam o aumento de velocidade. Braugar voltou para o assento, fechando alegremente as barras de protecção. Entraram nos corredores mais baixos da fortaleza e Enifri conduziu a esfera em ziguezagues apertados pelo meio de outras esferas pilotadas por guardas e servos. A sucessão de ares de preocupação, espanto e fúria nas faces no interior das outras esferas arrancaram gargalhadas sinceras de ambos. Sim, pensou Enifri, era mesmo mais parecida com Braugar do que julgara.

Snipper Lundur - September 7, 2005 05:39 PM (GMT)
O texto está irrepreensível. Foi uma leitura muito agradável, porque é introduzida com uma descrição abrangente mas suave, que nos leva directos a uma história interessante. O engenho dos mecanismos, enaltecidos pela explicação realista, cativa o leitor para o que sairá dali, e um diálogo muito bem construído, com interrupções e menções a factores externos que lhe dão uma insuperável credibilidade e remetem para profundidade psicológica e histórica das personagens. Por fim, o excerto em si, se bem que apenas introdutório às personagens, descreve uma acção interessante e acaba com num bom ponto.
A este texto dou, sem pensar duas vezes, a nota máxima. Perfeito!

umbrae - October 18, 2005 08:19 PM (GMT)
Quero, desde já, saliantar que a escrita e a leitura que ela porpociona é bastante fluida e deixa-nos com uma vontade enorme de ler mais.
A conjugação da acção presente com elementos do passado que a justificam deixaram-me completamente rendido. Gostei da história, do ambiente que criaste.
Da profundidade das personagens que eu senti que mais umas páginas e podia tocá-las.

Achei engraçado o sobnome dos "governantes" ser o mesmo da terra que governam.

Um bastante bom bocado de Higth Fantasy. Embora não lhe goste de chamar assim pois tem um estilo própio, único, que marca. São daqueles ambientes que ligamos logo a uma história. Isso é bastante bom porque ao criar um estilo e ambiente a história ganha mais credebilidade.

O engenho Olho deixou-me fascinado já que sou um adepto de "engenhocas", penso que ( já que, apra mim, és bom a desenhar) se o desenhasses dava uma imagem interessante.

Achei bastante giro a irmã fazer citações. Dá um carácter mais real à história, assim como as "manias" que referiste. São esses pequenos promenores que acho que dão textura ao que escrevemos. Por exemplo a atitude da irmã ao entrar na esfera retirou-lhe um pouco do pedestral que a história até lá tinha contruído debaixo dela.

A conclusão das história é mesmo boa. Deixa algo no ar, uma vontade de ler mais.
:lol:

Só tenho uma pergunta a fazer. Quantos anos têm os dois irmãos?
Queria perceber até que ponto eram novos.




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