PESSOAL, ESCREVI UMA CRÔNICA HÁ MAIS OU MENOS 2 ANOS ATRÁS.
achei que seria interessante postá-la aqui, mesmo não tratando de beisebol particularmente.
QUE MORRA QUALQUER TIPO DE PRECONCEITO E QUE VIVA O BASEBALL
Uma Visão Crítica da Amizade Brasil Japão (Renzo Mártires)
Muita coisa aconteceu desde que o Kasato Maru aportou em São Paulo, e entre os mais de 100 anos da assinatura do tratado de Amizade entre o Brasil e o Japão, surgiram várias histórias que marcam as relações do povo japonês com o povo brasileiro. As abordagens que se deram sobre o tema, todavia, não traduzem toda a sorte de acontecimentos que se verifica ao longo do tempo de relações havidas entre os dois países. Penso eu, que por serem alguns temas um pouco indigestos, tende-se a “esconder a sujeira em baixo do tapete”, para exaltar os aspectos positivos do intercâmbio nipo-brasileiro, entretanto, não vejo como salutar ao desenvolvimento de concepções livres de preconceituações, a triagem de fatos, feita pelas instituições oficiais (embaixadas, consulados, governos, imprensa, e associações civis), no intuito de exaltar o “lado bom da coisa”... Pelo contrário, vejo com muita desconfiança a manipulação de informações, pois creio piamente que o destrato com a verdade gera conceitos defeituosos e inverídicos, que fatalmente acabam por constituir preconceitos na cabeça dos menos avisados.
É justamente, no intuito de levar a público alguns fatos não muito agradáveis, além dos fatos positivos, ocorridos desde que ancorou o Kasato Maru no porto do estado de São Paulo, até os presentes dias, que desenvolveremos as próximas linhas. Esperamos contribuir de alguma forma, na formação de opiniões consistentes e críticas dos leitores no que tange a análise dos mais de cem anos de amizade entre o Brasil e o Japão.
Faz-se interessante destacar, de inicio, que o começo das relações entre Brasil e Japão, ao contrário do usualmente divulgado, foram bastante conturbados. O tratado de Amizade assinado entre os dois países foi, na verdade, durante os quarenta primeiros anos que o sucederam, um mero instrumento que viabilizou a imigração japonesa para o Brasil.
As calorosas discussões políticas travadas no Brasil acerca da viabilidade do processo migratório, ou mesmo de seus aspectos aparentemente negativos, que tomaram conta das casas legislativas estaduais e federais de nosso país durante o período destacado anteriormente, explicitam a delicadeza de que o assunto se revestia à época. Entre várias posições tomadas por nossos políticos sobre a imigração japonesa, destacamos algumas abaixo, que se tornam realmente interessantes para o início desta discussão:
ANTES DE INICIADA A IMIGRAÇÃO
- “Esta imigração parece-me pouco desejável tanto pelo perigo que oferece de uma maior mistura de raças inferiores na nossa população , como pela carência de experiências agrícolas com modernos processos e utensílios que existe entre a população rural destes países asiáticos, e bem assim pela diversidade de educação, costumes e sobretudo natureza psicológica e objetivo social que separa a raça ariana da mongólica”. (Manoel de Oliveira Lima - Ministro Plenipotenciário do Brasil no Japão, ano de 1901, em parecer ao sobre o interesse do governo paulista em trazer a primeira leva de imigrantes japoneses).
- “Devo ajuntar que é sem pena que vejo realizarem-se minhas previsões no tocante à impraticabilidade deste empreendimento, julgando com boas razões que o governo do estado de São Paulo só terá a lucrar com a ausência da imigração japonesa e que a esse Ministério ficam assim poupadas reclamações vexatórias que certamente se produziriam” (Manoel de Oliveira Lima - Ministro Plenipotenciário do Brasil no Japão, ano de 1902, em parecer ao sobre o interesse do governo no imgração japonesa, após o Chanceler Japonês ter negado autorizar a imigração para o Brasil).
- “Parece-me que o Governo Federal deve dificultar, uma vez que não pode impedir em absoluto, a entrada de asiáticos em nosso país. O Japonês que emigra, não só não assimila os costumes de sua nova pátria como pretende impor os seus. Além disso é um colono que incomoda os governos com queixas de todos os dias, podendo dar origem a reclamações e atritos desagradáveis, porque o Japão de hoje é um país ao qual é preciso dar-se contas desde que ele as reclame. Basta advertir no que se está passando em São Francisco” (Luis Guimarães- Encarregado dos Negócios do Brasil em Tóquio, ano de 1906, em ofício dirigido a Secretaria de Estado, preocupado com o avanço das negociações para a imigração de japoneses para o Brasil)
Mais adiante em tom profético assinalava ainda Luís Guimarães:
- “Foi por causa dos japoneses na Manchuria que os japoneses declararam guerra à China e será por causa dos japoneses do Havaí e das Filipinas que o Japão fará a guerra aos Estados Unidos”.
- “O japonês precisa viver à japonesa para não armar dificuldades; precisa de sua casa de madeira, de seus tatamis, da sua cozinha nacional, de todos os detalhes enfim que constituem sua vida peculiar e curiosa. Privado disto, o colono sofre, arrepende-se, e entra a queixar-se, ascende o rastilho de uma série de reclamações. Não é possível naturalizar um japonês: perderá seu tempo o país que tentar semelhante prova”.
APÓS O INICIO DA IMIGRAÇÃO
- “...a sua moral, porém, é muito extravagante: unem-se e desunem-se em casal sem formalidade alguma; em suas casas conservam-se em quase nudez; lavam-se em lugares públicos nus e pouca liga fazem com o pessoal da fazenda” (Firmiano Pinto – fazendeiro que acolheu uma das primeiras levas de imigrantes japoneses, no ano de 1910, em Relatório à Secretaria de agricultura sobre o comportamento dos imigrantes).
- “Se o japonês se cruza com o nacional, vamos ter uma mal irremediável- o mestiço; se não se cruza, teremos outro inconveniente, o de ficar constituindo uma ameaça perigosa para o futuro”. (Fidelis Reis - Deputado estadual das Minas Gerais, em discurso na casa legislativa daquele estado sobre a possibilidade de trazer imigrantes japoneses para o seu estado).
- “Não queremos, Sr. Presidente, nem é nosso desejo, abrir aqui um debate sobre a controvertida questão da superioridade ou inferioridade das raças, embora com Gobineau, propensos a admitir a influência decisiva e incontratável do sangue ariano, ou antes do louro dolicocéfalo de Lapouge e Huzley em todos os progressos da civilização. Baste-nos o erro que constituiu na introdução do preto. Não reincidamos em igual erro com o amarelo. Que importa o interesse econômico de natureza transitória? Aproveite-nos, no caso, a lição americana. Na hipótese, sempre preferível de não se cruzar, permanecerá o amarelo enquistado no organismo nacional, inassimilável que é ele pelo sangue, pela língua, pelos costumes, pela religiao, constituindo quiçá um perigo futuro, como o da California para os Estados Unidos”
- “Além das Razões de ordem étnica, moral, política e social, e talvez mesmo econômica que nos levam a repelir in limine a entrada do amarelo e do preto,(...) outra porventura existe a ser considerada, que é o ponto de vista estético, e a nossa concepção helênica de beleza jamais se harmonizaria com os tipos provindos de uma semelhante fusão racial”
* Destacamos aqui as primeiras entre inúmeras outras observações de restrições e reservas à imigração japonesa para o Brasil de mesma natureza, que se pautam praticamente sobre as mesmas argumentações. Tem-se ainda os fervorosos debates travados na Assembléia Constituinte de 34, os quais culminaram na restrição da entrada de imigrantes japoneses para o Brasil, e os quais não foram reproduzidos aqui por sua vastidão, mas que porém, podem ser consultados na obra do Exmo. Sr. ex-Embaixador do Brasil no Japão, Waldemar Carneiro Leão Neto, “A Crise da Imigração Japonesa no Brasil (1930-1934) Contornos Diplomáticos”, da Fundação Alexandre Gusmão/Brasília.
Como pudemos observar nos trechos acima, o assunto realmente não está envolto na candura que geralmente lhe adorna. Na verdade, poderíamos encerrar aqui este texto, pois só a publicação dos trechos referidos já perfaz bastante “lenha p’ra fogueira” na discussão que se propõe, contudo, cumpre salientar que a análise histórica dos períodos em que foram emanados os pensamentos de nossos políticos, é de vital importância, não para a justificação, mas pelo menos, para a compreensão das posições assumidas, que aos olhos de hoje podem parecer completamente descabidas ou mesmo insanas aos menos avisados.
Em suma, as opiniões acima são típicas de indivíduos que viveram a sua época, e não devem ser olhadas de forma apaixonada por nós hoje. Por motivos de limitações físicas deste texto, não poderemos fazer aqui todas as observações históricas que poderiam ser úteis a compreensão dos ideais políticos passados, todavia afirmamos que no período acima era tão comum falar em raça, quanto é hoje falar em globalização e internet. Aliás, no período acima a questão do nacionalismo era tratada como assunto da mais alta virtude, e a própria ciência, ou pseudo ciência da época, debruçava-se sobre o assunto da superioridade e inferioridade das diferentes raças, não raramente concluindo que a raça branca era superior.
É muito útil também lembrar, que os ideais erguidos no período acima, levaram a humanidade a duas guerras mundiais, ao nazismo na Alemanha, e inúmeras outras guerras de menores proporções, mas não por isso menos sangrentas. A exemplo, o próprio discurso japonês à época da II Grande Guerra era de que os japoneses eram a única nação de raça pura da Ásia, graças ao seu isolamento insular, e que por isso, todo o povo asiático era inferior, e portanto deveria ser dominado, justificativa essa que serviu como um dos ideais para a invasão da Manchúria e para o estupro de Nankim (um dos mais violentos episódios de que a humanidade tem conhecimento até hoje), entre outros.
Não obstante as opiniões contra a imigração, ou mesmo a emenda constitucional de 1934 que limitou a imigração japonesa para o Brasil, hoje a imigração japonesa é um fato incontestável em nosso país, e foi levada a cabo de tal maneira que tornou-se relevante sua análise nos mais diferentes graus da escala de nossa sociedade.
Longe do fervor dos debates travados no período inicial da imigração japonesa e da elaboração da emenda concernete ao assunto da imigração na Constituição de 34, Quais seriam então os aspectos positivos e negativos da imigração japonesa para o Brasil?
De fato, a assimilação cultural do povo japonês foi e é, indiscutivelmente bem mais difícil que a de um povo de origem européia, todavia podemos observar que, em casos de colônias como a do estado de São Paulo ou mesmo do Paraná, mais antigas, já se verifica a quase que completa inserção do imigrante (ou do descendente do imigrante) na comunidade nacional, o que por outro lado ainda não é realidade em nosso estado (Pará), onde a imigração japonesa é mais recente, e por isso ainda demandará o nascimento de mais umas 2 gerações para apresentar o mesmo grau de assimilação das colônias do sudeste do país.
Entre outras justificativas para a dificuldade de assimilação dos japoneses tem-se a diferença racial mesmo, de constituição física; A língua portuguesa, completamente estranha aos nipônicos; Os rígidos valores sociais japoneses e sua aversão aos estrangeiros, cultura proveniente de anos de isolamento imposto pelo Xogunado que persiste e se verifica na forma xenofóbica que nossos dekasseiguis são tratados na Terra do Sol Nascente.
Um dos fatos interessantes, que em parte explica o isolamento do colonos japoneses e sua desaprovação ao casamento de seus filhos com brasileiros, é que os japoneses que vieram trabalhar no Brasil, eram quase em sua totalidade alfabetizados (a grande maioria com segundo grau completo e mesmo vários com terceiro grau), há mais de 70 anos atrás (no caso da imigração para a Amazônia), e quando aqui chegavam deparavam-se com os brasileiros excluídos, com quem conviviam nas lavouras, e deles tiraram o estereótipo de que o brasileiro seria um indivíduo rústico e “não digno” de ser inserido em uma família japonesa.
Na verdade, o nosso estado do Pará é um prato cheio de histórias vivas de conflitos culturais entre indivíduos das duas nações, e o que sempre permeia essas histórias é a ignorância dos japoneses acerca aspectos dos brasileiros, e vice-versa, apesar de esse dois povos conviverem já, bem ou mal, há mais de 50 anos em nossa região amazônica.
Enumeramos abaixo, a título ilustrativo, alguns dos vários fatos interessantes desconhecidos ainda da maioria dos paraenses, sobre os japoneses de nosso estado:
a) Durante a Segunda guerra mundial, foi construído um campo de concentração para isolar os “inimigos japoneses” (colonos imigrantes) no município de Tomé-Açu/Pa (Quatro Bocas) onde vários imigrantes daquele país ficaram confinados.
B) A língua japonesa é completamente diferente da língua chinesa, pois a língua japonesa é “irmã” das línguas eslavas (como a russa), e a língua chinesa é irmã da nossa língua portuguesa. O que as duas línguas tem em comum é apenas o alfabeto dos chineses, que os japoneses também usam para escrever.
c) A colônia japonesa de nosso estado ainda está em sua terceira geração de descendentes, enquanto que a do Estado de São Paulo já está na 5º e 6º geração. Portanto, quando você encontrar algum japonês com mais de 40 anos no Pará, dizendo que nasceu no Brasil, ele provavelmente nasceu em São Paulo.
d) Os japoneses são os responsáveis pela introdução da grande maioria dos legumes e verduras que hoje fazem parte do cardápio paraense (a grosso modo, antes da chegada dos japoneses só se comia jabá com açaí).
e) Os descendentes de japoneses paraenses, que querem trabalhar no Japão, têm preferência nas fábricas por dominarem melhor o idioma nipônico que seus concorrentes paulistas ou paranaenses, já que ainda falam em casa o idioma japonês, pois por estarem ainda na terceira geração, praticam diariamente a língua com seus pais e avós. Em contrapartida, esse é o mesmo motivo que ainda afasta os nisseis paraenses dos cursos da área de ciências humanas, como letras, jornalismo, direito etc... Pois a maioria dos nisseis paraenses têm imensas dificuldades com a língua portuguesa por não ter crescido falando-a.
Não há dúvida que a imigração japonesa foi proveitosa para o Brasil em vários aspectos, além dos econômicos, e deixando de lado as especulações de que imigrantes europeus teriam nos servido melhor, ou que teriam sido assimilados com maior facilidade, o povo japonês que pra cá migrou serviu muito bem aos objetivos políticos traçados por nosso país para a imigração (ajudar a desenvolver economicamente o Brasil).
Ultrapassada a discussão sobre as vantagens econômicas que o imigrante japonês trouxe ao Brasil, posso concluir hoje que, quanto as especulações de o indivíduo japonês ser inassimilável, temos nossos dekaseiguis, que tal qual seus pais, migram com a intenção de um dia voltar a sua pátria (o Brasil); Quanto à questão racial, tenho minha filha Bianca (mestiça de italianos, espanhóis, portugueses, índios e japoneses) que só comprova o sucesso estético e intelectual da mistura. Quanto ao ainda atual, isolamento dos japoneses com relação à sociedade paraense, temos o tempo, “conciliador do irreconciliável”, e finalmente, contra o preconceito, temos a razão e o bom senso, que perfazem o norte que deve situar as vontades dos homens de bem.
Renzo Freire Mártires
Dicas, críticas e sugestões: martiresrenzo@yahoo.com.br
| QUOTE (Coach SP @ May 10 2006, 08:57 AM) |
Acho que vcs que tem preconceito com os orientais, e não aceitam que os "não orientais" estão no meio do beisebol. Só pq continuam os mesmo times de antigamente, mas é que essa popularização do beisebol que vcs sonham é quase impossível. Nós do beisebol, ficamos felizes pq apareceu um reportagem dos Latinos no Globo Esporte, sabe quando irá aparecer outra, sei lá quando. Então, pq não ajuntamos a mão para fortalecer este esporte que todos nós adoramos, sem ficar pensando se é oriental ou não. |
COACH...
Ninguem aki tem preconceito com descendentes... tanto é que tenho bons amigos, todos descendentes e sou negro...
O que acontece é que NO PASSADO ( ATENTEM ), houve um preconceito com os gaijins, coisas culturais mesmo...
Temos a consciência que os "não orientais" estão jogando e muitos aprendendo a gostar do beisebol..
Agora, dizer que a POPULARIZAÇÃO é quase impossível é algo que eu não concordo, mas não concordo mesmo, sabe porque? Pq nos ultimos 6 anos aparecem N times que estão abrindo as portas a TODOS que querem aprender, mesmo depois de adultos... posso enumerar:
BATS - SP - Tem descendentess e não descendentes
BACAMARTES - SP - Tem descendentess e não descendentes
LATINOS - RJ
MAD DOGS - RJ
CARIOCAS - RJ
BUFALOS - PA
BROMOS - RS
Fora os times do NORDESTE, BRASILIA, e outros locais que a galera esta jogando... Não digo IMPOSSIVEL NÃO, pode demorar, mas uma hora vai chamar mais a atenção do que já ta chamando amigo... e o NÓS DO BEISEBOL, incluis nós também, que jogamos e torcemos, mesmo não sendo dos times tradicionais...
E pode ter certeza que NÓS, que estamos apenas começando no BEISEBOL, estamos fazendo isso, juntando as mãos para o crescimento do esporte, vide o DESAFIO RJxSP que ta rolando entre os times do BATS, BACS, MAD DOGS e LATINOS... e ano que vem pretendemos expandir isso... espero que os times tradicionais também estejam dispostos a interagir conosco que somos novos e por enquanto menos dotados tecnicamente...
MAS O FUTURO DO BEISEBOL BRASILEIRO TENDE A SER BRILHANTE...
Pode ter certeza
Abraços
Rhangell
BACAMARTES BEISEBOL - SP