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Atualização nos cenários de Gondor, com a descrição de inúmeras regiões faltantes no
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.: 06/09/08
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 Erebor
Thórin III
Posted: Sep 29 2008, 12:14 AM


Rei Sob a Montanha em Erebor


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Salões de Thórin.
Cair da Noite em Erebor.

A noite caia, e o sol desaparecia por detrás das altas árvores do reino de Thranduil naquele instante. Uma suave e fria brisa soprava do sul fazendo com que os guardas da entrada do reino apertassem suas vestes, protegendo-se do frio. No interior da montanha, o vento não chegava, o clima era ameno, embora algumas partes fossem bem quentes devido ao calor das forjas. As ruas, corredores, salões e mansões, eram iluminados por tochas e cristais, fazendo com que a rochosa montanha jamais perdesse seu brilho. Àquela hora da tarde os trabalhos já eram encerrados, e um silêncio parecia invadir as profundezas de Erebor, deixando-a não tão ativa quanto durante o dia. Os joalheiros trancavam seus abarrotados cofres, os comerciantes fechavam seus comércios, os viajantes buscavam acomodações, o trabalho nas forjas se encerrava, as oficinas paravam, e o som das Harpas, flautas e martelos eram vagarosamente substituídos pela marcha de mineradores que voltavam das minas mais profundas, entoando belas e embaladas canções de seu povo. As grossas vozes dos mineiros aos poucos preenchiam os corredores ecoando pela cidade, e uniam-se então às vozes de alguns cidadãos que observavam de suas moradas a longa caminhada enquanto cantavam juntos.

Os soldados andavam pelas ruas da cidade subterrânea fazendo suas rondas, mantendo o reino seguro, e o mesmo acontecia nos postos de vigia. O cheiro de carnes assadas, tortas e doces invadia os túneis e os salões inferiores, era o sinal de que o dia realmente estava acabado, e que boa comida aguardava os trabalhadores cansados. Odores adocicados, suaves e fortes também emanavam dos salões do rei, o que indicava que um banquete seria ali realizado. As belas portas da casa de Thórin eram entalhadas e adornadas em ouro, onde pequenas figuras de reis, soldados e mineradores podiam ser vistas a brilhar com luz dos cristais. Soldados bem vestidos guardavam cada porta e por ali ninguém se aproximava sem ser convidado. Algum alvoroço contrastava com a paz dos corredores da casa do rei. Criados andavam de um lado ao outro, e a velha Câmara de Thrór parecia estar sendo preparada para um festejo importante. Velhos anões que traziam ouro até mesmo em seus pés começavam a atravessar os corredores a caminho da sala do Trono e alguns comandantes os acompanhavam vestidos com belas armaduras e gargantilhas repletas de diamantes. Cada um que adentrava a sala era anunciado por um mestre de cerimônias, e só então se sentavam nas polidas e entalhadas cadeiras dispostas em toda a sala.

Em um quarto grandioso e levemente escuro, havia um anão solitário. Sua barba solta quase se arrastava ao chão, e seus bigodes trançados e presos com dois anéis de prata cintilavam sob a luz de uma fraca lamparina e algumas poucas velas. Estava sentado em uma grossa cadeira de carvalho e, sobre uma folha de papel amassado e uma pena avermelhada, cochilava como se nada pudesse lhe perturbar. O aposento aconchegante parecia seguro e sem a possibilidade ter seu silêncio abalado, e provavelmente tal ausência de ruídos possibilitou que o sono do anão o dominasse daquela forma. Mas não tardou muito para que alguém se aproximasse das resistentes portas, e uma batida desengonçada fosse ouvida de dentro, junto de uma fraca voz que dizia:

- Meu senhor! Estás aí?! Lorde Thórin!

O anão mexeu os lábios, deu um longo suspiro e ajeitou-se sobre o papel, ignorando o chamado. Estava claro que o sono do senhor era forte demais para ser quebrado pela voz daquele que lhe chamava. Mas Virvir era persistente apesar de sua avançada idade. O velho anão ergueu sua bengala de salgueiro e com o cabo feito da mais pura prata socou a porta dizendo:

- LORDE THÓRIN ! MEU SENHOR ! A CERIMÔNIA ESTÁ PARA COMEÇAR !

O anão que tranqüilamente dormia, acordou alarmado apalpando os papéis sobre a mesa, olhando de um lado ao outro, como se procurasse em seu próprio quarto um inimigo que estivesse prestes a lhe atacar. Em poucos instantes, sua consciência fora recobrada, o susto tomado passou e já estava claro que alguém gritava da porta. Thórin levou sua pesada mão até a barba, e ajeitou-a enquanto ergueu-se para caminhar até a entrada. O lorde anão caminhou lentamente, como se uma terrível lassidão houvesse lhe apossado o corpo, mas ainda assim conseguiu abrir as resistentes portas dando de cara com o velho conselheiro Virvir.

- Suponho que tenhas um excelente motivo para perturbar-me a essa hora. - Disse o Rei. - Sabes que estava cuidando de ler as correspondências de Valle, e os decretos reais que preciso despachar no dia que segue.

Virvir sorriu sarcasticamente arqueando uma de suas sobrancelhas, e cinicamente respondeu:

- Conheço-vos, assim como conheci vosso pai e o pai de vosso pai, e digo que são idênticos, eles sempre liam correspondências e decretos a essa hora. – Disse Virvir. - Mas o motivo de minha vinda é a cerimônia de nomeação do filho do comandante Haugspori, Ginar. Se apresse meu senhor, está para começar.

-Pelas barbas de Durin! Apronto-me em minutos. - Disse Thórin. - Vá à frente e diga que estou a caminho.

Virvir pousou sua bengala ao chão e enquanto batia a mesma ao chão, caminhou pelos corredores, na direção da sala do trono. Thórin fechou as portas, seguiu até um grande baú e de lá retirou longas vestes, e pequenas caixas de madeira repletas de jóias. Com habilidade o senhor trançou a barba, prendeu pequenas peças de ouro, e vestiu seus negros trajes para a cerimônia. Bordas cravejadas de brilhantes e fios de ouro podiam ser notadas no casaco do senhor. Uma fivela adornada de opalas prendia seu cinturão, enquanto gemas de todas as cores brilhavam em seus vários anéis e uma bela esmeralda presa num dourado medalhão enfeitava seu peito. Por fim rei apanhou sua exuberante coroa, onde os sete mais belos diamantes de Erebor foram incrustados, colocou-a e deixou seus aposentos apressado, seguindo então pelos caminhos de seu palácio na direção da sala onde se realizaria a cerimônia. Não havia tempo a perder, e provavelmente muitos convidados já haviam chegado. O senhor deveria estar em seu trono para nomear Ginar o mais novo comandante dos exércitos de Erebor e ainda não estava nem ao menos na metade do caminho.
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Thórin III
Posted: Oct 6 2008, 08:30 PM


Rei Sob a Montanha em Erebor


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Salões de Thórin.
Sala do trono.
Noite em Erebor.

Em uma grande sala, onde as colunas se erguiam esculpidas e belas da rocha firme onde pisavam os anões, seria realizada uma grande cerimônia. Grandes estandartes e bandeiras foram espalhados por todo o ambiente. A bigorna e o Martelo e outros diversos símbolos estavam estampados em diversos brasões, todos representando a importância do que ocorreria ali. Muitos nobres já haviam chegado e, nas mais altivas cadeiras, estavam sentados aguardando a chegada do rei. Comandantes militares esperavam já impacientes, segurando com orgulho seus elmos. Guardas bem vestidos portando armas douradas preenchiam toda a passarela que guiava os que chegassem até a frente do trono. Mestres de cerimônia se postaram diante da grande porta de entrada e ali esperavam pelos que ainda faltavam, pois deviam anunciá-los devidamente.

Do lado de fora, em um grande corredor, estavam alguns senhores de expressões fortes, sendo um deles quase assustador. Seus bigodes brancos e volumosos, juntos de sua imensa barba bem trançada e das grossas sobrancelhas, lhe deixavam intimidador. Entretanto suas vestes eram belas, trajava uma cintilante armadura, feita de metal plasmado, e adornado de ouro e prata. Por baixo da armadura usava vestes negras como o ônix. Em seus braços trazia braçadeiras resistentes e adornadas de pedras e símbolos brilhantes assim com vários anéis que trazia nos dedos. O altivo anão usava botas negras e revestidas de metal prateado, mas eram mais belas que resistentes, com certeza. Aquela vestimenta não era sem propósito, o lorde anão que ali estava era um dos mais antigos oficiais de Erebor, tendo servido lorde Dáin mesmo quando este governava as Colinas de Ferro.

Ao lado do expressivo anão, estava outro, seus rostos eram semelhantes, mas este era mais jovem, sua barba era negra, e seus bigodes e sobrancelhas eram levemente acinzentados. O anão vestia-se tão bem quanto o oficial ao seu lado, mas não trazia em seus dedos nenhum anel, apenas uma luva de couro leve que cobria as grossas mãos. O jovem anão parecia apreensivo, mas tentava manter-se firme, e sem expressar seus reais sentimentos.

Passos apressados puderam ser ouvidos naquele instante a ecoar por todo o longo corredor que estava atrás da sala do trono. Thórin III caminhava imperioso cercado de alguns guardas, conselheiros, nobres e comandantes. Ao se aproximar dos dois outros anões, sorriu cordialmente ao mais velho, curvou-se longamente e se ergueu olhando imperiosamente os dois anões diante da porta.

-Salve Haugspori, filho de Hár, filho de Ginar- Disse o rei – É com grande satisfação que o vejo, velho amigo.

O velho anão abaixou a cabeça ao concordar e em sinal de respeito se curvou perante o rei.

-Salve Thórin, filho de Dáin, filho de Náin – Disse o oficial – Satisfeito estou eu ao ser honrado por vós dessa forma, ter um filho em tão alto posto é um presente maior que qualquer outro.
Thórin sorriu gentilmente sob seu grosso bigode e olhou ternamente ao jovem que ali estava.

-Ginar, hoje receberás uma missão rara... Responsabilidades diversas estarão em vossas mãos- Falou o rei ao se dirigir ao anão. – Assim como vosso pai, e o pai de vosso pai, serás hoje nomeado o mais novo Comandante dos Exércitos de Erebor, vos desejo sorte nesta empreitada.

O rei olhou discretamente a um de seus conselheiros e o mesmo tocou de leve a madeira do portal. As duas pesadas portas foram abertas e em alto som os mestres de cerimônia disseram:

-Recebam vosso Senhor! Thórin III Rei Sob a Montanha em Erebor! Rei dos Povos de Durin!

-Thórin III Dáinul Náinul Uzbad Sigin-Târag!
(Thórin III filho de Dáin filho de Náin Senhor dos Barbas Longas!)

Trompetes foram soados, os anões do corredor ergueram suas archas para cima e alguns tambores e clarins foram tocados para a entrada do rei. Thórin estufou o peito olhou a frente e caminhou altivo até seu trono. Os Oficiais que o acompanharam seguiram até a frente, e em cadeiras dispostas ao lado esquerdo se sentaram. Em seguida os conselheiros, sentaram-se à direita, e os nobres à frente em cadeiras especialmente colocadas ali. Neste mesmo instante os mestres de cerimônia bateram seus cajados ao chão fazendo com que o som ecoasse por toda a sala e de uma só vez falaram:

-Salve Ginar! Oficial dos exércitos de Erebor.

-Ginar Haugsporiul Harul khuzd Singin-Târag!
(Ginar filho de Haugspori filho de Ginar anão Barba Longa!)

O anão seguiu até a frente ao lado de seu pai e de outro comandante das forças armadas da Montanha e à frente do rei os três se ajoelharam. Dois anões seguiram até o altivo lorde, um deles segurava em suas mãos uma almofada aveludada e negra, e sobre ela um Belo machado. Thórin postou-se diante dos três anões, sorriu cordialmente, e com um singelo movimento da cabeça, solicitou que os dois comandantes se afastassem. Ambos os oficiais deixaram seus lugares, e ali permaneceu apenas o mais jovem, ainda olhando para o chão. Era finalmente chegado o momento da cerimônia ser iniciada, e cumprindo o “ritual”, o anão jovem oficial segurou as mãos do rei, beijou um de seus anéis e permaneceu sem silêncio. Thórin olhou para o teto e balbuciou algumas palavras quase inaudíveis, dirigindo em seguida seu olhar para o anão que segurava suas mãos.

-Por Mahal que da pedra nos criou, pelos sete pais anões que cobriram o mundo de honra, e por Durin, nosso pai e maior dos senhores anões, juras diante de teu rei ficar à disposição eterna de Erebor, de seu senhor Thórin III e honrar vosso juramento a cada dia?

-Sim em juro. - Disse Ginar

-Comece-o então! -Ordenou Thórin.

Ginar demonstrou estar levemente nervoso, mas como um verdadeiro soldado, soube se controlar e com sua grossa e alta voz pôs-se a falar:

Juro honrar e respeitar o meu senhor e rei de Erebor, Thórin III, filho de Dáin, filho de Náin e a ele obedecer sem contestação.

Juro proteger A Montanha Solitária a todo custo e defender os anões que aqui vivem com minha própria vida se necessário for.

Juro ser fiel, manter a honra exigida pelos meus iguais e cumprir rigorosamente a hierarquia estabelecida entre os oficiais.

Juro defender o rei Thórin III e o trono de Erebor enquanto o sangue correr em minhas veias e nada fazer que prejudique meu senhor, mesmo que isso signifique minha morte.

Juro agir com valor, combater com intuito de vencer, não almejar nenhuma proteção, cuidar de meus bens e valorizar meus amigos.

Juro exercer o Cargo de Comandante do Quinto Batalhão de Fronteira desse reino com honra e justiça para com o povo. Com Lealdade para com o rei e com coragem para com os inimigos.

Juro ser fiel a Mahal hoje e sempre e honrar meu povo, defendendo-o de todos os perigos hoje e sempre.


Assim que o anão silenciou-se o rei se virou, apanhou o machado que segurava o anão ao lado, e com um sorriso em seus lábios falou:

-Que vosso juramento seja forte como o martelo de Mahal. Que vosso sucesso seja tão certo quanto à honra de nosso povo. Que vossa vida seja longa para que possas cumprir vossa missão com bravura. Que Mahal nosso pai lhe proteja e jamais permita que se quebre o vosso machado!

Thórin entregou o machado ao anão em sinal de que seu juramento fora aceito e de que suas funções como novo comandante estavam em vigor. O rei abriu um largo sorriso, olhou a todos e com sua potente voz, disse:

-Levanta Ginar, filho de Haugspori, filho de Hár... Comandante do Quinto Batalhão de Fronteira da Montanha Solitária.

This post has been edited by Thórin III on Nov 1 2009, 01:07 PM
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Thórin III
Posted: Oct 20 2008, 10:43 PM


Rei Sob a Montanha em Erebor


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Salões de Thórin.
Câmara de Thrór.
Noite em Erebor.

Diante do rei o jovem comandante se ergueu imperioso. Daquele momento em diante, era um verdadeiro chefe militar, teria muitos soldados sobre suas ordens, e como havia dito o rei, muitas responsabilidades a cumprir, sendo a mais importante delas a de garantir a segurança das fronteiras do reino. Ginar apanhou o machado com cuidado, como se temesse que de alguma forma, a arma caísse ao chão e se partisse ali mesmo fazendo do momento um sinal de má sorte. Mas naquele dia nada poderia ir mal, Mahal parecia ter abençoado a montanha, tornando-a alegre e retumbante. Ginar sorriu como uma criança ao ganhar um brinquedo e sem se lembrar que estava na presença do soberano de Erebor, ergueu o machado até a altura da cabeça e soltou uma grossa gargalhada de felicidade, e tal gesto fora repetido em todo o salão. Nobres, Conselheiros, Comandantes, criados e soldados se alegraram em ver o filho de Haugspori tão contente. Thórin mantinha seu largo sorriso, enquanto observava as expressões nos rostos de cada um dos que ali estavam.

Aqueles eram dias bem aventurados, o povo da montanha estava alegre e até mesmo os mais carrancudos soldados estavam sorrindo. Erebor vivia uma época bem aventurada, onde não havia perigos como no passado, onde não havia mais tanto sofrimento. Os anões podiam depois de tantas eras respirar aliviados, sem temor, sem tristezas. Eram dias de paz, dias de glória, e em clima de festa, um a um dos que participaram da cerimônia, se dirigiram para a grande Câmara de Thrór. Os caminhos daquele palácio estavam belos como nos tempos do venerável rei Thrór. Esplendidos ornamentos embelezavam as paredes de rocha, a pedra polida do chão brilhava reta e bem traçada e as escadarias pareciam verdadeiras obras de arte, assim como tudo que ali havia sido reconstruído. As resistentes portas da câmara estavam abertas e ao seu lado soldados com vestes rubras estavam de prontidão.

Um banquete digno dos reis estava preparado sobre as mesas daquela grande sala. Os bancos de madeira afastados, assim como as cadeiras, já estavam a postos para receber os convidados para a festança em homenagem a Ginar, e no teto, belos estandartes caiam coloridos, mostrando diversos símbolos. Enquanto todos se acomodavam, um grupo de anões se deslocou para o canto esquerdo da sala, onde estavam algumas cadeiras dispostas de maneira meio desordenada. Cada um desses senhores portavam algum instrumento, violas, pequenas rabecas, flautas, tambores, clarinetas e belas harpas. Sem demora um deles dedilhou as cordas da prateada harpa e seguindo o som as flautas sopraram, os tambores rufaram e as violas soltaram sua fina melodia embalada. Os instrumentos estavam em completa harmonia, e um som tranqüilo e tristonho podia ser ouvido ali. No entanto, quando alguns pensavam que a música escolhida não condizia com a situação festiva, um dos anões cantou alto e o mesmo os demais fizeram, o toque foi mudado, a melodia se alegrou e ao som dos tambores a música se alterou, era alegre, festiva e animou de uma só vez os anões.

A cerveja jorrava dos barris, e o aroma de carne assada inundava todo o palácio, assim como dos doces, vinhos, e outros preparados que haviam sido feitos para aquele banquete. Virvir (o velho conselheiro) já contava suas exageradas histórias para alguns jovens que gargalhavam alto; e os oficiais do exército, reunidos em algumas mesas, contavam casos heróicos, de dias antigos. Thórin sentou-se em uma alta cadeira, posta na parte inferior da sala e ao seu lado estavam alguns soldados, e um comandante altivo, seu nome era Draupnir, servira ao lado de Dáin durante anos, e sobreviveu com bravura à guerra do anel. Draupnir, apesar de sério, ria às vezes de alguns contos (mentiras) de Virvir, que estava sentado logo a frente, ou mesmo das músicas atrapalhadas dos músicos que animavam a festa. O Rei por outro lado, mantinha um sorriso inexpressivo em seus lábios, parecia alheio a tudo, mergulhando em seus próprios pensamentos, sem se importar com nada que acontecia a sua volta.

A festa provavelmente duraria toda a noite, já que era tarde e o ânimo dos convidados era o mesmo, tendo poucos já partido: apenas os mais idosos, e as anãs, que não pareciam a vontade entre tantos senhores. Thórin se ergueu de repente da cadeira, apanhou a caneca de cerveja que estava ao seu lado, tomou um longo gole, colocou a pesada mão sobre o ombro de Draupnir e disse:

-Vou me recolher, Ginar e seu pai ainda deverão se divertir por um bom tempo, mas eu estou cansado e desejoso de poder ter uma boa noite de sono.

-Sim meu senhor. -Disse Draupnir.

-Amanhã bem cedo, venha até mim, preciso conversar contigo. -Disse o Rei- Durante essa noite, não encontrei uma oportunidade, mas amanhã a teremos.

Assim que o rei concluiu suas palavras, o comandante se curvou e deixou o lugar onde estava dando passagem ao senhor, que caminhou apressado na direção de seus aposentos.
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Virvir
Posted: Nov 8 2008, 06:12 PM





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Erebor.
Portão Frontal.
Raiar do Sol.

O sol surgia ainda tímido no leste quando passos lentos e preguiçosos foram ouvidos pelos guardas do portão. Deviam ser de dez ou doze pessoas a caminhar, e pela lentidão com que vinham, era provável que haviam acordado a não muito tempo. Uma voz familiar era ouvida a guiar o grupo que caminhava. Mesmo lentamente, não demorou muito para que uma turma de jovens, anões e homens atravessassem as portas no caminho de Valle, seguindo o Rio Continuo. Virvir, o velho conselheiro de Dáin seguia ao lado dos jovens, guiando-os e pedindo que ficassem em fila a todo instante.

-Jovens mestres, não se separem, peço-lhes... Caminhando, vamos, devemos chegar até a metade do caminho para Valle antes do meio dia.

Alguns dos anões resmungavam, e os rapazes de Valle se espreguiçavam. Era realmente muito cedo para atividades, ainda mais para fazer uma caminhada. Virvir, entretanto parecia atento e muito disposto, mesmo que fossem léguas a caminhar e não metros como era o caso. O chão estava ainda levemente umedecido pelo orvalho, e as pequenas plantas que nasciam nas margens do rio pareciam adormecidas, não revelando seu viço àquela hora, talvez esperando que o Sol surgisse por completo para admirá-las. O velho anão batia a bengala ao chão com cuidado para não afugentar nem mesmo os insetos que caminhavam e tal cuidado ordenava que os meninos tivessem também.

Não longe dali, ficavam algumas pedras grandes, bem perto da margem oeste do rio. Virvir com certa dificuldade se apoiou na bengala, e sentou-se em uma das maiores. Com sua outra mão o ancião ordenou que os jovens se sentassem nas demais e com um sorriso nos lábios, sob os grossos bigodes brancos, lhes falou:

-Hoje encerramos nossos estudos sobre as tradições dos povos de Durin como sabem... Ontem falamos sobre o honrado rei Dáin II, filho de Náin, filho de Grór, e de como o mesmo agia, sempre ponderando, ouvindo, e somente depois tomando suas decisões.

Virvir tornou-se sério e pensativo, refletindo sobre as melhores e mais sábias palavras a serem ditas, com o objetivo de que os jovens entendessem com maior facilidade.

-Falamos também do reinado do atual rei, Thórin III, filho de Dáin, filho de Náin, e sobre sua semelhança no modo de agir, em relação ao seu falecido pai. - Disse Virvir. - Hoje discutiremos sobre uma tradição já comentada, pois logo no começo do ano, quando nos encontramos para o início dos estudos, falei dessa parte da Cultura dos filhos de Aulë, nosso amado Mahal.

Virvir alisou a barba, e delicadamente pousou as duas mãos sobre a pequena figura de um anão no topo de sua bengala. Ponderou um pouco mais sobre o que deveria dizer e deu seguimento ao raciocínio:

-Muitos senhores ao longo dos anos e ao passar das eras ditam informações... De certa forma equivocadas ao nosso respeito- Disse Virvir aos jovens- E o que é ainda mais terrível, existem antigas escrituras que atestam tais calúnias.

O anão olhou atento nos olhos dos jovens, talvez para ter certeza de que o ouviam e prosseguiu dizendo:

-Devem estar se perguntando de que equívocos e blasfêmias eu falo- Prosseguiu o mestre anão. - E a resposta é simples...

O velho conselheiro virou-se para o lado, abaixou novamente a cabeça, alisou a barba e voltou seus olhos para os aprendizes ao se erguer da pedra onde estivera sentado.

-Muitos de vós tendes aprendido sobre as artes bélicas com os mais experientes comandantes de nossos batalhões. Comigo tendes aprendido sobre as antigas tradições. - Continuava Virvir enquanto caminhava de um lado ao outro. - Citem por obséquio uma de nossas mais antigas tradições escritas, e que ireis aprender com os mais hábeis mestres de Erebor na prática, assim que encerrarmos nosso dia.

Um jovem se ergueu acanhado, mas cheio de orgulho, e com o peito estufado disse:

- A forjadura dos metais e a lapidação das gemas.

-Exato!- Disse Virvir.- Meus parabéns Náli filho de Frár.

O jovem se sentou sorridente e como os outros, apenas fitou o mestre que prosseguiu em seu raciocínio.

-Sendo a forjadura e a lapidação, artes antigas, verdadeiras tradições de nosso povo. E que delas é que estamos falando. Alguém de vós saberia dizer-me o que falam os outros povos sobre nós anões a respeito de tudo que cresce e vive sobre a terra, como animais e plantas?

Um jovem de Valle se ergueu prontamente e respondeu ao mestre:

-Antigas escrituras, dizem que a Valië Yavanna Kementari a Provedora de Frutos ao falar com seu esposo Aulë o Ferreiros dos Valar, após o perdão do mesmo por Eru, disse-lhe:

“Eru é misericordioso. Agora vejo que teu coração se alegra como de fato pode; pois recebeste não só o perdão, mas a generosidade. Mas como escondeste essa idéia de mim até sua realização, teus filhos terão pouco amor pelas coisas que amo. Eles amarão acima de tudo o que fizerem com as próprias mãos, como seu pai. Escavarão a terra, e não darão atenção ao que cresce e vive sobre ela. Muitas árvores sentirão o golpe de seu machado impiedoso”.

Logo em seguida um outro menino disse com ar de zombaria:

- E com certeza eles o fizeram, aliás, não vejo árvore alguma ao redor da montanha, por certo não sobreviveram aos lenhadores de Erebor, coitadinhas.

O velho senhor respirou fundo, olhou aos céus como se implorasse por paciência, e disse em seguida:

-Meu jovem, tens certeza que és de Valle? Ou tua família é estrangeira? Em Valle, as tradições dos anões sempre foram zelosamente tratadas... Corrijamos isto então, neste teu caso.

-O senhor está correto, corretíssimo- Disse Virvir ao jovem que havia respondido à pergunta feita... Yavanna por certo temia a destruição de tudo que criou, e não lhe tiro a razão ou condeno suas palavras, não, de forma alguma...

Virvir novamente abaixou a cabeça, alisou os bigodes e prosseguiu:

- Mas Aulë, nosso pai amado respondeu com sabedoria ao dizer que aquilo também valeria para os filhos de Ilúvatar, já que eles iriam comer e construir.

O mestre anão olhou de forma repreensiva ao rapaz que havia feito troça anteriormente e disse em voz alta:

-Muitos dizem que Yavanna tinha razão, e que não respeitamos ou damos valor ao que cresce e vive sobre a terra. - disse Virvir. - Mas sobre isso eu discordo, vejam por exemplo esse pequeno verso criado para ilustrar o interior de um pequeno baú de tesouros enviado ao rei élfico pelo antigo e nobre rei Dáin II:


Ao rei da Floresta.
No final da campina.
Brilham flores de esmeralda;
Com botões de brilhantes.
Ametistas decoram;
O chão de topázios.
Cintilam ali as gemas mais raras.

Veados de ouro.
Coelhos de prata.
Nos olhos dos lobos;
Rubis e opalas.

Corvos de ônix.
Javalis de berilo.
Um galho de ouro.
Com flores de ametistas.
Incrustados na prata.
Protege o tesouro;
De perigosos bandidos.

Com travas de cristal;
Cravados nas bordas.
Encerramos esses versos;
Com o final desta obra.


-Simples versos ilustram a inspiração de Thék ao criar o presente encomendado por Dáin ao rei Thranduil. -Disse Virvir. - Infelizmente só posso mostrar-lhes os versos que foram escritos no baú, o verdadeiro tesouro, uma coroa de ouro, brilhantes e esmeraldas está em Eryn Lasgalen.

O velho sorriu ao olhar que seus jovens ouvintes escutavam atentos, cada palavra dita.

-Temos criado belas jóias, coroas, armaduras, espadas, adagas, machados, lanças, escudos e elmos. Essa interessante arte é uma das coisas que unem as sete casas, pois Barbas Longas, Barbas de Fogo, Barbas Duras, Vigas Largas, Pés de Pedra, Tranças Negras e Punhos de Ferro, cada povo em seus reinos, forjaram trabalhos dignos dos Valar, assim como lapidaram as pedras como nenhum outro povo conseguiria.

Virvir se enchera de orgulho ao falar dos anões demonstrando o quão honrado era o seu povo, e ao relembrar de como eram capazes e hábeis em seus trabalhos. As recordações lhe traziam uma alegria cada vez maior, maior até do que o prazer de ter uma platéia tão atenta quanto aquela que permanecia de ouvidos e mente fixados no que dizia o anão. O velho mestre olhou para o chão, arrancou do solo uma pequena plantinha e enquanto observava as pétalas minúsculas da flor preza ao caule da planta, foi dizendo:

-Durante todos esses dias lhes contei velhos contos, antigas histórias, e analisamos poemas, versos, loas, enfim, tudo aquilo que poderia levá-los a entender o processo pelo qual passaram os anões desde os tempos de Durin, e creio que aprenderam bem.

O velho conselheiro deixou de fitar a pequena flor, e olhou tudo a volta. As águas do Rio corrente que seguiam para o sul, límpidas como sempre, alguns poucos peixes que ali nadavam, e olhou na grama para as pequenas flores que brotavam, assim como alguns pequenos arbustos.

-Há ainda muito a saber sobre os anões e sua história.-Dizia Virvir- Mas são coisas para os que desejarem focar seus estudos apenas nisso, os demais passaram o restante do ano na companhia do nobre mestre Nyrath, um dos mais conhecidos artesãos de Erebor...Agora, observem tudo aquilo que...

O anão fez uma breve pausa, enquanto olhou sorridente para algumas plantas que brotavam sadias do chão.

- Cresce e vive sobre a terra.-Concluiu o anão.- Pois é nessas criaturas que deverão se inspirar para seus primeiros trabalhos, sejam eles na confecção de armas ou de jóias.

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Thórin III
Posted: Nov 19 2008, 08:31 PM


Rei Sob a Montanha em Erebor


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Erebor.
Centro do reino.
Raiar do Sol.

O Sol já surgia pelo lado leste de Erebor, e a montanha toda despertava como um gigante que estivera adormecido. Nos salões internos os mineiros marchavam em direção às minas cantando antigas canções compostas quando Khazad-Dûm era esculpida no oeste distante. Os joalheiros abriam suas tesourarias, de onde retirariam as pedras brutas para lapidarem. Os ferreiros começavam a acender suas fornalhas, enquanto alguns já levavam os carregamentos de armas para as armorarias de Erebor. Nos salões superiores, onde localizavam-se as mansões, o fluxo de anões a andarem pelos corredores já era imenso, nobres trancavam as portas de suas casas e caminhavam para o palácio onde conselhos e decisões os aguardavam. Os comandantes alinhavam seus batalhões e entoando canções de guerra marchavam pelas minas portando seus machados afiados e os pesados escudos.

Alguns poucos conselheiros deixavam seus lares, também na direção dos salões do rei. Enquanto os corvos voavam perto da Torre de vigia do Sul, tropas da fronteira faziam suas rondas, cuidando da segurança da montanha e dos arredores. Em Erebor o som das harpas, martelos e picaretas já podia ser ouvido de longe, como se uma orquestra estivesse operando naquele instante. A fumaça saía do topo da Montanha Solitária como se um dragão soprasse lá de baixo. E nesse ritmo ativo os artífices do reino produziam belas jóias, resistentes e mágicas armas, e uma infinidade de objetos que logo deixariam os corredores do reinado a caminho de toda a Terra Média. Erebor retumbava enquanto o sol se erguia lá de fora, e ouvindo os batuques de seu povo Thórin despertava.

De um lado ao outro da extensa cama o anão se contorcia, a barba já lhe cobria o rosto, assim como o logo cabelo que havia sido solto antes do sono. Pequenos roncos e outros ruídos eram emitidos pelo rei que parecia tentar a todo custo manter seu sono. Embrulhado em muitas mantas o senhor rolava e rolava, colocou sobre os ouvidos o travesseiro e prosseguiu em uma inútil tentativa de cessar os barulhos que vinham de fora, o que logo se mostrou “impossível”. Thórin afastou as mantas e cobertores de si, bateu com força o travesseiro sobre a cama e se ergueu irritado a resmungar. “-Não se pode mais dormir em Erebor, de certo que terei de dormir no sul de Esgaroth, onde esse maldito barulho não há de chegar.” Pensava o rei enquanto trançava o cabelo e a barba.

Depois de vestir-se, e ainda conservando expressões carrancudas, Thórin deixou seus aposentos na direção da grande Câmara de Thrór. Era provável que os velhos conselheiros e comandantes dos exércitos estivessem ali, deleitando-se de pães e bolos fresquinhos, e conversando sobre todo tipo de assunto, desde os mais banais, aos mais necessários. Pelos corredores não havia nenhum movimento, nenhum nobre ou conselheiro caminhando apressado, os únicos que ali estavam eram os guardas, que apenas se curvavam e afastavam as archas ao passar do rei. Ao se aproximar das portas para a Câmara, o som de grossas vozes já era ouvido, e acompanhando as falas, muitas gargalhadas. Thórin só conseguia pensar em como conseguiam estar tão animados com tanto barulho logo de manhã.

As portas foram abertas, e sem demora o filho de Dáin colocou-se para dentro. As gargalhadas cessaram e as conversas idem, todos se curvaram e Thórin apenas lhes mostrou um sorriso falso, caminhando na direção de sua altiva cadeira. Quando o anão sentou-se e se serviu de dois pedaços de pão e um naco de carne, ouviu-se lá de fora um grande estrondo. Todos se assustaram, e sem demora deixaram o lugar com olhares de espanto. Thórin mordeu o pequeno sanduíche que havia feito e sem mudar a expressão, ergueu-se e caminhou até o mercado, de onde viera o barulho.
Muita gente se avolumara por ali, soldados, capitães, comandantes, conselheiros e vários dos cidadãos de Erebor. Tratava-se de uma carroça de mudanças, as cordas que a prendiam ao lombo do pônei se soltaram e tudo caiu ao chão de uma só vez. Os guardas abriram caminho para o rei e Thórin se aproximou com seu ar altivo. O velho anão tentava sem sucesso apanhar tudo que havia caído e lamentando-se erguia alguns caixotes.

-Bom dia Senhor!- Disse o Rei.- Estás bem?

O Anão se espantou ao ver a figura de Thórin tão próxima de si e com os olhos assustados se curvou dizendo:

-Oh sim meu senhor, muitíssimo bem, obrigado por perguntar.
-Me alegro em saber. - Respondeu Thórin. - Vejo que não sois de Erebor, vens de onde?
-Oh, sim meu senhor... Er... Quero dizer, não... Sou das Colinas de Ferro.- Respondeu o anão.
-Interessante, muito mesmo. - Disse Thórin - E como te chamas?
-Drár meu senhor, filho de Drór. - Respondeu o anão.
-E o que o trás a Erebor Drár, filho de Drór? -Perguntou o Rei.

O anão se entristeceu, abaixou a cabeça, apanhou algumas tralhas quebradas e respondeu ainda de cabeça baixa.

-Não suportei mais a humilhação, meu senhor. - Disse Drár. - Depois da partida de nosso senhor, vieram os orientais, e as Colinas são deles agora.

Thórin arqueou as sobrancelhas alisou sua longa barba e notou nesse instante que os velhos conselheiros e comandantes já cochichavam entre si.

-Isso não é possível Drár. - Disse o rei. - Corin não aceitaria tamanha afronta sem lutar.
-Corin não está nas Colinas meu senhor. - Respondeu Drár. - Partiu ao lado de outros anões na direção de Khazad-Dûm e não retornou, temo que tenha perdido a vida naquelas minas amaldiçoadas...

-Não posso crer! Disse o velho conselheiro Hór. - Não nos chegou um só mensageiro.

-Não sairia vivo das Colinas meu senhor. - Respondeu Drár.

-Estás dizendo que invadiram as Colinas de Ferro e tomaram posse? -Perguntou o Comandante Haugspori.

-Sim meu senhor, não houve luta. - Respondeu Drár cabisbaixo. - É vergonhoso, mas nós éramos poucos, e não queríamos nossas mulheres e crianças mortas.

-ISSO É INACEITÁVEL! -Gritou o velho Comandante Hornbori.

-DEVEMOS REAVER AS COLINAS DE IMEDIATO!- Gritou Draupnir!

-Acalmem-se senhores. -Disse Thórin. - Não vamos tomar nenhuma medida de ímpeto. Se reúnam na Câmara de Thrór.



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Thórin III
Posted: Dec 13 2008, 02:26 PM


Rei Sob a Montanha em Erebor


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Salões de Thórin.
Câmara de Thrór.
Manhã em Erebor.

Pelas escadarias de Erebor, na direção da grande Câmara de Thrór, todos os altivos senhores caminharam. As palavras de Drár foram terríveis, e todo o reino parecia já estar sabendo, a notícia correu rápido pelos túneis e a agitação já era sentida. Gritos exaltados e vozes raivosas tornaram-se comuns em cada corredor. Até mesmo nas minas alguns já comentavam sobre o ocorrido. Tamanha afronta não se ouvia dizer desde o anúncio de que os Orientais haviam cruzado o Carnen em 3019. As portas do palácio foram fechadas, e a Câmara de Thrór se encheu como nunca. Os velhos conselheiros estavam todos ali. Até mesmo os mais idosos compareceram, apoiando-se com dificuldade em suas bengalas de madeira polida. Estes falavam pouco, e ouviam menos ainda.

Os comandantes militares, desde os responsáveis pela segurança das minas até os guardiões das fronteiras, ouviram logo as notícias e partiram sem demora para o palácio. Naquela hora da manhã, no entanto, alguns conselheiros não se encontravam na montanha, e um dos mais famosos, Virvir, se encontrava distante, ensinando os jovens aprendizes tanto de Erebor, quanto da cidade dos homens, que vinham muito à Montanha em busca de antigos conhecimentos. O início daquilo que parecia um dos famosos Conselhos de Guerra, era urgente, e Thórin já sentia que os ânimos esquentavam a cada minuto que se passava como as forjas ao amanhecer. Aguardar que os mestres todo chegassem não seria nada aconselhável, e faltavam tão poucos, que talvez fizessem pouca falta, seriam apenas algumas vozes a mais para completar o coro de revoltos senhores. O rei se ergueu de sua cadeira, caminhou a passos largos entre os outros anões e ao se aproximar de um dos guardas diante das portas, lhe falou baixo:

-Manda chamarem Virvir o quanto antes, diga que é urgente.

-Sim meu senhor. - Disse o Guarda.

Os ruídos de potentes, roucas e ferozes vozes ecoavam por toda a câmara e provavelmente por todos os corredores e salas. Nada se comparava ao som de uma reunião de anões irritados: nenhuma palavra poderia ser distinguida, pois em cada pequeno grupo a discussão era diferente da outra. Porém algo estava claro: boa parte dos senhores presentes desejava uma atitude severa em relação ao terrível ocorrido nas Colinas de Ferro, enquanto que alguns, bem poucos, julgavam desnecessário interferir. Thórin sabia que não realizaria a vontade dos mais inflamados, ou não da forma que desejavam, e com calma retornou à sua cadeira, sentou-se confortavelmente repentinamente gritou:

-SENHORES!!! UM POUCO DE PACIÊNCIA, PEÇO-LHES! Sabem que não adiantará discutirmos aqui de forma tão explosiva...

-Meu senhor! Nos tempos de Dáin essa ofensa jamais seria tolerada. - Disse Hornbori.
-Oras! Duvido muito que o nobre rei Dáin agiria de forma impensada em uma hora como essa!- Disse Hór o conselheiro.
-Não há dúvidas mestre Hór, todavia uma atitude Dáin tomaria, pois injusto ele jamais fora. - Acrescentou Haugspori.
-Faço minhas as palavras de meu pai. - Disse Ginar. - Devemos agir meu senhor, essa afronta não pode ser tolerada.
-Devemos atacar as Colinas e eliminar de uma vez por todas esses ratos imundos. - Disse Draupnir. - Não é de hoje que meu machado deseja vingança pela afronta de três mil e dezenove.
-Ouso dizer que é hora de finalmente reunirmos exércitos e partirmos contra essa corja, talvez seja hora de agirmos como os bravos que foram cremados depois de Azanulbizar... Livramos-nos dos orcs, é hora de nos livrarmos dos orientais. - Disse Hornbori.
-Só falta dizerem que desejam reunir as sete casas?- Perguntou Hór em tom de zombaria.
-Se nosso senhor assim quiser, envio mensageiros hoje mesmo aos reinos amigos. - Disse Hornbori. - Tenho certeza de que ao menos algumas casas nos responderão.
-Sim, como nos tempos de Thráin, nosso senhor como representante do mais velho dos pais anões tem o direito de convocá-las. - disse Draupnir.
-E elas hão de responder!- Completou Haugspori.
-Senhores! Pelas barbas de Durin! Não podemos agir dessa forma. - Falou Thórin com autoridade. - Nem apuramos as palavras de Drár, não sabemos o que houve.
-Sábias palavras meu senhor, sábias palavras. - Disse Hór.
-Tenho certeza de que Dáin não aceitaria tamanha afronta, com certeza enviaria tropas contra os orientais. -Disse Hornbori.
-Talvez mestre Hornbori, talvez... Mas meu pai era sábio e ponderado, duvido muito de que atacasse um reino da noite para o dia, e além do mais, nosso senhor Dáin não está mais entre nós, o rei de Erebor é Thórin III filho de Dáin, filho de Náin!- Falou Thórin de forma severa.
-Perdoe-me meu senhor. - Disse Hornbori ao se curvar.
-Não por isso mestre Hornbori. Compreendo cada um de vós que aqui estão... Nosso povo sofreu uma afronta terrível, e não poderemos aceitar isso. Concordo com as palavras de Hornbori, de Haugspori, de Ginar, de Draupnir e de tantos outros, mas também concordo com o nobre Hór. Devemos agir de maneira pensada.

Thórin levou as mãos até sua volumosa barba, acariciou-a de leve, e andou novamente entre as mesas e cadeiras onde todos os anões convidados o olhavam atentos, aguardando o que diria.

-Enviarei mensageiros às Colinas de Ferro, ainda hoje, e eles intimarão qualquer Oriental que lá estiver a deixar os salões daqueles montes por ordem do Rei de Erebor... Também enviarei alguém à Moria, para buscar Corin das Colinas e talvez envie emissários ao reino dos orientais, para lhes informar que de hoje em diante as Colinas de Ferro estão sob proteção do Rei de Erebor.

Os burburinhos recomeçaram sem ao menos aguardar por qualquer palavra que talvez ainda viesse dos lábios do rei, mas ao menos agora eram menos alterados. Thórin voltou a se sentar, e por alguns segundos apenas ouviu os comentários que lhe chegavam aos ouvidos, em meio a tantas palavras difusas. Aquela decisão havia sido de certa forma precipitada, mas talvez não houvesse outra maneira de resolver todo aquele problema de maneira acertada. O envio de emissários ao reino dos orientais poderia ser visto com raiva pelos povos daquelas terras, mas o medo não habitava o peito dos povos de Durin naquele momento. Todos se sentiam aliviados ao saber que a afronta teria resposta. A maioria ainda desejava ver as tropas de Erebor marchando contra cada cidade do leste, levando aos povos inimigos justiça e vingança, mas ainda assim, havia aqueles que sabiam que uma medida tão severa não causaria desgraça apenas aos inimigos.

Enquanto a reunião prosseguia, ainda que em menor grau de agitação, um dos soldados corria pelas escadarias, corredores e salões na direção do grande Portão Frontal. Virvir ainda devia estar distante, pois em suas saídas costumava não levar menos que quatro horas para retornar. Mas o anão foi rápido em sua corrida, e do portão correu ainda mais seguindo o curso do Rio Corrente até seu meio, onde pode enfim avistar o grupo de aprendizes que estavam acompanhados pelo velho conselheiro. O anão caminhou lentamente até o senhor, curvou-se em sua presença e sem delongas falou:

-Meu senhor! O rei mandou chamar-lhe e disse que é urgente.

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Virvir
Posted: Jan 31 2009, 12:34 AM





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Erebor.
Portão Frontal.
10 horas da Manhã.


O sol já não tardaria em alcançar o centro do azul céu que embelezava aquele dia. Poucas nuvens podiam ser vistas, a maioria delas quase apagadas, meros e singelos riscos brancos naquela imensidão. O frio da manhã já cedia espaço ao calor dos raios solares que tocavam o chão e a montanha, e aqueceria tudo por ali até que a noite cobrisse o céu de estrelas. Mas o vento não se dissipara totalmente, ainda podia ser sentido nos cabelos e na longa barba de Virvir que era soprada ao seu passar. O velho mestre anão observava de longe seus aprendizes a procurar na fina grama, nas flores e pequenos arbustos qualquer inspiração para seus trabalhos. Ali estava o futuro do povo de Durin, pois mesmo que fora de seus reinados, a arte e a maestria dos anões estaria assegurada em mãos jovens e capazes de transmiti-las a outros pelos anos que viessem.

-Lembrem-se ainda terão muito a aprender com Nyrath, o que pedi foi para que encontrem inspirações. -Disse Virvir ao fitar um dos jovens vindos de Valle. - Mas essas inspirações não devem ser muito trabalhosas, não nesse primeiro momento.

O ancião franziu o cenho, arqueou uma de suas volumosas sobrancelhas e com um meneio de negação disse:

-Meu rapaz, eu não sei como apanhastes esse tordo, tampouco sei se ele será vossa inspiração, mas antes que ouses colocá-lo no bolso, ordeno que o soltes.

Enquanto mantinha-se olhando fixamente e de maneira severa ao rapaz, o aproximar de um soldado pode ser facilmente notado. Era um dos soldados de Erebor, e sua presença ali àquela hora do dia e de forma tão apressada não era o que se podia classificar como normal, ou ao menos, assim concluiu o mestre anão. Virvir levou seus dedos à barba, e como de costume alisou-a enquanto aguardava a aproximação do guarda. Com uma de suas mãos delicadamente colocada às costas, o idoso anão caminhou de encontro ao senhor que vinha. O soldado pareceu um tanto quanto fadigado, com certeza havia saído apressado da montanha, e por certo seus motivos eram verdadeiramente sérios. Assim que o anão se curvou, o velho mestre repetiu o gesto e ouviu as palavras do outro ainda alisando os fios da barba. “-Faz algum tempo que não me chamam com urgência- Pensava Virvir enquanto observava as poucas nuvens no céu. - Algo de mal parece estar por vir, se não mal, preocupante com certeza...”

-Vá à frente e informe ao rei que estou a caminho. - Respondeu o velho anão. - Não garanto que chegarei rápido, pois mesmo tentando ser ligeiro, a idade não me permitirá.

O tão comum e sereno semblante do anão havia desaparecido, dando lugar a uma expressão de apreensão. Virvir permaneceu por mais alguns segundos observando as nuvens e olhando tudo a volta. Há pouco aquele chão estivera encharcado de sangue, armas e corpos por toda parte. Do Carnen ao Rio Corrente a desgraça correu apressada e sem freios. Os corredores de Erebor se encheram de batalhões armados e as ruas de Valle jamais estiveram tão cheias de soldados. A guerra havia chegado e a paz foi banida sem esperanças de retorno. Grandes senhores se preparam para a batalha anunciada, e com bravura conduziram aqueles que seriam futuramente chamados de heróis, mas claro que isso embora pudesse parecer glorioso, era lamentável. E algo semelhante parecia estar prestes a acontecer. Talvez não passasse de um pressentimento, um temor ou idéia errônea, mas o coração do velho se tornara inquieto, temeroso de que aqueles dias de tranqüilidade e prosperidades dessem lugar a dias de pavor e desgraças.

-Senhores! Devemos retornar à Montanha, assim que chegarmos aos salões internos, podem se dirigir imediatamente para a oficina de Nyrath, pois ele já vos aguarda.

Uma fila foi logo formada, e todos partiram de volta a Erebor. O retorno fora breve em relação à saída, mas ainda assim demorado, ao tempo de Virvir. Pelos corredores e escadarias a fileira de jovens se encaminhou, até que mestre e aprendizes finalmente se separassem.

-Nos vemos em breve, vou assisti-los com Nyrath hoje. -Disse o velho anão ao se despedir.

Os meninos sorriram, e apressados seguiram pelas escadarias a caminho da oficina do mestre da forjadura.

Virvir era encarregado de ensinar velhas tradições aos jovens, mas eram ensinamentos breves se comparados às lições referentes à arte de esculpir, lapidar ou forjar, tais aprendizados levavam anos e anos, mas mesmo que o tempo dos jovens ao lado de Virvir fosse curto o mestre nas tradições era sempre visto por aqueles que haviam sido alunos seus, e muito respeitado em todo reino. Era provável que não possuísse nem ao menos um desafeto, já que até mesmo os mais travessos aprendizes lhe dedicavam grande consideração e agiam sempre com cordialidade.

Degrau por degrau e com certa dificuldade o velho conselheiro dirigiu-se para a tão conhecida e atualmente agitada câmara de Thrór. Os corredores do palácio do rei não estavam cheios naquele dia, como se todos os comumente vistos conselheiros, comandantes militares e demais servos de Thórin houvessem deixado o lugar. Mas o som de vozes exaltadas, alguns xingamentos e clamores pelos Valar eram de longe ouvidos, ecoando em alto e bom som pelos corredores e salões por onde caminhava Virvir. O anão meneava a cabeça em desaprovação, sabendo que provavelmente tanto estardalhaço não haveria de ter um bom motivo. No entanto, os anos de experiência que possuía o ancião lhe ensinaram que o espírito dos filhos de Durin era duro como a rocha de Erebor, e às vezes violento, mas jamais sem motivos, por menores e mais banais que fossem. Estava claro na mente do senhor que algo estava errado, alguma coisa, fosse situação, ameaça ou fato, algo acontecera em Erebor naquela manhã e agitava os ânimos.

Duplas de sentinelas guardavam as passagens da casa do rei como sempre, e com suas archas em mãos faziam com que qualquer um que ousasse entrar sem convite fosse parado logo na entrada, mas assim como a hostilidade existia com afinco para os desconhecidos, a gentileza era regra para com os amigos do filho de Dáin. Virvir tinha livre passagem por cada canto do palácio, e por onde andava as archas se erguiam dando-lhe passagem imediata, e em retribuição um aceno e um cumprimento sempre partiam do velho anão para com os guardas reais. O ancião se aproximava da grande câmara, e do lugar onde estava ouvia claramente as reclamações de Haugspori e Hornbori, comandantes antigos que serviram a Dáin, e também pode notar as considerações de Hór que tentava frear o impulso dos militares. Mais uma vez Virvir gesticulou de forma contrariada e ao erguer das archas dos guardas da porta, entrou na sala já a procura de Thórin.

A passos lentos e arrastados, o anão caminhava erguendo o pescoço vez ou outra em meio aos comandantes, até que avistou o rei, sentado em sua cadeira, apenas observando as discussões que se formavam nos pequenos grupos por todo o lugar. Virvir se aproximou de Thórin, abaixou-se até onde as costas lhe permitiram e disse com sua voz fraca e parcialmente rouca:

-Meu senhor! Chamaste-me com urgência e aqui estou. Em que posso servi-lo?

Um leve sorriso se formou nos lábios de Virvir, sob seus grossos e brancos bigodes, e ternamente o senhor fitou Thórin esperando que a resposta para sua pergunta fosse logo dita. O barulho causado pelos convidados para aquela reunião era perturbadores, e mesmo os mais calmos ali presentes pareciam indignados com alguma coisa. Não levou muito para que uma das conversas chegasse aos ouvidos do conselheiro “-Quer dizer que as Colinas estão em posse dos orientais? - Concluiu Virvir. - Isso por certo justifica todo o alvoroço.”
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Thórin III
Posted: Feb 11 2009, 07:57 PM


Rei Sob a Montanha em Erebor


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Erebor.
Mausoléu dos Reis.
10 horas da Manhã.

Thórin até aquele momento estivera sentado em sua cadeira apoiando a cabeça em seu braço esquerdo, aparentando grande descrença pelo que via ou talvez um pouco de sono. As vozes dos comandantes e conselheiros ecoavam por toda a câmara, alteradas e furiosas às vezes. Àquela altura muitos dos anciãos de todo o reino haviam sido chamados, bem como quase todos os oficiais de Erebor. Drár o anão vindo das Colinas de Ferro fora levado à Câmara de Thrór e perante todos, sentado em uma cadeira ao fundo da sala, deveria relatar sua história, todavia, para isso era necessário que Thórin desse início ao conselho de guerra que se formara.

Entre discussões e outras conversas mais, o rei ouviu a tranqüila voz de Virvir a lhe falar, e naquele momento, ainda que por uma pequena fração de segundos, sentiu-se aliviado. Com certeza a sabedoria do velho conselheiro iluminaria a mente de todos aqueles que se moviam em nome da ira ou da vingança, guiando-os pelo caminho mais acertado o da razão.

-Virvir, pelas barbas de Durin!- Exclamou o rei ao sorrir. - Os Valar lhe trouxeram até minha presença.

Thórin se ergueu do trono e se aproximou de um dos conselheiros dizendo baixo:

-Preciso falar com Virvir por um instante, assim que eu deixar a câmara, diga aos demais que não me demoro.

Com ar de apreensão o rei acenou ao conselheiro para que o mesmo lhe acompanhasse e partiu dali apressado, sem muito considerar a lentidão do velho Virvir que lhe seguia a passos lentos, arrastados pela idade. Já no caminho para o interior daquele palácio o anão diminuiu a pressa de seu caminhar tomando o ritmo de Virvir, e juntos puderam prosseguir a caminhada, que parecia ser longa.

-Já sabes para onde vamos não?- Perguntou Thórin em voz baixa. -Tenho certeza que sim.

A casa do rei foi logo deixada para trás, e por longos caminhos ambos os anões caminhavam, desciam escadarias e atravessavam extensos corredores, onde a escuridão se tornava cada vez mais forte, resistindo até mesmo à luz de algumas tochas dispostas pela estrada. Daquele ponto onde se encontravam rei e conselheiro, estava uma antiga passagem que os levaria às mais antigas e profundas minas. Thórin apanhou na parede uma tocha que parecia estar preparada para aqueles que ousassem adentrar a escuridão e sem demora entrou no escuro túnel de rocha bruta. O ouro daquelas galerias havia se findado e as poucas aberturas e passagens que davam acesso àquelas minas foram lacrados há séculos. O chão era firme e pedregoso, diferente dos corredores dos níveis acima, onde era tudo reto e polido.

Ao final do túnel de acesso às minas, havia outra passagem de chão lapidado e liso, onde as paredes pareciam finamente entalhadas. No entanto este lugar era ainda mais escuro e silencioso, porém não era longo, terminava em uma escadaria em espiral que aparentava não ter fim, e foi ali, por onde desceram os dois anões. Ao final da longa escadaria, se abria um gigantesco salão apoiado em robustas pilastras ornadas com alguns desenhos. Entre cada uma das muitas colunas e com olhos inexpressivos, guardavam o caminho solitárias estátuas de antigos reis de Erebor, muitos já esquecidos no tempo. Com a crepitante chama de sua tocha, Thórin acendeu os archotes dispostos a frente das colunas próximas do caminho que seguia até outra porta que havia em seu final.

Ao caminhar lentamente até o final do corredor, e com o auxílio da claridade da rocha, por poucos segundos o rei observou a última estátua que ali estava colocada, já bem perto da porta. Tratava-se de seu pai, Dáin, filho de Náin.

Os cabelos de Dáin, rigidamente esculpidos tornavam a estátua quase viva, como se o escultor houvesse feito fio a fio até formar as tranças do último Rei sob a Montanha. Seu olhar imperioso e ao mesmo tempo austero e justo foram lindamente imortalizados na pedra. Thórin analisou brevemente a barba e o bigode da representação de seu pai, presos em anéis que receberam até mesmo os detalhes do símbolo de Durin. Aquela obra era quase perfeita, cortada em tamanho natural, seria como ver o próprio rei, se não fosse a frieza e indiferença da pedra, totalmente desprovida de vida, capaz apenas de perpetuar a antiga forma de Dáin, até que o tempo ou qualquer acaso do destino se encarregasse de quebrá-la, reduzindo aquela lembrança a pedaços de rocha e pó.

Assim que atravessou a porta a frente, com a ajuda da luz bruxuleante das chamas nos archotes acesos, e da tocha que segurava, o grande Mausoléu dos reis pode ser contemplado em toda a sua peculiar grandiosidade silenciosa. Ali jazia o grande Thórin II Escudo de Carvalho desde o seu falecimento em 2941 e o nobre Dáin II Pé de Ferro, que ali estava desde 3019. Aquele lugar triste e solitário havia sido lapidado após a morte de Thórin II, ganhando colunas retas e entalhes, assim como paredes repletas de runas, onde a história dos senhores de Erebor podia ser lida e sua glória contemplada, ainda que apenas nos caixões que carregavam em seu interior os corpos daqueles tão honoráveis senhores da montanha.

Antigos reis como Thráin I, Thórin I, Glóin, Óin e Náin II, assim como de valorosos heróis como, Fili, Kili, Bombur, Bifur, Bofur, Dori e Nori também foram depositados ali, um prêmio justo, em homenagem aos seus feitos no passado. A bela câmara era uma amostra da habilidade e da perícia dos filhos de Durin em relação aos trabalhos em rocha, mas não era imponente ou suntuosa como os palácios dos níveis superiores, ainda que talvez fosse bela aos olhares mais sensíveis, mas os demais veriam com certeza apenas a morbidez do repouso final dos ilustres anões ali presentes, deitados em seus caixões de pedra, no eterno repousar de seus ossos.

Thórin cruzou os dedos sobre a barba e tornou-se triste ao caminhar em direção ao esquife de Dáin. O peso de toda a montanha parecia agora refletido no olhar tristonho do anão. O rei não derramara nenhuma lágrima embora às tristezas em seu peito pudessem se converter naquele instante em prantos, prantos em honra de uma perda irreparável não somente para si, mas para todo um povo.

-Seria tudo mais fácil se ele estivesse aqui. - Disse Thórin a Virvir. - Sua sabedoria e infindável senso de justiça teriam solucionado a crise que se abatera sobre Erebor.

O lorde anão desviou levemente os olhos, vislumbrando o caixão de Thórin II e a espada que brilhava com a luz do fogo dos archotes.

-As Colinas estão sobre julgo dos orientais. - Falou Thórin ainda a observar a tumba ao lado. - Todos parecem desejar a guerra, sem se lembrarem por um só momento as conseqüências devastadoras que ela trás consigo...Creio que eles querem ver surgir em mim a fúria de Thórin Escudo de Carvalho...

O Rei pousou suavemente as mãos sobre a tumba de seu pai e fitando Virvir com seriedade prosseguiu:

-Não pretendo provocar uma nova guerra meu caro conselheiro, não arriscarei a prosperidade desse reino se houver uma maneira menos desastrosa de solucionar este problema. E foi para isso que eu o trouxe aqui.

O filho de Dáin parecia já ter tomado a decisão sobre o que ocorria em Erebor, e era provável que o velho conselheiro já tivesse concluído por si só o que pretendia seu senhor ao dizer aquelas palavras. O espírito rochoso dos filhos de Durin e seu orgulho imenso eram verdadeiros problemas em situações como aquela. Uma afronta cometida, uma mágoa instalada, uma vingança prometida uma guerra preparada, ou ao menos assim deveriam ser as coisas, mas o rei da Montanha ponderava sobre outras questões, mortes, perdas, sofrimento, caos, desgraças e tudo o mais que uma guerra traria até as portas de Erebor. Era preciso encontrar uma maneira eficaz de solucionar a crise, sem despertar ainda mais fúria por parte dos raivosos senhores que discutiam na Câmara de Thrór, e em Erebor poucos teriam capacidade para tal missão, Virvir era um dos melhores conselheiros, e talvez fosse o único com a sabedoria suficiente para contornar o problema da melhor forma possível e cabível em terras de culturas diferentes.

-Quero que tu partas o mais breve possível para o leste. -Disse o rei com frieza. -Procure saber qual desses miseráveis orientais ousou invadir o antigo lar de Grór e veja se consegue um acordo com essa gente imunda... A não ser que eles não cedam em nada, vamos impedir que uma guerra tenha início.

Thórin se afastou da tumba, e pousou suas pesadas mãos sobre os ombros de Virvir com um largo e terno sorriso em seus lábios quando disse:

-Tu és minha única esperança Virvir, tu foste um dos mais fieis amigos e conselheiros de meu pai, e é meu mais fiel amigo, o futuro de nosso povo está em vossas hábeis mãos e em vossa indiscutível habilidade com as palavras... Leve o tempo que precisares para ir, mas não te demores, não sei por quanto tempo conseguirei conter a ira de Haugspori ou o desejo de Vingança de Hornbori.

Ainda que apenas por um instante, foi como se o próprio Dáin, tivesse estado ali presente, não em forma física, mas sim em espírito, sua forte presença e sabedoria pareceram inundar a tumba.


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Virvir
Posted: Apr 19 2009, 04:30 PM





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Com os olhos rasos, e preocupação evidente em seu olhar... Virvir fitou o rei por longos minutos. A escuridão da tumba, o silêncio mórbido dos reis em descanso eterno, e a imperiosidade daquelas paredes o faziam refletir sobre tudo o que havia vivido. Durante tantos e tantos anos os filhos de Durin haviam se firmado como poderosos senhores em toda a Terra Média. Das altas montanhas do norte, onde reinou Dáin I, das montanhas ao distante leste, lar dos Barbas de Fogo e Vigas Largas até Khazad-Dûm perdida em sombras, e rumo aos longínquos e já praticamente esquecidos reinos do sul, os anões foram conhecidos.

No entanto, muitos reis haviam tombado, e cidades foram destruídas ou severamente castigadas pelo fogo de dragões, como a besta Smaug... E ainda ocorreram as guerras. Oh! As guerras! Tão ruinosas aos anões em toda a sua história. Rumores chegaram do oeste no passado, histórias certamente verdadeiras, e que se tornaram poesias muitas vezes, canções e lendas, e em um caso ou outro, lamentavelmente reduzidas apenas a mitos de reis mortos, de povos irados e de amizades desfeitas em nome da cobiça. As guerras não perdoaram Erebor desde que o reinado sob a montanha fora criado, e novamente batia às portas da Montanha, pois aquela morada dos anões ainda não estava livre dos perigos sempre eminentes aos povos honrados.

Virvir sentiu em si próprio o peso da coroa de Thórin, coroa essa que simbolizava não apenas o poder sobre o trono de Erebor, mas toda uma linhagem de reis que vinham de tempos já não mais lembrados, a não ser, nos poucos pergaminhos e outros escritos salvos do fogo da Ruína de Durin. Thórin III era o senhor de todo um povo e seu poder deveria ser irmão da sabedoria, para que não de forma torta, conduzisse a raça pelos melhores caminhos. Se a guerra chegava, naquele momento deveria ser refreada, não por covardia, essa idéia era inconcebível, mas por sensatez. E se a ele a tarefa de arquitetar os meios para isso fora confiada, não haveria melhor meio de agir que colocar em prática os planos do rei, e da melhor forma possível tentar corresponder às suas expectativas e à confiança depositada em si.

Infortunadamente Virvir sentiu que Se tornara um fato que seus pressentimentos estavam lastimavelmente corretos. A guerra pesava no ar e poderia cair em Erebor como uma chuva terrível e devastadora. –Assim Pensava o conselheiro em silêncio – O velho senhor abaixou a cabeça, alisou os fios do alvo bigode e tornou a olhar ao rei com certo pesar sobre as pálpebras já enrugaras. O destino novamente seria medido em uma balança de pesos não conhecidos, e talvez o resultado não fosse bom para nenhuma das partes interessadas, e foi assim pensando que o ancião respondeu ao lorde:

-Meu senhor, é triste que estejamos novamente ameaçados por uma tão conspícua guerra, e tenha certeza de que eu farei o que puder para evitá-la... –Virvir fez uma leve pausa, enquanto parecia refletir, mas logo deu seqüência ao que dizia: – Tentarei resolver alguns assuntos urgentes nestes dias, mas é provável que em uma semana eu já esteja partindo.

Os assuntos do ancião não eram grandes ou importantes, devia algumas moedas de ouro a um comerciante de tecidos, um ou outro saquinhos de ouro ao comerciante de papel, pois era adorava escrever, e, além disso, deveria se despedir dos conhecidos e enfim deixar Erebor a caminho dos desconhecidos reinos no leste. Virvir andou alguns passos à frente, caminhando na direção do repouso final de Thórin II, alisou levemente o esquife de pedra, e direcionando seu olhar ao mesmo e em tom de lamento, como se divagasse para si, ignorando a presença do filho de Dáin, disse:

Triste são os dias de sombra e de guerra.
Sopra o vento que na montanha se quebra.
Vem a má sorte e consigo a perda.
Sopra distante a morte na terra.

Caminhamos sem medo.
Sem temer a verdade.
Caminhamos Valentes.
Sem temor das desgraças.

Que soprem os ventos.
Que caiam as chuvas.

No ontem, caíram nossos reis.
No hoje, se ergueu outro senhor.
O amanhã virá assim glorioso em grande louvor.
E assim em guerra ou em paz, não haverá pavor.

A montanha não se enverga.
O rei não há de tombar.
O machado é forte e não vai se quebrar
Assim foi no passado e assim sempre será.

Que soprem os ventos.
Que caiam as chuvas.


O conselheiro sorriu ao concluir seus versos, e caminhou então na direção da saída da tumba dizendo baixo:

-Vamos meu senhor, deixa que os mortos descansem.

Virvir não poderia transmitir ao rei seus reais temores, de maneira alguma, Thórin já teria de travar uma guerra com seu conselho na Câmara de Thrór, guerra essa que seria violenta, (ainda que verbalmente falando.) se o gênio de alguns comandantes fosse considerado. O ancião sabia que grande parte dos militares de Erebor, ao saberem do ocorrido nas Colinas de Ferro, desejariam mais que tudo que tropas fossem enviadas de imediato. É que o calor do orgulho ferve rápido o sangue dos anões, inflamando assim seu espírito, e a razão é presa a ferros, bem fundo em suas mentes. Mas em seus pensamentos não cabiam apenas preocupações, novas ou velhas, o conselheiro também pensava sobre como seriam as terras ao leste... Oh! Sim, se havia em todo o reino alguém curioso e desejoso de explorar o desconhecido, com certeza Virvir era um dos desses. Mesmo estando seriamente pensativo sobre tudo o que lhe fora dito pelo rei, não conseguia desviar de sua mente as maravilhas que teria a oportunidade de conhecer, pois se os orientais eram por vezes selvagens, com certeza eram também diferentes em tudo, principalmente na cultura, e isso o velho anão desejava muito poder ver de perto.
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Thórin III
Posted: Jun 24 2009, 12:51 AM


Rei Sob a Montanha em Erebor


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Com pesar o anão caminhou para o grande portal que separava o corredor das estátuas donde jaziam as tumbas, olhou brevemente o caixão de Dáin, e amassando com os dedos a barba, fechou com força as portas atrás de si enquanto seguiu os passos de Virvir à superfície. O som do sopro de um vento gélido percorreu aqueles túneis, como um presságio de fatalidade, mas como um aviso dos Valar de que a sorte estava lançada, e não traçada, o coro de anões deu sinal de retorno ao trabalho. Gritos vibrantes, sinos e flautas foram ouvidos. Era a grande mina do Salão norte que naquela manhã seria reativada, após meses de árduo trabalho de melhoramentos em suas paredes rochosas. Bravos anões... Esperança de uma raça dura, percorriam as veredas incrustadas na pedra, e seus passos fortes e o tinido do metal socando a chão de longe ecoaram, poderosos e firmes. Os carrinhos, um a um, eram empurrados túnel adentro. E dos salões superiores uma marcha os seguia. Fileiras de anões de todas as idades, e com eles tambores eram batidos ao passo que alguns flautistas embalavam sua canção, fazendo-a menos carregada.

♪♪ Cantando o dia inteiro essa pedra eu vou furar
Cavando dia e noite um dia rico eu vou ficar
Cantando o dia inteiro nessa mina eu vou ficar
Cavando dia e noite um dia rico eu vou ficar
E cavar, E cavar E cavar...

Para uma pedra achar!!!!

Cavando dia e noite um rubi a procurar
Na pedra bem fendida um diamante a repousar
Cavando dia e noite uma esmeralda a procurar
Na pedra bem fendida uma opala a repousar
Cantando noite dia um berilo a procurar
E cavar, E cavar E cavar...

Para o rei sob a montanha agradar!

Cantando o dia inteiro essa pedra eu vou furar
Cavando dia e noite um dia rico eu vou ficar
Cantando o dia inteiro nessa mina eu vou ficar
Cavando dia e noite um dia rico eu vou ficar
E cavar E cavar E cavar...

Para os cofres rechear!

Cavando dia e noite um cristal a procurar
Na pedra bem fendida um topázio a repousar
Cavando dia e noite boa prata a procurar
Na pedra bem fendida ouro puro a repousar
E cavar E cavar E cavar

Para bela gema achar !♫♫


Thórin alegrou-se ao ouvi-los. Desejou em seu íntimo estar lá em cima, para acompanhar as saudação das mulheres, e a bênção de um mestre nas tradições antigas, que haveria de cuidar para que a boa sorte acompanhasse o caminhar dos mineiros e pedreiros. Mas ainda que não pudesse, seus cantos transmitiram alegria ao rei. Aquela era sem dúvida uma mensagem do próprio Mahal, não poderia existir afirmação mais forte que o som daquelas grossas vozes, que embora não claramente, diziam estarem prontos para qualquer coisa. Erebor jamais tombaria enquanto houvesse os filhos de Durin, e se fosse aos pés das colinas ao leste que sua sorte iria mudar, que logo isso começasse.

O interrogatório de Drár durou toda a manhã e tarde, e não foi simples conter a fúria de Haugspori, no que o anão do nascente descrevera as punições para os que não aceitaram o domínio dos senhores do sul. “-Pelas barbas de Durin! Arrancarei com minhas próprias mãos as cabeças desses porcos!”-Dizia o comandante já tomado pela fúria a caminhar afoito pela sala. A ponderação de Hór não poderia acalmar os ânimos, ou moderar o ódio enraizado em suas almas. Mas Thórin não se deixaria envolver totalmente na peleja até que todas as gemas estivessem dispostas aos olhos do comprador, como diria Dáin.

-General Haugspori! Reúna as tropas de todo o reino - Disse Thórin ao erguer-se de seu trono – E Hornbori, envie agora um mensageiro às colinas com a mensagem do rei de que suspendam os trabalhos e que não arranquem um só punhado de ferro, ou cada qual sentirá o peso das mãos de Thórin. E mande que aqueles que não forem nossos, deixem sem demora as Colinas de Ferro, antes que sejam banidos contra vontade.

Estava agora claro, Erebor entraria em guerra a qualquer momento, e naquele dias melindrosos, uma mínima fagulha seria capaz de incendiar todo o palheiro com agilidade além do esperado. Aquelas vozes potentes e exaltadas saudaram o rei em gratidão pela demonstração de coragem e como se fosse já certa a declaração, os sinos do palácio ecoaram pelo grande salão onde muitos estrangeiros comerciavam, e onde Erebor apesar de atenta, mantinha o seu normal funcionamento. A apressada partida do séquito de Haugspori espalharia a dúvida em muitas mentes, pois apressado e levando consigo muitos outros, partiu para sua mansão, onde começaria a emitir as convocações.

-Meu bom Hór, leve consigo Drár das Colinas de Ferro, alimenta o pobre – Pronunciou o rei com ar de calma enquanto conselheiros lhe rodeavam - E cuida para que não adiantem a guerra antes que os machados sejam afiados.

A mensagem poderia ser de muitas formas entendida, mas, Hór havia por certo compreendido que Thórin temia que a cólera dos militares desse início ao conflito, que apesar de anunciado, poderia ainda, com a graça dos Valar, ser evitado. O medo agora se espalhava por toda a cidade, como fumaça em mina funda. Alguns mercadores vindos de terras longínquas deixaram o reino anão ainda naquela tarde, temerosos de que algo lhes acontecesse, e apavorados com os batalhões exaltados que se formavam em cada entrada, sala ou passagem soturna. Thórin por sua vez, tendo findado àquela reunião com o agrado de militares e conselheiros, recolheu-se ainda cedo, evitando para si qualquer especulação ou interrogatório de quem quer que fosse. Os planos engendrados estavam já quase em andamento, e com a partida do velho Virvir, se viesse ainda a guerra, seria esta abençoada pelo pai dos anões.

Encerrado em seu escuro aposento, em um cômodo ainda mais interno e lacrado por uma porta, Thórin se escondeu. Era uma saleta negra e tenebrosa, iluminada por duas candeias e alguns velhos candelabros onde queimavam duas velas preguiçosas. O óleo queimado era perfumado, e deixava o ambiente ébrio e tranqüilo como não parecia haver possibilidade, considerando tudo que acontecia no reino. Um altar de pedras negras se erguia, e em seu final, algumas estatuetas estavam depositadas e iluminadas pelas velas. Thórin encontrava-se vestido em trajes leves, apenas uma túnica negra lhe cobria o corpo, amarrada ao meio por um cinto de couro curtido. Com cuidado o rei se ajoelhou, e em meditação permaneceu por algumas horas.

A noite já se fazia presente quando o filho de Dáin deixou aquele cômodo, assentando finalmente em sua cadeira, frente a uma pequena mesa, onde mergulhando em um tinteiro sua pena, deu início ao labor da noite, mas não eram os costumeiros despachos, dessa vez era um livro grosso e de capa mui grossa, onde haviam tanto escritos de seu falecido pai, quanto agora os seus próprios. A paz de seus aposentos não diferia da sala onde estivera antes, apenas os ruídos de seus sapatos em atrito com o chão, ou do alisar de sua macia barba perturbavam o toda aquela falta de barulhos. Uma única vela, já pela metade, derretia-se sobre um canto da mesa, e sua fumaça subia fina e branca, enquanto cambaleante a chama iluminava alaranjado, apenas aquele espaço, sendo suficiente, e mesmo pouco, para que os papeis velhos pudessem ser lidos pelo rei, ou escritos pelo mesmo

“Dia 20 de março do 24° ano da Quarta Era do Sol.

Temo que a casa de meus antepassados esteja em novo perigo... Temo que hoje seja o início de um conflito que poderá definir todo o futuro de meu povo, mas não temo por covardia e tampouco com o medo de uma criança, que vê em sua frente algo ameaçador. Meu temor é enquanto pai. Temo enquanto responsável por toda a gente que habita estes salões.

Chegou-nos pela manhã, um velho vindo de longe. Fugiu das Colinas de Ferro, donde vivi minha infância, e onde viveram meu pai e avô, em um passado já distante e esquecido pelos homens, embora por nós esteja ainda muito vivo. Não disse em claras palavras, mas revelou-nos um grande erro. Em busca de ouro, em busca de fazer Erebor crescer, nossos olhos se viraram do leste, e nossos irmãos por isso caíram. Drár, filho de Drór é o nome do mensageiro, Emissário da Verdade mais dolorosa. Imagino que sejam esses larápios os mesmos que nos bateram às portas em 3019, quando se deu a morte de meu pai, mas não imagino o nome daquele que comanda a prole de ratos que anda de lado a lado, perseguindo e tomando o que não lhes pertence. O pobre contou-nos de mortes e terríveis sofrimentos, aos quais os nossos foram submetidos por conta de seu orgulho.

Senti-me por eles, não minto, mas fúria tal qual se fez em meus comandantes, não vi ainda. Desejei vingança, não haveria quem não o quisesse, mas meus pensamentos estavam iluminados, e consegui ver além desses termos. Mandei convocarem tropas, e ordenei que um mensageiro seguisse até o nascente, onde haverá de levar minhas palavras, e quem sabe esperança e certeza de que seu rei não lhes quer mal. É tarde, e meu corpo implora por descanso, encerro então meu registro, lastimando que seja tão pesaroso e que lastimável seja este dia encerrado, mas findo meus escritos, com esperança sincera de que o mal não predomine, e que a paz seja mantida.

Thórin III, filho de Dáin II, filho de Náin.
Rei Sob a Montanha em Erebor.
Rei dos Povos de Durin.


Enquanto a poeira se assentava para que Erebor descansasse daquele dia repleto de notícias mal quistas, o rei soprava a vela que parcamente lhe auxiliara na escrita. Mergulhou por sob cobertas e peles macias, abrigando-se do frio e embora fosse certo o mau sono, este não lhe foi totalmente ingrato, acometendo-lhe rápido, sem permitir-lhe tempo suficiente para ponderar além do necessário, no tempinho pré-desmaio. Thórin foi ainda que tarde, premiado pelo tardar do dia, que lhe permitiu paz para o corpo e para a mente, até que na manhã vindoura, raiasse o sol distante, e lhe retornassem os problemas não resolvidos.

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Thórin III
Posted: Nov 1 2009, 02:09 PM


Rei Sob a Montanha em Erebor


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Erebor.
-Salões de Thórin.
-Colinas dos Corvos.
Início da Manhã.


O Sol raiva luminoso no distante leste, rompendo por entre os montes, e secando com seu calor o orvalho da noite que havia partido amedrontada logo cedo. O som das minas era alto, e Erebor retumbava agora como um gigantesco tambor. Sons de martelos, picaretas e antigas canções daquele povo laborioso se ouviam de longe. Estava levemente fria aquela manhã, o vento norte soprava as costas da montanha como se de alguma forma desejasse vê-la envergar até encostar o chão. Os soldados na Colina dos corvos se apertavam sob as capas e estranhavam a curiosa ventania, mas não havia de se prolongar imaginavam os guardas, era apenas um vento forte que resolvera soprar da terra as impurezas acumuladas com o tempo.

Nos salões do rei, esculpidos na rocha firme, os movimentos matinais já eram aos poucos sentidos pelo transitar rápido de muitos criados, que bem dispostos se moviam de um lado ao outro, cumprindo seus deveres em diversas partes da casa de Thórin. O rei por outro lado sonolento revirava-se sob as mantas, afastava com preguiça a longa barba que babada lhe enchia a boca, e esfregava-se no travesseiro murmurando palavras desditosas, típicas daqueles que relutantes sabem que o sol já veio e que o sono não volta mais. Com os punhos serrados ergueu-se e como de costume lavou-se apressado em uma bacia prateada ali próxima. Alisava com certa paciência os fios amassados do bigode que pingando encharcavam os cachos que lhe escorriam até a levemente avantajada barriga.

Com belas tranças agora feitas e anéis a lhe adornar os cabelos, vestiu-se de modo simples, amarrando sobre a pequena túnica rubra um cinturão de couro negro que revelava uma peculiar fivela, onde sete estrelinhas de diamante brilhavam em contraste com o escuro aposento. A parca luz das velas, já fraquinha, fora soprada pelo Lorde, e este num só movimento, deixou aquele quarto caminhando sem pressa pelos corredores retos de seu palácio. Cumprimentava aqueles que via, esboçando um sorriso arregalado que lhe movia os bigodes no rosto de lado a lado. Naquele caminho já iam os sábios para junto de seus arquivos e velhos pergaminhos, e alguns militares, provavelmente esperando audiência também poderiam ser encontrados. Temendo-os, todavia, por algumas escadarias pouco percebidas por olhares desatentos, e tendo perfeito conhecimento daquelas passagens, o rei desviou-se de todos os possíveis requisitantes e partiu rumo ao portão, como se fosse um anão comum.

Se não fosse bem reparado, não passaria por rei, a não ser pela dourada coroa a lhe enfeitar a fronte, e a fivela presa ao cinto, pois era incrustada de jóias muito peculiares. A túnica aveludada e rubra, não fosse pela cor forte e os botõezinhos dourados, não era nada excepcional, muitos nobres e oficiais do exército usavam semelhantes. As botas de couro escuro, com metal bem preso as pontas, era típica daquela gente, e também não lhe entregariam. Parecia de longe um nobre apenas, e simpático apesar das expressões fortes, curvava-se perante os mais velhos, de forma que angariava por aquelas ruas a simpatia de toda a gente.

Finalmente, já distante do conselho, o Portão frontal se fazia visto. Aquelas portas traziam lembrança ao anão, algumas boas, outras carregadas de sentimentos antigos e perdas irreparáveis. Mas o brilho do sol lá fora, conforme se aproximava, era sem dúvida uma experiência capaz de aplacar as dores de um passado tão presente em tristes lembranças. As nuvens moviam-se conforme lhes soprava o vento e alguns corvos voavam por ali, talvez aproveitando o ar que os embalava como leves plumas. Valle dali já podia ser vista, crescia mais a cada dia, e a cidade dos homens também agradava os olhos do rei e enchia seus pensamentos de memórias antigas.

Os homens viviam bem menos, não eram tão hábeis quanto seu povo, assim Thórin havia aprendido toda a vida, assim falavam os mais antigos, Sábios ou mesmo um simples mineiro, mas ainda assim o anão os admirava pela força e persistência. Suas torres, muros e todo o povo ali vivendo serviam também de esperança aos anões, pois seriam com a graça de Aulë, aliados por muitas eras, tantas quantas ambos existissem.

Com os pés agora a pisar o solo externo, e mirando dali o posto de observação onde viviam os herdeiros do antigo corvo Roäc, o rei caminhou com as mãos dobradas atrás de si, fitando não só as rochas da entrada de seu reino, como também os céus e o rio que dali partia. Lá bem onde estavam aqueles soldados, uma grande vastidão de terras poderia ser contemplada, Thórin sentia falta disso, assim como de caminhar para longe do reino, ver povos diversos, ouvir sua prosa, mesmo que fosse a de um bêbado a falar palavras sem nenhuma verdade ou razão... Apenas guiado pelo vinho ou cerveja a lhe martelar a testa.

Mas tais desejos já não eram tão possíveis quando foram no passado, agora muitos estavam em jogo e mesmo naqueles curtos instantes, já eram esperadas as suas palavras lá sob a montanha. Tudo, de uma forma ou de outra, precisava do crivo real, na verdade era um fato terrível se bem pensado, nada se fazia sem que o rei soubesse, seus olhos e ouvidos estavam espalhados por cada fenda, mas muito daquilo que agora lhe servia de labor diário, poderia ser com certeza, resolvido em tempo apropriado por um daqueles tantos mestres da Montanha, senhores sem os quais o reino não brilharia como brilhava.

Seguindo naquela trilha já bastante conhecida, não levou mais que alguns poucos instantes para que finalmente estivesse diante dos valorosos soldados que ali montavam guarda. Rári um oficial experiente era o responsável pela defesa da pequena torre durante a manhã, e serviam-lhe quatro outros anões, Vín, Thir, Rór e o jovem Jár, neto de Vár, um dos respeitados servos de Dáin, morto em defesa de seu Senhor.

-Salve mestre Rári! – Gritou o rei ainda de longe – Como estão estes ermos nobre Senhor?

-Salve Thórin! – respondeu o oficial tão alto quanto o rei – filho de Dáin, Rei Sob a Montanha! Estão bem meu senhor, muito bem, ninguém rompe nossas fronteiras sem antes passar por nós.

-Saudações jovens mestres. Jár! Vejo que estás quase tão forte quanto vosso pai e avô – Disse Thórin a sorrir ao anão citado e aos demais – Mas dizei mestre Rári, nenhuma só novidade, nenhum cavaleiro suspeito, nenhum corvo contando casos duvidosos? Nenhum mendigo? Larápio ou elfo?

-Já que perguntastes meu senhor... – Respondeu Rári com uma pausa suspeita – Mestre Váli que não dorme nunca, andou dizendo sobre vultos estranhos ao sul.

-Vultos?! – Perguntou o Rei com certo espanto – Que tipo de vultos o ancião andou vendo?

-Disse que em noites de lua clara, como foi ontem. – Continuou o outro – Fantasmas de guerra, cavaleiros e arqueiros de Valle assombram a parte inferior da torre, cavalgando sem rumo ou marchando com seus clarins prateados... Váli disse ter inclusive ouvido o toque de guerra dos homens do rei morto.

-Pelas barbas de Durin! – Exclamou Thórin alarmado – há de ser impressão do velho mestre, não creio que essas histórias sejam verdadeiras.

-Não sei se é verdade ou não meu senhor – Disse Rári com seriedade – Mas Váli deixou os soldados da noite um bocado atentos. E Ghim que costumava caminhar mesmo nas noites mais escuras até longe, já está bem ressabiado pelas histórias, pois de acordo com Váli os fantasmas só partirão quando mudar a lua, o que levará algum tempo.

-Não será bom se essa história se espalhar, há de alarmar tanto a montanha quanto a cidade dos homens – Afirmou o rei no que parecia um alerta – Sabe como são as línguas mestre Rári, hoje vultos, amanhã servos do escuro, enviados de lordes há muito falecidos, mas que em mentes ávidas por boas histórias, poderiam ter retornado.

-Sim meu senhor – respondeu Rári – Assim será feito.

-Diga a Váli que descanse. Como recompensa por seus esforços – Prosseguiu Thórin – E que fique descansando até que mude a lua.

-Que assim seja Senhor – Disse o outro – Que assim seja.

-Bem, bem, bem, há um conselho a minha espera – Disse por fim o rei – Devo retornar, até mais ver mestre Rári... Senhores!

Dizendo aquelas palavras e refletindo sobre os ditos do outro anão o rei deu meia volta, retornando à Montanha. Thórin não era supersticioso e não conseguia acreditar amplamente na existência de fantasmas ou nas demais lendas que tanto apreciavam os velhos soldados. Mas era certo que muitos ficariam alarmados se tais palavras deixassem a Torre da Colina dos Corvos, mercadores, aprendizes, mestres em diversos ofícios e os costumeiros visitantes da montanha diminuiriam com certeza suas idas e vindas, temendo a desagradável presença dos soldados mortos que supostamente corriam próximos da torre.

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